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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Garoupas ao mar

Por: Cláudia Kerber



   É de conhecimento corrente que as populações marinhas estão declinando em todo o mundo. As três principais abordagens para evitar o esgotamento dos estoques são controlar os esforços de pesca (cotas de pesca, limitação de tamanho de captura, especificação de petrechos), garantir os locais e períodos de reprodução (defesos, áreas de proteção ambiental) e aumentar a população através de programas de repovoamento. Os dois primeiros métodos formam a base das políticas públicas para a conservação das espécies marinhas no Brasil e impõe sérias restrições à pesca artesanal. A terceira opção, o repovoamento, permite restabelecer a biomassa de reprodutores e acelerar a recuperação dos estoques assegurando a sobrevivências de espécies ameaçadas.


  O repovoamento é uma das principais ferramentas para compensar danos causados por atividades humanas no meio ambiente e tem sido largamente utilizado para a recuperação dos estoques pesqueiros em bacias, rios e reservatórios brasileiros. O repovoamento de espécies marinhas tem sido utilizado desde o Século 19 e no Japão, o programa nacional de recuperação dos estoques pesqueiros envolve mais de 80 espécies de peixes, moluscos e crustáceos. No Mar Cáspio, são criados e soltos anualmente mais de 12 milhões de juvenis de espécies de esturjão nativo (Acipenser persicus) que sustentam praticamente toda a indústria do caviar. Também são produzidos alevinos de outras espécies locais que sustentam a produção pesqueira de cooperativas licenciadas para a pesca.


   Ao desenvolver ações de repovoamento, é primordial que as formas jovens tenham boa diversidade genética e que sejam saudáveis garantindo que ao serem introduzidos não causem modificação da constituição genética da população selvagem e que se aplique o monitoramento.


    Para estabelecer uma estratégia adequada, é necessário conhecer a adaptação dos alevinos logo após a soltura, a dispersão, o processo de mortalidade dos juvenis e garantir que o habitat selecionado ofereça abundância de alimento e abrigo contra predadores. Entre 2013 e 2015, o Projeto Garoupa patrocinado pela PETROBRAS e executado pela ATEVI avaliou a população de garoupas em seus habitats nas regiões costeiras do norte do estado de São Paulo ao centro estado do Rio de Janeiro. Permitiu também identificar áreas para mitigação com o objetivo de reposição de peixes com baixos níveis populacionais como é o caso da garoupa. Além de avaliação de habitats, o Projeto Garoupa, também forneceu dados importantes sobre o comportamento de larvas e alevinos desta espécie utilizando telemetria que resultou em trabalho científico publicado no Journal of Fisheries and Aquaculture Development (Riedel, et al. 2017). Finalmente ótimas condições físicas, bióticas e abióticas para os alevinos podem ser oferecidas se a soltura for em áreas de ocorrência natural.

   No Brasil, uma iniciativa pioneira foi o projeto “Repovoamento do Litoral do Paraná com Alevinos de Robalo” que previa a produção de alevinos pelo Centro de Produção e Propagação de Organismos Marinhos (CPPOM) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná com recursos da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior/Fundo Paraná. O projeto colocou cerca de um milhão de larvas e 300 mil alevinos de robalo nas baias do litoral paranaense em 2006-2007. Já em 2001 o CPPOM havia produzido 252 mil de larvas de robalos, que foram soltas na baía de Guaratuba com o propósito de viabilizar a recuperação do litoral paranaense. Uma das críticas que se fez a esta iniciativa foi a falta de avaliação dos resultados do repovoamento. 

    A importância ecológica de algumas espécies predadores de topo de cadeia como a garoupa verdadeira (Epinephelus marginatus) está também no fato de exercerem alta influência na densidade de suas presas e na estrutura da comunidade de fauna, o que a torna importante na regulação e equilíbrio de comunidades de seus ambientes. A proteção desta espécie visa, portanto, não somente manter seus níveis de abundância, mas também manter o seu ecossistema equilibrado e sadio. Tem hábitos sedentários e estudos sobre a movimentação dela demonstram que permanecem em territórios pequenos, distintos e individuais de 1500 m² até 2 há.


  Embora algumas áreas de proteção no Mediterrâneo tenham conseguido êxito em impedir o declínio dos estoques já comprometidos de garoupa, em grande parte devido à proteção de habitats, a recuperação é lenta e a falta destes grandes predadores tem influência direta e negativa na dinâmica e estrutura do ecossistema coralíneo. Medidas de repovoamento tem sido avaliadas para restabelecer a saúde dos ambientes coralíneos.


  A garoupa verdadeira é listada na Red List da IUCN como ameaçada de extinção (A2d). No Brasil foi incluída na Lista de Recursos do MMA como sobre explotada (IN 05/2004) e também consta como sobre explotada no Decreto Estadual Nº 56.031/2010 que define as espécies da fauna silvestre ameaçadas, colapsadas e sobre explotadas no estado de São Paulo. Atualmente é protegida pela Portaria MMA 445/2014 na categoria Vulnerável, e já existe um Plano de Recuperação instituído pelo MMA (Portaria 228/2018) cuja pesca é regulamentada pela Portaria IM 41/2018.


    O PROJETO GAROUPAS AO MAR é um projeto de Análise e Monitoramento Genético para avaliar o processo de reintrodução de alevinos de garoupa verdadeira produzidos em cativeiro no setor Maembipe da APAMLN a ser executado por uma equipe com grande experiência sob a coordenação da Associação Ambientalista Terra Viva. Tem como parceiros o Instituto de Pesca de São Paulo e o Laboratório de Análise Genética de Animais Aquáticos da Universidade de Mogi das Cruzes. A APA Marinha do Litoral Norte de São Paulo e a Prefeitura de Ilhabela deram a anuência e são parceiros também. 


   Sendo um Projeto de interesse difuso da sociedade, optou-se por realizar um financiamento coletivo ou crowdfunding, um tipo de “vaquinha” via internet para levantar os recursos necessários. Qualquer pessoa pode acessar a plataforma kickante e fazer sua contribuição.


  Se quiser ser um agente desta mudança, nos ajude fazendo uma contribuição. Seguir a ATEVI (FB: atevi.org Instagram: atevi_meio_ambiente), compartilhar os conteúdos e pedir contribuições ajuda muito também.



  A campanha de financiamento coletivo termina na primeira semana de dezembro/2018.






Para saber mais:




Sobre a autora:


Claudia Ehlers Kerber é veterinária mestre em fisiologia com especialização em produção de peixes marinhos pelo South East Fisheries and Development Center, SEAFDEC, Filipinas. Desenvolve projetos de reprodução e produção de formas jovens de peixes marinhos.






Bibliografia

Anderson, A.B. et al. “Recovery of grouper … of a marine protected area in Southern Brazil.” Mar Ecol Prog Ser, 2014: 207-215.

Araujo, R.M. “Fatores preditores da variação espacial na biomassa de peixes recifais” SC, 2014. 100.

Astruch, P. et al. “Marquage et suivi do érou brun (Epinephelus marginatus) par Télémétrie acoustique” 2nd Symp on Medit. Groupers. Nice: 2007. 25-28.

Bartley, et al. “Restocking, stock enhancement, and searanching” Rev. Fish. Sci., 2008: 357-365.

Blankensip, H. et al. “A responsible approach to Marine Stock Enhancement.” American Fisheries Society Symposium. 1995. 167-175.

CDB. “Aichi Biodiversity Targets.” 2010. http://www.cbd.int/sp/targets.

Froese, R., FishBase. 2013. http://www.fishbase.org/, version 12/2013.

Koeck, B. et al. “Diel and seasonal movement pattern of Epinephelus marginatus inside a marine reserve.” Marine Environmental Research, 2014, 94 ed.: 38-47.

Riedel, R., C.E. Kerber et al. “Captive-reared Dusky Grouper as an alternative to repopulation of degraded reef habitats.” Journal of Fish and Aquac Dev, 2017, 3 ed.: 1-5.

Tessier, A.et al. “Evolution of the population of Epinephelus marginatus within the Natural Marine Reserve of Cerbère-Banyuls.” GEM. 2012. Poster.


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O que é Maricultura?

Por Gabrielle Souza 

Você já ouviu o termo “Maricultura”? Sabe qual a importância dessa prática? No Descomplicando Netuno de hoje vamos falar sobre isso!


   Você já deve ter escutado falar sobre a criação de algas e animais aquáticos em viveiros, não é mesmo?! Esta prática é conhecida como aquicultura, que nada mais é do que criar condições parcial ou totalmente controladas para cultivar esses organismos. Para ser considerada uma atividade de aquicultura, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), são necessários três requisitos:
  • que o organismo possua habitat predominantemente aquático em algum estágio de seu desenvolvimento;
  • a existência de manejo e produção;
  • a existência de um proprietário da criação (não é um bem coletivo).


   A aquicultura é um termo muito amplo e engloba todos os organismos que vivem em ambiente aquático. Por isso, para o cultivo e criação dos organismos marinhos ou estuarinos foi criado o termo maricultura. 

   A maricultura pode ser subdividida de acordo com o tipo de organismo cultivado, como por exemplo: peixes (piscicultura), crustáceos (carcinicultura - que se restringe somente a camarões no Brasil), moluscos (malacocultura) e algas (algicultura).

   Você deve estar se perguntando, “como estes organismos são criados e obtidos?” Geralmente os organismos são obtidos no ambiente natural em seu estágio jovem, porém também podem ser produzidos em laboratório, incluindo a reprodução e criação de larvas, conhecida como larvicultura.

   Depois da obtenção da forma jovem, os organismos são cultivados em viveiros escavados, tanques ou no mar, comumente em ambientes costeiros abrigados como baías, golfos, entre outros. Os viveiros mais utilizadas para criar este animais no mar são: gaiolas, longlines, balsas e tanques-rede.

Figura A: Longlines (ou longa linha). Fonte
Figura B: Lanterna com cinco andares, utilizados para criação de moluscos. Fonte
Figura C: Gaiola utilizada para criação de peixes. Fonte

      Para cada tipo de cultivo utiliza-se condições físico-químicas da água adequadas e controladas, como por exemplo temperatura, iluminação, salinidade, concentração de oxigênio dissolvido, amônia e nitrito.

  Na tabela abaixo observa-se a produção em toneladas da maricultura brasileira entre os anos de 2008 a 2010, onde as práticas mais comuns são carcinicultura e malacocultura. No país a maricultura é praticada em todos os estados costeiros e está, a cada dia mais, se estabelecendo como atividade produtora do pescado, sendo uma fonte de renda para diversas famílias, que garantem o sustento com essa prática. São destaques a região sul, em Santa Catarina, com a produção de mexilhões, ostras e vieiras.

Tabela Adaptada de Castello & Krug, 2015

    A maricultura é vista com grande importância na produção de alimentos e para outros ramos da indústria. É uma atividade de potencial crescimento, podendo atender o déficit entre demanda e oferta dos produtos pesqueiros. Porém, como qualquer outra intervenção humana na natureza, a maricultura tem seus pontos negativos e positivos. Ao mesmo tempo que é uma atividade que não sobrecarrega os estoques pesqueiros naturais, que gera fonte a comunidades tradicionais, pode causar desmatamento em áreas costeiras, a contaminação das águas, a introdução de espécies exóticas (que não são nativas) entre outros problemas. Assim sendo, faz-se necessário buscar uma maricultura cada vez mais sustentável, que minimize os impactos ambientais, e beneficie a sociedade e a economia local. Falaremos mais sobre isso em outro post, aguardem!


Para saber mais:




Referências

CASTELLO, Jorge Pablo; KRUG, Luíz Carlos. Introdução às Ciências do Mar. Pelotas: Textos, 2015. 602 p.


quinta-feira, 13 de abril de 2017

Peixes Ósseos e Cartilaginosos

Por: Gabrielle Souza

Você já se perguntou qual é a diferença entre peixes e raias? Será que a raia também é peixe? E os tubarões? Essas dúvidas surgem por conta da suas particularidades na forma física, mas não pense que é só isso. Existem outras características que os diferem, porém há características que os aproximam,  e é sobre esse assunto que vamos falar hoje!
























Fonte Imagem Cardume                         Fonte Imagem Raia

Mas primeiramente precisamos saber o que é peixe. Todos os peixes têm um cérebro protegido por uma caixa craniana, e na região da cabeça possuem olhos, dentes e outros órgãos sensoriais. A maioria dos peixes vive na água, são vertebrados, respiram por brânquias, possuem o corpo coberto por escamas e não são capazes de regular a própria temperatura corporal. Porém, como em toda regra existem as exceções: o peixe-bruxa não é vertebrado e não possui escamas, os peixes pulmonados têm respiração pulmonar, e o atum controla, de certa maneira, a temperatura corporal. O termo peixe, além daqueles que estamos acostumados a ver no supermercado e aquários, é também utilizado para definir organismos aquáticos como raias, tubarões e lampreias. Por isso a denominação “peixe” não representa um grupo taxonômico monofilético, uma vez que um grupo taxonômico monofilético deve incluir todos os organismos que possuem ancestral comum. Para que peixes seja considerado um grupo monofilético seria necessário incluir, por exemplo, os tetrápodes, que são os animais que possuem quatro membros, incluindo você Homo sapiens! (veja a figura abaixo)

Filogenia dos principais grupos de Chordata. † O táxon está extinto; grifo em vermelho representa os grupos citados nesse post (Adaptado de  NELSON et al. (2016)).

Os peixes pertencem ao Filo Chordata, ou seja, são animais que apresentam notocorda, uma estrutura de aspecto cartilaginoso posicionada na região dorsal e dá origem ao eixo do embrião, sendo o futuro lugar onde as vértebras daquele organismo irão se posicionar. Pertencem ao Infrafilo dos vertebrados, que  abrange aproximadamente 60.000 espécies, e possui uma organização taxonômica separada em diversas Classes. Porém apenas duas dessas Classes nos interessam neste momento: Chondrichthyes e Osteichthyes.


Exemplos de peixes cartilaginosos: A - tubarão (Fonte); B - raia (Fonte); D - quimera (Fonte) e peixes ósseos: C - Atum (Fonte)



  
Agora vamos falar algumas das diferenças destas classes!

   A Classe Osteichthyes possui duas Subclasses, denominadas de Sarcopterygii, que inclui os peixes com nadadeiras carnosas e os tetrápodes, e Actinopterygii, cujos organismos apresentam nadadeiras com raios. Os Actinopterygii, possuem as seguintes características gerais: esqueleto ósseo, pele coberta por escamas ósseas, respiram por brânquias protegidas pelo opérculo (uma placa óssea que cobre as brânquias) e possuem vesícula gasosa (antigamente denominada de bexiga natatória), órgão que auxilia na flutuabilidade dos indivíduos.

Tipos de escamas: placóide  e óssea (Adaptado de Bemvenuti & Fischer (2010).



   A Classe Chondrichthyes possui duas Subclasses denominadas de Elasmobranchii (raias e tubarões) e Holocephali (quimeras). As características gerais dessa Classe são: esqueleto cartilaginoso, corpo coberto por escamas placóides, respiração também por brânquias, mas essas não possuem a proteção dos opérculos (exceção das quimeras), não possuem vesícula gasosa e, portanto, apresentam outros mecanismos para auxiliar na flutuabilidade (por exemplo as nadadeiras peitorais largas, semi-rígidas e horizontais nos tubarões que reduzem o afundamento e o fígado grande e rico em óleo, o que diminui a densidade corporal).


Quadro comparativo entre Peixes ósseos e Peixes Cartilaginosos



   Uma característica que peixes ósseos e cartilaginosos possuem em comum e que todos sabemos, é que ambos além de super nutritivos, são deliciosos! Mas é importante ter cautela ao consumi-los pois muitas espécies estão ameaçadas de extinção. Assim, finalizo esse post compartilhando com vocês uma cartilha de consumo sustentável de pescados, criado pelo pessoal da Unimonte: http://www.unimonte.br/img/upload/institucional_tipo/16_146.pdf. Bom apetite!






Posts relacionados:







Referências

HICKMAN C.P.; ROBERTS, L.S & LARSON, A. 2004. Princípios Integrados de Zoologia. Guanabara Koogan Editora. 846p.

What is a fish? Understanding Evolution. Disponível em: <http://evolution.berkeley.edu/evolibrary/article/fishtree_02>. Acesso em: 05 abr. 2017.

NELSON, Joseph S. et al. 2016. Fishes of the World. 5. ed. New Jersey: John Wiley & Sons, Inc., Hoboken. 752 p.

BEMVENUT, M. A. & FISCHER, L. G. 2010. PEIXES: MORFOLOGIA E ADAPTAÇÕES. Caderno de Escologia Aquática, Rio Grande- Rs, v. 5, p.1-24.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

XXII Encontro Brasileiro de Ictiologia

Vamos aumentar o cardume do EBI?

O XXII Encontro Brasileiro de Ictiologia acontecerá em Porto Seguro, BA, de 29 de janeiro a 03 de fevereiro de 2017.
Faça sua inscrição e participe!
Mais informações em http://www.ebi2017.com.br/

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Osmose e Osmorregulação

Por Gabrielle Souza


Os seres vivos marinhos mais simples que conhecemos vivem em equilíbrio com o meio hídrico onde estão inseridos. Porém, de modo geral, quanto maior a complexidade do organismo, mas sua constituição interior difere do meio ambiente onde vive e por isso é preciso adaptar-se fisiologicamente, utilizando um processo natural denominado de osmorregulação. 

Antes de falarmos de osmorregulação é importante definir o que é osmose! Osmose é simplesmente o movimento da água através de uma membrana permeável, regido pela diferença de concentração entre solutos. Ou seja, a água sempre tende a atravessar uma membrana permeável do local menos concentrado (hipotônico) em direção ao local com maior concentração de solutos (hipertônico). E isso acontece naturalmente, sem gasto de energia. Agora sim, sabendo do que se trata a osmose, podemos te dizer que a osmorregulação é o nome que damos à capacidade de um organismo de regular a quantidade de água e/ou solutos em seu interior, independente do que aconteceria se apenas a osmose estivesse acontecendo. Essa é uma estratégia amplamente utilizada por organismos marinhos para regular os sais e a água em seus corpos, mantendo-se diferentes do meio externo.


Existem diversos animais que realizam este processo, são alguns exemplos: peixes, baleias, golfinhos, moluscos, crustáceos, entre outros. Na imagem abaixo pode-se analisar como a osmorregulação é feita por peixes de água salgada, mas lembre-se que há uma diferença com os peixes de água doce. Afinal de contas, a quantidade de sais na água do mar é bem diferente da água doce.


Existem mais sais na água do mar do que dentro do corpo dos peixes marinhos, por isso haverá uma perda de água constante para o meio, pela osmose, o que levaria a uma rápida desidratação. Porém, os peixes marinhos têm o comportamento de ingerir a água do mar, repondo essa perda de água. Mas... e os sais ingeridos junto com essa água salgada? Eles devem eliminar este excesso de sais no corpo. E como isto é feito? Esse é um trabalho para as brânquias! Isso mesmo. Além das trocas gasosas, as brânquias são também responsáveis por eliminar o excesso de sais no corpo do peixe. 
Já nos peixes de água doce a situação é inversa. O meio é menos concentrado e o interior do peixe é mais concentrado. Neste caso a água entra por osmose no corpo do peixe, através da sua superfície. Estes peixes não ingerem água e suas brânquias, por sua vez, acabam absorvendo os sais. Não é incrível?

Post relacionados:
Querida, estou grávido

Para saber mais:

Schmidt Nielsen, Knut. Fisiologia Animal - Adaptação e Meio Ambiente. Quinta Edição, Livraria Santos Editora, São Paulo. 2002, 600 p.

Eckert, R; Randall, D; Burggren. W. Fisiologia Animal. Mecanismos e Adaptações. Guanabara ed. 4ª. Edição. 2011. 729p

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Um novo lar para o Nemo

Por Cathrine Boerseth



Ninguém gosta de ter sua casa destruída, isso inclui as pessoas e os animais. Ursos não gostam, pássaros não gostam, peixes não gostam e até mesmo o menor animal planctônico, que às vezes até esquecemos que existe, não gosta de ter o seu lar destruído.  Alguns desses animais planctônicos são na verdade meroplanctônicos, ou seja, flutuam ao sabor das correntes apenas nos estágios iniciais do seu ciclo de vida, e para se tornarem adultos precisam assentar em algum lugar: um bom lar, com uma boa base. Para muitos organismos essa boa base seria um superfície dura, como um costão rochoso ou um recife de coral.

Infelizmente, na costa norte do estado do Paraná muitas dessas superfícies duras (que já são raras) são constantemente destruídas por métodos de pesca destrutivos, como o arrasto de camarão. As larvas do meroplâncton estão flutuando pelo oceano, mas há poucos lugares para elas assentarem. No mundo biológico um fato sempre afeta o outro : peixes se alimentam de organismos que vivem em ou perto de substratos rochosos, assim a falta de um habitat rochoso apropriado para o assentamento de larvas do meroplâncton significa menos alimento disponível para os peixes, e como consequência diminui o tamanho dos estoques pesqueiros.

Mas, e se a gente construísse casas novas para esses animais? E se essas casas fossem tão fortes que os arrastos não fossem capazes de destruí-las? Pois bem, foi exatamente isso que pesquisadores fizeram entre 1997 e 2003 na costa do Paraná, construindo alguns recifes artificiais. Recifes artificiais são estruturas feitas pelo Homem, que podem ser  de rochas, blocos de concreto ou até mesmo navios, que possuem uma variedade de buracos e fissuras e são afundadas no oceano, provendo abrigo para os mais diversos organismos marinhos. Bactérias e algas são geralmente os primeiros organismos a chegarem, seguidas pelas larvas do meroplâncton que assentam e se desenvolvem em uma infinidade de animais, de anêmonas a caranguejos. Essa variedade de animais atraem os peixes que estão em busca de alimentos, e esses peixes vão, consequentemente, atrair outros peixes maiores e/ou outros predadores. Passado algum tempo,  o ecossistema do recife artificial passa a ser um lugar com alimento disponível e proteção para um grande número de organismos marinhos.


Os recifes artificiais no Paraná foram feitos de cubos de concreto com buracos em forma de um trevo de quatro folhas, disponibilizando um local para os animais se esconderem ou assentarem.

Porém, mesmo depois da construção do recife artificial, um monte de questões continuavam sem resposta: os organismos meroplanctônicos vão realmente assentar no local? Eles vão  atrair peixes? Esses peixes vão usar a área para reprodução? O ecossistema resultante será parecido com um recife rochoso natural? A resposta para as duas primeiras questões é um grande SIM, mas as outras perguntas ainda precisavam de respostas, e foi exatamente isso que eu resolvi pesquisar.

Para responder essas questões, decidimos estudar ovos e larvas de peixes. Para amostrá-los usamos uma rede presa a uma scooter subaquática (legal né?!) e uma armadilha de luz (veja fotos). Com esses métodos fui capaz de amostrar larvas e ovos que estavam bem perto do recife artificial, sendo que a rede capturou os ovos e as larvas em estágios iniciais de desenvolvimento, enquanto a armadilha capturou larvas maiores. Nós também amostramos a uma certa distância do recife (seria a abundância do ictioplâncton diferente lá?) e em  um ambiente recifal rochoso natural nas redondezas (o lindo arquipélago de Currais). As amostras foram realizadas em meses entre julho de 2014 a abril de 2016, sempre que as condições climáticas e de ondas permitiam.























A armadilha de luz (esquerda) e a rede fixada na scooter subaquática (direita).




O arquipélago de Currais, localizado na costa do Paraná. 

Então, o que os nossos dados nos mostraram?

O número de ovos e larvas de peixes foi maior no recife artificial do que a uma certa distância dele. Além disso, o fato das amostras conterem ovos ou larvas recém eclodidas significa que os peixes estão usando o recife artificial ou uma área bem próxima a ele, para a reprodução. Nossos dados ainda mostraram que muitas larvas coletadas no recife artificial pertencem a espécies que habitam naturalmente recifes rochosos e espécies pelágicas, que vivem em águas oceânicas. E o que isso significa? Significa que o recife artificial está começando a agir como um recife natural (ótimo!), mas ainda tem um longo caminho a percorrer. Os peixes ainda são mais abundantes no recife natural e muitos são apenas “visitantes”, como espécies pelágicas. Porém todos são bem vindos! O recife artificial provém comida e proteção para todos! Os visitantes pelágicos são atraídos pela comida e assim se tornam a comida de outros peixes. Mas não se preocupe, isso é ótimo, pois é assim que um ecossistema funciona!

Pode até parecer que os recifes artificiais são a solução para todos os nossos problemas, e você deve estar querendo levantar sua mão para o céu e gritar: vamos construir recifes artificiais em todos os mares, no mundo todo! Mas infelizmente como a maioria das coisas da vida, isso não é tão simples. Há muitos fatores a serem considerados, uma vez que a construção de um recife artificial é uma intervenção humana na natureza  e pode causar mais prejuízos do que benefícios. Por isso, uma pesquisa cuidadosa em cada situação é mais que necessária!




E o que aprendemos com tudo isso? A natureza acha o seu jeito! Nós humanos somos  destrutivos e para construir nossas próprias casas, destruímos os lares de outros seres. Felizmente, muitos ecossistemas são resilientes e voltam à vida. Recifes artificiais podem até não ser a resposta para todos os nossos problemas, mas na costa do Paraná,  um pequeno ecossistema destruído está se reconstruindo graças a eles!
  
Sobre Cathrine:
Bióloga, atualmente me preparando para defender minha dissertação de mestrado em Oceanografia Biológica na USP. Sou Norueguesa e me apaixonei pelo mar mergulhando nas águas congelantes do norte. Moro no Brasil há quatro anos e não vejo a hora de descobrir onde a vida vai me levar daqui para a frente. O que eu sei com certeza é que eu quero trabalhar e viver em proximidade com a natureza, seja nos trópicos lindos do Brasil ou no Ártico maravilhoso da Noruega (ou em algum lugar entre os dois). 



quinta-feira, 7 de julho de 2016

Os pequenos peixes escondidos nas poças de maré

Por Marina Brenha-Nunes

Essa história começa na Baía do Araçá, que é uma planície de maré situada em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. Essa planície permanece quase inteiramente descoberta durante a maré baixa, mas na maré alta abriga um elevado número de peixes e raias, que adentram a planície para se alimentar e se reproduzir. Por estar ao lado do Porto de São Sebastião, que poderá ser expandido para a área da baía, ela tem sido estudada por pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, a fim de servir de modelo para outros locais que necessitam desenvolver um plano de manejo e desenvolvimento local.

Quando se trabalha com peixes costeiros é muito comum que façamos a coleta deles durante a maré alta (maré cheia), principalmente por dois motivos: o primeiro é que na maré alta ocorre a maior quantidade de peixes próximos à costa; o segundo é que existem muitas técnicas de coleta para capturar o maior número possível de peixes em um determinado local, como por exemplo, a rede de arrasto, utilizando um barco a motor, e a rede picaré, que faz outro tipo de arrasto, manual, realizado na praia (veja mais sobre peixes e praias aqui).

Em uma tarde de trabalho intenso de coletas de peixes durante a maré alta na Baía do Araçá, a professora Dra. Carmen Rossi-Wongtschowski (minha orientadora), quem observava e supervisionava tudo, reparou que, quando a maré começava a baixar, alguns corpos d’água permaneciam isolados, desconectados do mar, na praia de fundo areno-lodoso. Ela observou também que havia muitos peixes vivendo ali nesses corpos, e que as amostragens realizadas na maré alta não estavam capturando aqueles animais, que também pertenciam ao Araçá, local de todo estudo que estávamos fazendo.

Conversa vai e conversa vem… decidimos que o meu projeto de mestrado seria estudar os peixes que habitavam esses corpos d’água na Baía do Araçá.

Na verdade, já existem estudos com peixes que habitam esses corpos d’água, que são chamados de poças de maré. Porém, percebemos que no Araçá existiam dois tipos de poças de maré, as arenosas e as rochosas. Observando essa diferença, começamos a suspeitar que esse fato poderia trazer variação nas espécies que viviam nos dois tipos de poça e na sua quantidade. E foi isso que fizemos… identificar quais e quantas espécies estavam presentes em cada tipo de poça.

Poça arenosa - Exemplo de uma poça arenosa utilizada na coleta de peixes na Baía do Araçá.


Poça rochosa -  Exemplo de uma poça rochosa utilizada na coleta de peixes na Baía do Araçá.

Pesquisando na literatura sobre os peixes que habitavam diferentes tipos de poças de maré, encontramos que havia basicamente estudos em poças rochosas, ou seja, não existiam trabalhos em poças arenosas. E isso foi outro fato que nos chamou atenção!...Como assim não estudam todos os tipos de poças que existem??

Pois bem, além de identificarmos dois tipos de poças em um mesmo local, não existia bibliografia que nos “iluminasse” quanto à coleta de peixes em poças arenosas. Assim, lá fomos nós! Desenvolvemos um protocolo/roteiro para a coleta dos peixes em poças arenosas que devesse atender a alguns requisitos básicos: (1) ser reproduzido para poças arenosas encontradas em qualquer lugar do planeta; (2) ser relativamente de baixo custo, principalmente para que pesquisadores de países em desenvolvimento (como o Brasil) conseguissem replicar o procedimento sem grandes problemas financeiros; (3) tinha que ser uma coleta rápida, pois a poça de maré deixa de ser uma poça a partir do momento que ela se conecta com o resto do oceano com a elevação do nível da maré, e isso leva em média de 3 a 4 horas. Dessa forma, com o intuito de contribuir para o projeto que estava sendo desenvolvido na Baía do Araçá, que era identificar o maior número de peixes de diversos tamanhos que viviam no Araçá, construímos uma rede com a tela de mosquiteiro (igual à de barrar mosquito), só que adaptada para pegar peixes!!!

Picaré com tela mosquiteiro - Utilização da picaré construída com tela de mosquiteiro em uma poça arenosa na Baía do Araçá.

Apesar das poças arenosas serem mais trabalhosas para coleta em campo em relação às rochosas, devido principalmente ao seu enorme tamanho e o curto tempo de trabalho disponível, conseguimos chegar a um nível de 89% de eficiência de captura com o procedimento desenvolvido! Ou seja, se em uma poça arenosa tivesse 100 peixes vivendo ali, conseguiríamos capturar 89 deles. E isso é ótimo, pois mostra que o nosso protocolo foi eficiente e pode ser replicado por outros pesquisadores, e até mesmo aprimorado!!

Em relação às espécies encontradas, identificamos algumas espécies diferentes entre os dois tipos de poça. Por exemplo, nas arenosas capturamos muitos indivíduos do peixe-rei (Atherinella brasiliensis), carapeba (espécies do gênero Eucinostomus sp.), o amboré claro (Ctenogobius boleosoma – que habita locais de fundo claro), o ubarana (Elops saurus). Já nas rochosas, capturamos basicamente espécies que possuem adaptações para tolerar as condições de uma poça de maré, como altas temperaturas e salinidade, diminuição no nível de água e oxigênio, foi o caso do amboré escuro (Bathygobius soporator – que habita locais de fundo mais escuro e se entoca em frestas das rochas) e um tipo de maria-da-toca (Scartella cristata, que também se entoca em frestas). Tão diferentes a ponto de nem serem consideradas pelos especialistas adaptadas à vida nas poças de maré!


Peixes coletados nas poças rochosas, amboré escuro (Bathygobius soporator) e a maria-da-toca (Scartella cristata).




Peixes coletados em poças arenosas, carapeba (espécies do gênero Eucinostomus sp.), ubarana (Elops saurus).








Vocês devem estar se perguntando: “Como assim? Mas então, como elas estavam lá?”




A grande diferença é que geralmente encontramos espécies de peixes típicas de poças de maré rochosas desde fases juvenis até a fase adulta, como foi o caso do amboré escuro e da maria-da-toca, mas nas poças arenosas encontramos muitas larvas (fase inicial do desenvolvimento dos peixes - saiba mais sobre larvas de peixes aqui) ou somente indivíduos juvenis de espécies que costumamos encontrar basicamente na maré alta, como é o caso do peixe-rei e da carapeba. Isso significa que se alguém considerava que, por ventura, esses dois tipos de poças poderiam abrigar as mesmas espécies de peixes, basicamente as que tinham sido descritas em poças rochosas, houve um grande engano. A diferença no número de espécies e na quantidade de peixes capturados entre elas é bem marcante e traz uma questão ecológica atrelada importantíssima para a conservação de ambientes costeiros, mostrando que precisamos conhecer todos eles antes de propor medidas únicas para todos os tipos de ambiente.

Poças de maré sempre foram habitats ecologicamente importantes para diversas espécies que participam e equilibram a cadeia alimentar costeira, além disso, podem interagir com espécies de peixes recifais e servir de isca para os pescadores. Colocando em pauta outros tipos de poças de maré, com algumas funções distintas daquelas já conhecidas, entendemos que as poças também podem vir a desempenhar um papel de abrigo para as larvas, fugindo de alguns predadores e aproveitando para se alimentar com maior “tranquilidade”. Muitas das larvas encontradas foram de espécies que são capturadas pelos pescadores na fase adulta durante a maré alta para o comércio ou seu consumo próprio. Mas, se degradarmos esses ambientes, onde essas larvas irão se abrigar?

Além de pensar no futuro dessas larvas, devemos pensar também que junto com uma construção portuária, vem atrelada uma questão de invasão de espécies que não são nativas da região. Também detectamos esse cenário no Araçá, uma vez que capturamos duas espécies exóticas (não nativas da região), o Omobranchus punctatus (muzzled blenny) e o Butis koilomatodon (mud sleeper) também conhecido como barrigudo ou dorminhoco, em poças arenosas e que são potenciais competidores das nossas espécies nativas. Além da degradação, o ambiente pode ser dominado por essas espécies, que desequilibram o ambiente e os ciclos de vidas das demais espécies.

Como ambientalista, é necessário conhecer, proteger e conservar áreas costeiras para que possamos ter um retorno produtivo para as nossas vidas e para nossas futuras gerações, pensando no equilíbrio ecológico natural do sistema, para continuarmos colhendo bons frutos da natureza.


Sobre Marina Brenha-Nunes
Bióloga, graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (São Paulo, SP). Desde a escola já queria seguir a vida de bióloga marinha, começando com uma vontade louca de participar do Instituto Baleia Jubarte, depois do TAMAR e fui trabalhar com peixes a partir de um estágio voluntário no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) em 2011. Trabalhei diretamente com morfologia de otólitos (ossos do ouvido interno dos peixes ósseos), passando por diversas consultorias ambientais e estudos de meio com escolas privadas. Depois disso, ingressei no mestrado do IO-USP e finalizei-o em maio de 2016 sobre os peixes em poças de maré e atualmente resolvi me dedicar à educação básica como professora de Ensino Médio na rede estadual.

Referências:
BRENHA-NUNES, M. R. (2016). Ictiofauna em poças de maré arenosas e rochosas e seus fatores estruturadores em uma planície de maré subtropical. Dissertação de mestrado. Universidade de São Paulo, São Paulo, p. 79.
BRENHA-NUNES, M. R.; CONTENTE, R. F.; ROSSI-WONGTSCHOWSKI, C. L. D. B. (2016). A protocol for measuring spatial variables in soft-sediment tide pools. Zoologia 33(2), 1-4. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-46702016000204000>
CONTENTE, R. F.; BRENHA-NUNES, M. R.; SILIPRANDI, C. C.; LAMAS, R. A.; CONVERSANI, V. R. M. (2015). Occurrence of the non-indigenous Omobranchus punctatus (Blenniidade) on the São Paulo coast, South-Eastern Brazil. Marine Biodiversity Records 8(e73), 1-4. Disponível em: <http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=9707340&fileId=S175526721500055X>

CONTENTE, R. F.; BRENHA-NUNES, M. R.; SILIPRANDI, C. C.; LAMAS, R. A.; CONVERSANI, V. R. M. (2016). A new record of the non-native fish species Butis koilomatodon (Bleeker 1849) for southeastern Brazil. Biotemas 29(2). Disponível em:<https://periodicos.ufsc.br/index.php/biotemas/article/view/2175-7925.2016v29n2p113/31676>