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segunda-feira, 7 de março de 2016

Mulheres do século 21 com comportamentos do século 20 e tarefas do século 19

Por Cássia Gôngora Goçalo e Catarina Marcolin


Desde o século 19 já havia mulheres desempenhando papéis de destaque como cientistas. Por exemplo, Bertha Lutz (filha de Adolfo Lutz) nasceu no século 19 e foi bióloga, ativista, feminista e pioneira na luta pelos direitos das mulheres no início do século 20. Se tornou um ícone para as mulheres cientistas brasileiras. Ela foi sensacional no seu tempo, quebrando tabus e lutando pelo reconhecimento da mulher pela cidadania, num tempo onde isso era inconcebível! Assim como Sylvia Earle, nascida no século 20, que enfrentou a comunidade científica e fez com que as mulheres deste blog tivessem admiração por ela. Leiam mais sobre a vida desta incrível cientista aqui



Figura 1. Bertha Maria Júlia  Lutz, zoóloga especialista em anuros e  ativista feminista durante o século 20. Fonte: http://www.cnpq.br/web/guest/pioneiras-view/-/journal_content/56_INSTANCE_a6MO/10157/902173


E hoje, século 21, ainda vemos diferenças e preconceitos entre os gêneros, o que parece inacreditável, mas nem por isso é menos real!


Figura 2. Sylvia Earle, bióloga marinha e pioneira 
na inclusão de mulheres em expedições científicas. 
Fonte: http://www.oceancrestalliance.org/wp-content/
uploads/2014/02/Sylvia-Earle-in-a-Deep-Rover_horiz.jpg

Decidimos escrever este post após refletir bastante ao longo das discussões expostas neste blog, na sessão Mulheres nas Ciências. Eu (Cássia) nasci em uma família cujo sobrenome significa Batalha (Gongora), na qual as mulheres não poderiam deixar de fazer jus ao nome, ou seja, são batalhadoras. Tenho orgulho de falar que são mulheres fortes, guerreiras, independentes, bem-sucedidas profissionalmente e financeiramente. E claro: Mães e Avós. Desde pequena escuto esta frase “Menina você deve estudar e trabalhar para ter seu próprio sustento e que nunca na sua vida você tenha que pedir para um homem comprar, nem sequer, um pacote de absorvente para você”. E enfim, hoje sou uma dessas mulheres. 










Figura 3. Orquídea Gongora por Margaret Mee. Flores resistentes com florações magníficas, espécies exigentes (como nós!) quanto às condições ambientais, ocorrendo em habitats específicos na Amazônia.



Eu (Catarina) também venho de uma família muito matriarcal, com mulheres fortes que perseguiram seus sonhos profissionais. Somos professoras, agrônomas, pesquisadoras e, como Cássia, também sempre fui incentivada a desenvolver o intelecto e a buscar a realização profissional e a independência financeira. E isso não veio somente das mulheres da família, meu pai sempre me chamava a atenção para que eu pensasse com minha própria cabeça e que formasse minhas opiniões com base em diferentes fontes e pontos de vista.
Apesar do meu contexto familiar favorável e de eu ter tido acesso à uma educação razoável, eu não sou imune a pensamentos e comportamentos machistas, vez ou outra. E é por isso que consideramos que a discussão sobre igualdade de gêneros, direitos humanos e muitos outros temas complexos, devem estar sempre presente no nosso dia, se reconstruindo e aprimorando. Um comentário que outrora parecia inofensivo, depois de ouvir outros pontos de vista pode parecer completamente inaceitável.

Apesar da discussão sobre igualdade de gêneros ser muito mais ampla nos dias de hoje, o que percebemos, como meras observadoras do mundo à nossa volta, é que estamos ainda longe da tão almejada igualdade. A maioria das nossas amigas/conhecidas assumiram tarefas antes ocupadas pelos homens, mas não abandonaram as tarefas dos séculos passados. Estudamos (muito), trabalhamos (demais), construímos uma carreira (sólida) e administramos uma família (com amor), cuidamos dos afazeres domésticos, da limpeza da casa e do preparo das refeições (com carinho), do pagamentos das contas, além de cuidarmos da saúde (da nossa, do marido/esposa e dos filhos) e da estética, e hoje parece que nos tornamos fortes, porém exaustas, mulheres do século 21. Essa sobrecarga de tarefas pode ser atribuída a uma cultura  inflexível de que as tarefas domésticas são uma obrigação primária da mulher. O homem quase nunca divide as tarefas domésticas e quando o faz, geralmente é  no segundo plano.

Além disso, precisamos nos perguntar se nós mulheres queremos realmente essa vida exaustiva e competitiva, acumulando tarefas, tentando fazer o tempo se multiplicar. Por outro lado, as mulheres que escolhem, de forma consciente, não casar e/ou não ter filhos, para se dedicar inteiramente à carreira e aos seus hobbys ou a qualquer outra atividade, frequentemente são vistas/julgadas como egoístas ou solitárias. Essa mulher é vista dessa forma inclusive por nós, mulheres esclarecidas do século 21.



Figura 4. A mulher maravilha do século 21. Ilustração de Caia Colla.

Nós temos energia, capacidade, disposição e muito orgulho do que conquistamos ao longo dos séculos, mas frequentemente ouvimos relatos de mulheres sobre essa sobrecarga de tarefas, pois ao longo dos anos, o que mais fizemos foi acumular funções (“Enquanto descanso carrego pedras” - frase constantemente citada pela bisavó da Cássia, no sentido de que após o trabalho, ainda há as tarefas caseiras para serem realizadas). Você não se cansa só de pensar sobre isso? E será que estamos mais felizes tentando desempenhar esse papel de mulher maravilha? Este papel é algo que nós escolhemos desempenhar ou nos foi designado? Quando entrevistada, Indra K. Nooyi, CEO da PepsiCo, contou sobre as dificuldades em lidar socialmente com sua escolha de priorizar a carreira e como ela acredita que mulheres de sucesso fingem que podem ter tudo, tentando conciliar um alto cargo executivo e os papéis de mãe, nora, filha, esposa (confira a entrevista completa aqui, é muito interessante!). Mas não estamos aqui para julgar suas escolhas, mulher do século 21, o que pretendemos com esse post é promover uma reflexão sobre isso. O mais importante é que cada mulher consiga encontrar as respostas dentro de si mesma e que seja honesta em seus relacionamentos. Precisamos escolher conscientemente quais atividades iremos desempenhar, sem culpa e sem imposição por terceiros.

No momento em que definir sua postura diante da sua própria vida, lembre-se que homens e mulheres do século 21 possuem comportamentos diversos e que apesar de ninguém se autodeclarar machista, muitos de nós ainda se comportam como companheiros(as) do século 20. E isso vale para qualquer tipo de relação onde sejam estabelecidos papéis tradicionais. Independentemente do comportamento alheio, saiba que cada uma de nós influencia as pessoas ao nosso redor, especialmente como futuras mães, tias e avós de homens e mulheres. E ser independente, significa liberdade em escolher os papéis a serem exercidos em nossas vidas (dona de casa, profissional, solteira, casada ou mulher maravilha). 
Nossa mensagem é: respeite as opções alheias, dentro do seu seio familiar  e profissional e passe a mensagem de que igualdade de gêneros é muito mais do que dividir tarefas domésticas ou igualdade salarial, é respeitar e reconhecer que entre homens, mulheres, gays, transexuais, transgêneros, etc., somos todos seres humanos. E muitas de nós somos novas mulheres com hábitos antigos... ainda. Não esqueçamos que ainda temos um longo caminho a percorrer.

Portanto, aproveite o Dia Internacional da Mulher e dedique-se à você!

Referências:


  • Gongora, B. 2002. Recordando passagens da minha vida. iEditora. São Paulo, 102 p.
  • Silva, M. F. da, Silva, J. B. da, Rocha, A. E., Oliveira, F. P., Gonçalves, L. S., Silva, M. F. D., & de Queiroz, O. H. (1995). Inventário da família Orchidaceae na Amazônia Brasileira: parte I. Acta Botanica Brasilica. p. 163 a 175
  • http://memoria.cnpq.br/web/guest/pioneiras-view/-/journal_content/56_INSTANCE_a6MO/10157/902173;jsessionid=524922C3FCF3F135300954E25C1260A9?p_p_state=pop_up&_56_INSTANCE_a6MO_viewMode=print



Sobre Caia Colla, autora do desenho deste post:
Sou Caia Colla. Mais uma mulher comum tentando administrar muitas bolas no ar. Trabalho período integral como técnica de laboratório no Instituto Oceanográfico, sou mãe de duas meninas lindas e esposa de um cara incrível. Mas meu dia tem muitos turnos e para sobreviver à pressão e ter prazer nas pequenas coisas preciso ser mais que isso. A arte me salva. Espanto os maus espíritos cantando numa banda e os meus demônios através do desenho. E assim sigo, sendo muitas em uma.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

As aventuras de trabalhar no mar


Quando decidimos ser biólogos ou oceanógrafos e escolhemos trabalhar com os organismos marinhos não vemos a hora de fazer o trabalho de campo. Praias, regiões costeiras e até mesmo mar aberto!!! Mas não contamos com os imprevistos, ou podemos chamar aqui de aventuras.... Como tempestades, falta de água doce na embarcação, âncoras enroscadas, variações das marés, entre outras.
Já passei por muitas situações de pura adrenalina. Me lembro uma vez, quando estava embarcada no navio oceanográfico Prof. W. Bernard, que ocorreu uma forte tempestade com ondas gigantescas que sacudiam o navio de um jeito que, para nossa segurança, não podíamos sair do interior do navio... esse mal tempo durou cerca de 3 dias!! Durante um embarque passamos por uma situação de confinamento, imaginem só sem poder sair para o convés.... Tivemos que ter muito autocontrole e tomar remédios para enjoos!!!
Nesta mesma expedição, devido ao mal tempo, houve um atraso no cronograma para cumprir a jornada planejada e ocorreu um problema técnico, consequentemente ficamos sem água doce... mas pensem, tomar banho de água salgada tudo bem!!! Mas... escovar os dentes blahhhh!!! Horrível!!
Outra aventura que passei no mar foi em uma coleta no Porto de Santos. O ponto de coleta era exatamente no canal, onde transitam as embarcações, e ficávamos com o barco ancorado. Era no início da noite quando um navio cargueiro começou a sinalizar sua passagem... daí então seria apenas levantar âncora e sair da frente. Uhum!!! Mas a âncora ficou enroscada nos cabos que ficam no fundo e pensem... o navio buzinando e a gente preso!!! Socccoooorrooooo era o que eu queria gritar na hora... mas a equipe conseguiu cortar o cabo da âncora e saímos a tempo da embarcação passar.. Ufa!! Essa foi por pouco...
Em outro momento também estávamos no meio da tempestade com ondas fortes e raios caindo no mar e o piloto do barco falava: - Alguém olha pra mim aí na frente, pois não estou enxergando nada!! Oi? Como assim? Pensei: Cadê o colete salva-vidas vou pular!! Tchau!!! Mas a equipe foi orientando o piloto e chegamos na marina sãos e salvos!!!
Além de ficarmos molhados praticamente o dia todo, trabalhar com capacetes e coletes (suuuper confortáveis!! -#distractinglysexy), passar frio, calor, trabalhar embaixo de chuva, pegar peixes na mão, coletar algas, puxar redes de coleta e até mesmo carregar equipamentos pesados,  amamos nossa profissão!!

Há uma hashtag no Twitter e Instagram divertíssima, onde pesquisadores contam aventuras em trabalhos de campo, nem todos em mar, mas recomendo a busca #fieldworkfail. Imagine por exemplo, você colocar um chip de mais de 1000 dólares em uma raia e depois ver que se trata do mesmo indivíduo que você “chipou” no dia anterior, entre outras…

Mas temos muitas aventuras boas e fascinantes como avistar um grupo de baleias e golfinhos, ver passar um cardume de peixes voador, observar um albatroz acompanhando o barco, nasceres e pores do sol fantásticos, céus magnificamente estrelados e nos deslumbrar da variação de cores do mar a cada dia!!!

Golfinhos observados durante as expedições por Cássia (Projeto Marflat) e Catarina (Projeto Antares) na região de Ubatuba. Fotos: Cássia Goçalo e Catarina Marcolin.
Abaixo segue alguns depoimentos das biólogas do blog e suas aventuras durante os trabalhos de campo:

Catarina - Eu já participei de alguns embarques, em todos eles o trabalho era sempre muito duro, mas o clima sempre foi de muita diversão. Os maiores perrengues aconteceram em duas ocasiões, a primeira foi num embarque na costa do Rio de Janeiro, quando o tempo "virou" e voltamos "correndo" para a costa, com altas ondas pelo caminho. A segunda aconteceu quando embarquei no veleiro da expedição Tara Oceans também tivemos três dias inteirinhos de tempo muito ruim… ninguém sentia apetite para comer - por conta de enjoos - e durante a noite mal dava para dormir porque o barco se eleva com a ondas e batia com toda a força na água sacudindo tudo, parecia que eu ia cair da cama a cada cinco minutos. Mas os 12 dias restantes dessa expedição foram de tempo muito bom e navegação tranquila, apreciando a comidinha maravilhosa da nossa cozinheira francesa que até me passou uma receita de brioche (nhammm). Mesmo passando por ocasionais dificuldades minhas lembranças são principalmente dos momentos bons e divertidos quando fiz amigos, avistei paisagens maravilhosas e apreciei muita fauna carismática, apesar do enorme cansaço com todo o trabalho que é super intenso. 

Por do sol em alto mar Projeto Ecosar. Foto Jana del Favero

Jana – Minhas melhores aventuras não aconteceram em alto mar como as já citadas aqui, e sim bem perto da costa, durante o meu mestrado. Eu tinha que coletar peixes da zona de surfe durante a maré alta e baixa (lembra do meu post sobre isso?! Clique aqui). Saíamos de chatinha ou voadeira, ou seja, um pequeno barco com motor de popa, da base de Cananéia do IOUSP e íamos até a Ilha Comprida, próximo da barra. Durante a maré baixa era sempre tranquilo parar a chatinha na praia, pois quase não havia ondas na parte mais interna do estuário… Porém, durante a maré alta era sempre uma aventura, pois tinha muita correnteza, e ás vezes ondas quebrando, o que dificultava o desembarque das pessoas e dos equipamentos… Tombos eram comuns… Parávamos sempre no ponto mais abrigado e andávamos para os outros, entretanto, uma vez a maré subiu muito rápido e tivemos que voltar com água no joelho, carregando rede, equipamentos e amostras… Outra vez, voltando já pra base, o motor enroscou em um cabo que prendia um cerco (uma arte de pesca bem comum no litoral sul de SP) e a chatinha virou… Fomos todos pra água e por sorte ninguém se machucou! Alguns equipamentos quebraram, mas as amostras foram salvas! Diria que foi um belo susto!
Outra grande experiência que tive foi no período que fiquei no exterior (http://batepapocomnetuno.blogspot.com.br/2015/04/uma-brasileira-fazendo-pesquisa-na.html), durante o inverno coletávamos a -30° C e como o chão da embarcação molhava com a retirada das redes, a água logo congelava, então tínhamos que nos equilibrar em um barco balançando em um chão com uma camada de gelo, um super rinque de patinação no gelo!

Atobás acompanhando o navio de Pesquisa (Projeto Ecosar). Foto: Jana del Favero

É verdade... trabalhar no mar é uma aventura!! Eu recomendo!!!

Cássia embarcada no barco de pesquisa da USP durante um projeto em Ubatuba - SP.
E você, já passou por alguma enrascada, cilada ou diversão no mar trabalhando? Deixe um comentário contando como foi!

terça-feira, 7 de julho de 2015

Um “mar” de algas

Por Cássia Goçalo e José Eduardo Martinelli Filho

Você já deve ter ido a uma praia e se decepcionado quando viu muitas algas marrons boiando na água do mar. Além do mal cheiro, uma grande dificuldade ao nadar... Pois é, essas algas são geralmente inofensivas aos seres humanos e podem ser fontes de substâncias anticoagulantes, antioxidantes, antipiréticos e analgésicos, além de funcionarem como biofiltros da poluição marinha causada pelos seres humanos.

Está ocorrendo um aumento na frequência e na intensidade das algas encalhadas nas praias ao redor do mundo. O fenômeno chamado de “marés de algas” seria explicado pela eutrofização costeira (aumento de nutrientes no ambiente marinho, relacionado a poluição). As “marés de algas” podem prejudicar as economias locais baseadas no turismo, aquicultura e a pesca artesanal tradicional, impedindo pequenos barcos de navegarem e entupindo tanques de cultivo.

Há algumas semanas houve uma invasão de Sargassum (um tipo de algas marrons ou pardas) no litoral do estado do Pará. As algas também foram registradas em grandes quantidades em Fernando de Noronha e no estado do Maranhão. Como relatado pelo Prof. Martinelli da Universidade Federal do Pará “Elas são transportadas pelo oceano através das correntes marinhas por quilômetros de distância. A floração de algas que ocorreu no Brasil, possivelmente é provinda do mar do Sargaço e do Caribe. Essas algas podem ser utilizadas como fertilizante, sendo colhidas antes de atingir a costa, processadas e distribuídas aos agricultores tradicionais”. Confira a reportagem completa http://g1.globo.com/pa/para/bom-dia-para/videos/t/edicoes/v/algas-marinhas-mudam-a-paisagem-da-praia-do-atalaia-em-salinas/4110776/.




Algas pardas do gênero Sargassum encalhadas na praia do Atalaia, em Salinópolis, Estado do Pará, durante o mês de maio de 2015.






As algas do gênero Sargassum são encontradas em bancos de algas nos mares tropicais e subtropicais e conseguem flutuar pois possuem “bolsas” de ar. Servem como habitat de muitos organismos marinhos e espécies de peixes como o “porquinho”, até mesmo golfinhos e tartarugas foram observados entre as algas. No post Algas flutuantes: o meio de transporte dos invertebrados marinhos vimos como os animais são transportados por macroalgas flutuantes do gênero Macrocystis, da mesma forma que ocorre com o Sargassum.


Sargassum, com as bolsas de ar que auxiliam a flutuação no mar.


O encalhe de algas no litoral do Pará é um fenômeno recente, só chamou a atenção quando em 2013, grandes quantidades foram relatadas uma vez no município de Salinópolis. Já em 2014, pilhas de algas se acumularam durante dois períodos no mês de maio. Em 2015, até o momento, já foram três eventos. Para ilustrar o tamanho do problema, para uma única praia (Atalaia, município de Salinópolis) o professor estimou cerca de 174 e 234 toneladas de alga para os dois encalhes ocorridos em 2014. 

Tais eventos duram entre 2 a 5 dias, período em que as praias ficam lotadas de algas. O turismo é afetado uma vez que, expostas ao sol, as plantas entram em rápida decomposição, liberando um cheiro desagradável para a maioria dos banhistas. Já as crianças que moram no local se divertem com a pilha de algas, enquanto pescadores reclamam da grande quantidade do material em suas redes de arrasto. Algas pardas do gênero Sargassum encalhadas na praia do Atalaia, em Salinópolis durante o mês de maio de 2015. 

Descrevendo assim, as algas até parecem nocivas para o ambiente e para as atividades humanas, mas tais organismos podem ser benéficos, inclusive para a economia local se forem utilizadas as estratégias necessárias. Outras espécies de Sargassum são utilizadas em países como o Japão e a China na alimentação e também como fertilizantes, além de matéria-prima para a extração de gelatina e até mesmo de álcool. Para a região afetada na costa paraense, o mais viável, num primeiro momento, seria a coleta das algas e distribuição para os agricultores locais, para a produção de adubo. 

Vale lembrar que o complexo de espécies Sargassum natans/fluitans são algas que podem fechar seu ciclo de vida na coluna de água, ou seja, independente do fundo marinho. As algas encontradas nas praias da região Norte do Brasil e em Fernando de Noronha pertencem justamente a tais espécies. As mesmas também são responsáveis pela formação do mar de Sargassum no Caribe. O professor Martinelli apresenta duas explicações sobre a origem das algas: a primeira é de que essas algas se desprendam do mar de Sargaço e sejam transportadas até a costa norte do Brasil. A segunda é de que uma população dessas algas já esteja se desenvolvendo recentemente na costa da região norte do Brasil. 

Amostras de algas foram enviadas para as professoras Maria Teresa Széchy e Beatriz de Barros Barreto, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, para sequenciamento do DNA e assim dar subsídios para as explicações levantadas.  

Estudos sobre as marés de algas são considerados essenciais para se obter reais perspectivas ambientais e econômicas futuras para o Brasil, em termos de viabilidade e aproveitamento deste recurso natural ao invés de apenas considerá-las como "ervas daninhas". 


Artigos e sites recomendados: 

Montes, R. C. Estudo Ficoquímico da alga marinha Sargassum vulgare var. nanum E. de Paula (Sargassacea) do litoral paraibano. Universidade Federal da Paraíba. Dissertação de Mestrado, João Pessoa, 2012. 115 p. 

Smetacek, V.; Zingone, A. 2013. Seaweed tides on the rise. Nature. Vol 504 p. 84-88.  

Sobre o convidado:

O professor José Eduardo Martinelli Filho (também conhecido como Zé Du) foi aluno de mestrado e doutorado do Instituto Oceanográfico da USP e colega das editoras deste blog. Foi professor substituto na UNESP São Vicente em 2008, professor assistente na UFPA campus de Altamira entre 2009 a 2012 e professor adjunto da Faculdade de Oceanografia da UFPA em Belém, desde 2012. Formado em Biologia, atua principalmente nos temas Oceanografia Biológica, Ecologia Marinha e Zoologia de Invertebrados.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Pelo nosso imenso amor...... ao mar!!!!

Por Cássia Gôngora Goçalo 

Cássia e Newton, biólogos e amantes do mar. Trocamos nossos primeiros olhares em uma comemoração de defesa de mestrado que acontecia no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e, deste dia em diante, nos apaixonamos cada vez mais. Acreditem... foi amor à primeira vista!!!

A cada dia, mês e ano que passava o nosso relacionamento se tornava mais intenso e a necessidade de fazer as coisas do dia a dia juntos aumentava. Foi assim que conseguimos administrar nosso tempo como casal em casa e como equipe em laboratórios do IOUSP e em embarques científicos.


Cássia e Newton embarcados em barcos e navios de pesquisa.

Após anos de relacionamento ficamos noivos e o mar continuou a nos acompanhar. Mudamos para o litoral norte de São Paulo para desenvolver um projeto de pesquisa juntos e então tínhamos que fazer coletas mensais, sendo a equipe praticamente nós dois, daí nos tornamos cada vez mais um só. 

Conseguimos conciliar o trabalho, o lazer e o lar. A parceria em ter uma pessoa de confiança te apoiando e auxiliando nas atividades em laboratório ou em campo fazia a nossa relação se fortalecer mais. Poder viajar e participar de congressos também era um ponto forte a nosso favor, assim como o auxílio nas correções de trabalhos e elaboração de pôsteres.


Cássia e Newton apresentando pôsteres em congressos.

Montamos um micro laboratório em casa, onde conseguimos analisar amostras e ensinar um ao outro os nossos conhecimentos, eu de ictioplâncton e Newton de zooplâncton marinho. Essa parceria nos rendeu diversos trabalhos de consultoria ambiental juntos, pois o conhecimento e os trabalhos se completavam.

Cássia e Newton trabalhado com as amostras de organismos marinhos.

A minha mãe sempre dizia a todos: “a Cássia só poderá casar com um biólogo, para poder compreendê-la na sua dedicação à ciência”. Na mosca... praga de mãe pega kkkkk... e assim se sucedeu, eu e Newton resolvemos casar e celebrar nossa união, junto à quem???? Ao mar... só poderia ser o MAR. Nos casamos em Ubatuba - SP, sendo a cerimônia e a festa realizadas na praia, pé na areia. E claro, a lua de mel não poderia ser longe “dele”!


Cássia e Newton no casamento em Ubatuba e Lua de Mel em Punta Cana.

Mas toda essa experiência que vivemos foi fundamental para que eu pudesse concluir meu doutorado, com dedicação de 24 horas à tese, uma fase muito intensa para quem está na elaboração do trabalho e mais intensa para as mulheres, que precisam deixar de lado algumas tarefas de casa, o marido, o cachorro e até mesmo as festas de família... Não é NADA fácil... O apoio do Newton e sua compreensão neste momento era o que me dava forças para continuar na frente do computador, lendo artigos e escrevendo os parágrafos (veja aqui sobre meu trabalho de doutorado).

Atualmente Newton está trabalhando offshore (embarcado em navios de apoio às plataformas de petróleo), desenvolvendo um projeto de monitoramento ambiental, o que exige que ele fique 14 dias embarcados e 14 dias em terra. Esse trabalho permitiu que vivêssemos uma nova fase do nosso relacionamento, pois acostumados a estar juntos em todos os períodos do dia, agora estamos ligados pelo coração em alto mar (e pelo WhatsApp kkkk ...).

Como todo relacionamento, também tivemos momentos de tempestades e calmarias, assim como no mar, mas aprendemos a lidar com as situações e a enfrentar as tempestades, para ser sincera tivemos mais momentos de boas pescarias!!!

Aprendemos que o RESPEITO é a base do relacionamento. A AMIZADE é a sustentação e viver intensamente a vida é o AMOR.

Dedico este post a todos os casais que se conheceram através do mar... e que esse gigante possa inspirar mais pessoas a se apaixonarem.

Feliz Dia dos Namorados!!!

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Mais notícias sobre larvas de peixes

Olá a todos!

Há alguns dias a agência de notícias da USP publicou uma notícia sobre o trabalho de doutorado da nossa colunista Cássia Goçalo. A reportagem ressalta as importantes implicações dos resultados encontrados pela nossa colunista durante o seu doutoramento. Acesse a matéria aqui e saiba mais sobre o comportamento de larvas de peixes. Se você ainda não conferiu o post dela sobre esse mesmo assunto, acesse aqui



Curvaturas do corpo de uma larva de garoupa, Epinephelus marginatus, cinco dias após a eclosão. Técnica de imageamento utilizada: microscopia de sistemas de filtros pareados. Foto: Cássia Goçalo.

Consulte o trabalho completo no link abaixo: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/21/21134/tde-07052015-105843/





terça-feira, 14 de abril de 2015

A vida “dura” de um peixe marinho bebê

Por Cássia G. Goçalo


Muitos não sabem, mas a maioria dos peixes que habitam os oceanos liberam suas células reprodutoras (óvulos e espermatozoides) no ambiente marinho, onde ocorre a fertilização formando os ovos. Peixes como sardinhas, garoupas, bijupirás e atuns apresentam essa estratégia e são capazes de produzir milhões de ovos. Ao fim do desenvolvimento do embrião, após 24 horas (mais ou menos, dependendo da espécie), sucede o nascimento (eclosão) de uma pequena larva. 



Para que essa pequena larva sobreviva no ambiente, é necessário que o alimento (organismos do zooplâncton, leia mais em Para o plâncton, tamanho é documento...) seja ideal, em sua qualidade e quantidade. Afinal, “bebês precisam ser bem alimentados”, para garantir uma boa saúde e continuar crescendo até atingirem a fase adulta. No mar há muitas formas de vida que se alimentam de pequenos organismos, além do mais, ovos e filhotes na natureza são alimentos nutritivos. Os milhões de ovos e larvas são ingeridos por outros peixes e demais animais marinhos, como por exemplo águas-vivas, compondo a cadeia trófica marinha.


Uma água-viva Liriope tetraphylla capturando uma larva de 
bijupirá Rachycentron canadum de 5 mm de tamanho.

Acreditava-se que essa pequena larva ficava flutuando na água do mar durante dias enquanto ocorria o desenvolvimento completo dos olhos, da boca e das nadadeiras. Em meu projeto de doutorado estudei o comportamento dessas pequenas larvas nos primeiros dias de vida e observei que além de flutuarem, elas possuem uma capacidade natatória incrível e são capazes de atingir uma velocidade extremamente alta, até 40 vezes o tamanho do corpo, enquanto nadam e capturam o alimento. E pensar que os homens mais rápidos do mundo nadam a uma velocidade de 1,5 vezes o tamanho do corpo por segundo!

A natação dos organismos marinhos, de modo geral, está relacionada com a alimentação, reprodução e fuga de predadores. Para nadar até o alimento as larvas de peixes precisam movimentar as nadadeiras, dar impulsos, abrir a boca e capturar a presa. Já para fugir de predadores flexionam o corpo e mudam de direção para escapar. Esses padrões comportamentais foram registrados em meus estudos com larvas de garoupas (Epinephelus marginatus) e bijupirás (Rachycentron canadum). Para realizar essa pesquisa nós (eu e a equipe do Laboratório de Sistemas Planctônicos da USP, http://laps.io.usp.br/index.php/en/) montamos um sistema óptico, com uma configuração semelhante a de um microscópio, porém no sentido horizontal, possibilitando o estudo com os organismos de tamanhos de 2 a 5 milímetros dentro de um pequeno aquário, sendo observados por uma câmera de vídeo que captura uma alta taxa de quadros por segundos (também conhecida como "supercâmera lenta"). Veja mais em https://www.facebook.com/lapsiousp.

Mesmo com toda essa habilidade, ainda assim, cerca de apenas 1% das larvas sobrevive nos mares. Esta elevada taxa de mortalidade acontece devido à predação e/ou inanição, ou seja, morrem de fome. Uma pequena larva ao passar por todos os desafios, se tornará um peixe adulto atingindo a maturidade, e produzirá uma nova geração de ovos e larvas mantendo um equilíbrio natural entre as espécies e o ecossistema marinho.

O comportamento das larvas de peixes marinhos ainda precisa ser investigado mais a fundo, uma vez que há no ambiente marinho cerca de 16 mil espécies de peixes. Outros estudos abordaram o comportamento de peixes adultos através das filmagens apresentadas pelo National Geographic Channel (http://natgeotv.com/uk/hunters-of-the-deep/galleries/super-fast-fish). Os pesquisadores oferecem diferentes presas e filmam o comportamento natatório e alimentar de diferentes espécies de peixes marinhos. Para os curiosos: acessem a página e assistam o vídeo “Blink of an eye”. 

Dúvidas e comentários entrem em contato e mandem mensagens. 

Até o próximo post!!! 


Referências

FUIMAN, L. A. Special considerations of fish eggs and larvae. In: Fuiman, L. A.; Werner, R. G. (eds). Fishery Science: The unique contributions of early life stages. Blackwell Science. p. 1- 32, 2002.

GOÇALO, C.G.; AQUINO, N. A. de; KERBER, C. E.; NAGATA, R. M.; LOPES, R. M. Swimming behavior of cobia larvae (Rachycentron canadum) facing prey and predator. 38th Annual Larval Fish Conference, Quebéc, Canadá. 2014

HOUDE, E. D. Emerging from Hjort’s shadow. J. Northwest Atl. Fish. Sci., v. 41, p. 53-70, 2008.