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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Da praia ao laboratório: como me tornei uma cientista

Por Mônica Lopes-Ferreira*
Desde pequena sempre gostei do mar. Nos finais de semana, nas férias, nos feriados, lá estava eu curtindo uma praia. Tudo no litoral me encantava: a natureza, as paisagens, os animais.  Enquanto eu desfrutava das verdes águas mornas da cidade de Maceió, minha terra natal, simultaneamente prestava atenção em todo o ecossistema ao meu redor.

No início da juventude chegou o momento de escolher qual carreira seguir. Não tive dificuldade em entender que o estudo dos seres vivos fazia com que a minha mente e meu coração vibrassem. Decidi fazer Biologia, estudei bastante e ingressei na Universidade Federal de Alagoas.  

Sou muito curiosa e sempre gostei de aprender. Além da rotina das aulas na Universidade, eu participei de muitos cursos, seminários e palestras na área. Até que no ano de 1989, um encontro especial mudou o rumo da minha história. Ivan Mota - pesquisador do Instituto Butantan – ministraria em Alagoas um curso sobre Imunologia. Como estudante, me senti estimulada a saber mais sobre aquele centro de pesquisa que eu conhecia somente pelos livros de Ciências. Eu já sabia que os cientistas de lá estudavam animais peçonhentos e produziam soros para tratar os acidentes que os venenos provocavam. E a Imunologia?  Ela eu ainda não conhecia.

O curso era complexo, oferecia aulas o dia inteiro e tinha muitos alunos. Ali tive contato com muitas novidades e fiz grandes descobertas. O professor era um pesquisador competente, entusiasmado e apaixonado. Fiquei completamente atenta e deslumbrada com a Imunologia. Para a minha surpresa, ao final do curso ele anunciou que faria a seleção de cinco alunos para um estágio no Instituto Butantan. Passei na entrevista, fui escolhida e descobri que o professor – assim como eu - também gostava do mar.

Tive total apoio dos meus pais para realizar o estágio. Sentamos, conversamos e decidimos que eu iria para São Paulo. Eles tinham consciência de que seria uma grande oportunidade e que eu viveria momentos únicos. Quando cheguei na capital paulista, me surpreendi com o tamanho da cidade. Como ela era diferente de Maceió! Nunca vou esquecer do primeiro dia, do primeiro olhar, das fortes batidas no coração, ou seja, minha descoberta da cidade. Em contrapartida, o Butantan era um refúgio no meio de São Paulo. Muitas árvores, prédios antigos, museus, laboratórios, cobras, aranhas, escorpiões, entre outras espécies de animais peçonhentos.

Os pesquisadores me ensinaram muito.
As hipóteses, as perguntas, os experimentos, a vida dinâmica do laboratório e a Imunologia foram conduzindo a trajetória para que eu me tornasse uma cientista. Acabei ficando em São Paulo e terminei o curso de Biologia por aqui. Estudei muito e ingressei em uma pós-graduação na área de Imunologia. Meu objeto de estudo foi um animal peçonhento. Não era cobra, aranha, muito menos escorpião. Minhas origens litorâneas falaram mais alto e decidi estudar um peixe.

O animal escolhido para a minha pesquisa foi o Niquim, de nome científico Thalassophryne nattereri; peixe da região Nordeste que despertou a minha atenção durante um período de férias em Maceió. Um médico dermatologista me contou na ocasião relatos sobre os acidentes que o bicho causava em pescadores e banhistas.  Não havia tratamento e existiam poucos estudos sobre o veneno. Fiquei convencida da importância de estudar a espécie em questão, quando comecei a conversar com os pescadores locais. Eles me disseram: “Ele é um peixe pequeno, de movimentos discretos, não ataca ninguém, mas quando tem seu espaço invadido, solta um veneno capaz de aleijar ".

O aquário no laboratório cresceu e outros peixes peçonhentos chegaram:  bagres, arraias, peixe-escorpião e espécies que habitam as nossas águas e causam acidentes. Até que um peixe mais dócil apareceu no meio do caminho e os estudos foram ampliados.

Zebrafish
O Zebrafish - de nome científico Danio rerio - é conhecido popularmente como Paulistinha. Ele é utilizado como modelo experimental em muitos países para estudos comportamentais, genéticos, testes de toxicidade, entre outras áreas. Aprofundei meus conhecimentos sobre a espécie e iniciei os estudos com o peixe no Instituto Butantan.

As pesquisas avançaram e em 2015 foi inaugurada a Plataforma Zebrafish. Um local de criação e manejo do animal, que tem como objetivo fazer ciência e compartilhar informações. A partir da Plataforma surgiu a Rede Zebrafish. Um projeto que liga 80 pesquisadores de 40 instituições espalhadas pelo Brasil. O Paulistinha também é comunicação; um divulgador de ciência e contador de histórias. Com ele eu tenho ido além, chegado em diferentes lugares, conversado com crianças, jovens, adultos e idosos.

Mulher e cientista
Durante uma palestra que ministrei em um Colégio Estadual de Osasco, sobre o Zebrafish, os alunos não sabiam qual era o gênero do pesquisador que falaria para eles naquele dia. A maior parte dos estudantes esperava um homem velho, de jaleco e com cabelos brancos.  Fiz questão de levar comigo somente pesquisadoras mulheres; elas são maioria em nosso laboratório e devem servir de exemplo para as crianças. É preciso romper paradigmas para que as coisas mudem. Me sinto realizada pela oportunidade de trabalhar em prol do avanço da ciência.

Esta é a minha história como mulher e cientista. Estudei, ingressei na pós-graduação e, no ano de 2000, concluí o doutorado pelo Departamento de Imunologia da Universidade de São Paulo. Sou doutora, pós-doutora, pesquisadora do Instituto Butantan e atualmente diretora do Laboratório Especial de Toxicologia.

E por tudo isso posso dizer, Sou Feliz, Sou Cientista.



*Mônica é pesquisadora do Instituto Butantan e coordenadora da Plataforma Zebrafish.

As ilustrações deste post são de Veridiana Scarpelli.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Sobre mudar a rota de navegação

Por Raquel Saraiva

Ilustração: Joana Ho

Mudar de carreira não é fácil - bom, pelo menos assim eu pensava quando resolvi abandonar minha carreira na fisiologia animal para encarar uma nova graduação em jornalismo. Grandes mudanças são sempre muito difíceis de encarar. E se elas não nos são impostas pelas circunstâncias da vida, mas partem de uma insatisfação nossa, acho que são ainda mais complicadas.

Quem nunca pensou em como seria se tivesse escolhido outra carreira? Passei muitos anos refletindo sobre isso - eventualmente e sem compromisso. Tomar a decisão de mudar foi, para mim, a parte mais difícil da mudança. Encarar o medo de voltar para os estudos de pré-vestibular, de falhar no Enem e medo de estar tomando a decisão errada custou muitas noites insone, muito choro e ansiedade.

Decidi pela biologia aos 17 anos. Gostava de embriologia e fisiologia, fantasiava uma carreira na ciência ou no jornalismo científico. Decidi, assim, optar pela área de saúde. Ingressei no curso e descobri aos poucos como era na realidade aquela vida que eu tinha idealizado.

Eu poderia listar os problemas da academia e da vida de professor e assim justificar minha mudança. Mas seria injusto. Todos sabemos que qualquer profissão tem seus louros e agruras. Se você gosta do que faz, os louros pesam mais na balança. Eu via muitos profissionais, alguns passando por mais dificuldades que eu, super felizes nos seus laboratórios e no campo - e não entendia como aquilo era possível.

Tentei ‘resolver’ minha insatisfação várias vezes. Foram anos de conversas com amigos, com meus pais, procurei ajuda na psicologia e na religião. No mestrado, escolhi trabalhar na área que sempre gostei e com uma orientadora que, além de super competente, era educada, prestativa e gentil. E sou muito feliz pelo trabalho que desenvolvemos juntas. Também fui muito, muito feliz no ano que fui monitora e, anos depois, professora substituta de Fisiologia Animal na UFBA.

O Facebook me lembrou essa semana uma publicação que fiz nesse período, quando lecionava. “Minha profissão é a melhor do mundo”, eu escrevi. Foi bom para lembrar dos momentos que curti minha profissão de bióloga. E eu estive feliz em muitos momentos, principalmente na sala de aula. Mas no restante do tempo eu estava insegura e detestava minha rotina.

Lembro de um pensamento que era recorrente "vou ser feliz quando eu estiver no mestrado" ou "vou ser feliz quando eu publicar meu artigo do mestrado"... bom, a “felicidade plena” que eu tanto esperei nunca veio - na verdade, ela se limitava a pequenas alegrias com as vitórias que eu tinha. Hoje, mesmo quando estou chateada com algo no curso ou em relação à profissão, eu estou feliz e tenho consciência disso em todos os momentos.  Achei que o recomeço seria difícil - e está sendo. Mas é muito mais gostoso que difícil.

Levei muito tempo para me convencer que eu não estava satisfeita e que jamais seria naquela carreira - insight óbvio que só veio com a maturidade. Eu aprendi que a gente tem que ser feliz agora - fazemos planos futuros para a vida pessoal, para a carreira, mas a felicidade deve ser vivida diariamente. Uma frase que não sai da minha cabeça é um verso da música Beautiful Boy, de John Lennon: “Life is what happens to you while you’re busy making other plans” (A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos).

Eu ouvi meu coração. Mas não só isso. Tenho muitos amigos próximos que são jornalistas, então conhecia relativamente bem a rotina da profissão. Também procurei ajuda com uma psicóloga que, por sinal, tinha se graduado e feito mestrado em veterinária antes de estudar psicologia, e ela também foi muito importante para me ajudar a enfrentar a mudança.

Assumir que jornalismo era mesmo o amor da minha vida foi fácil. Mesmo a área sendo complicada (vide as dezenas de passaralhos [demissões em massa] nas redações nos últimos meses). Sabendo que seria complicado lidar com as opiniões de pessoas próximas ("por que não faz medicina?", "acho que relações internacionais é melhor", “tem que ser forte para aguentar a carreira acadêmica”), compartilhei a novidade apenas depois da minha aprovação na UFBA.

Sei que sou privilegiada por ter tido a possibilidade de mudar - por uma série de fatores, muitos não podem fazer isso. Um fator importante foi me sentir amparada e acolhida. Eu contei com apoio da minha família, de meu marido e de poucos amigos mais íntimos. Pessoas que não questionaram minha escolha ao ver meus olhos brilharem e não mediram esforços para me ajudar. Isso foi fundamental para me dar forças para prosseguir na busca do meu sonho.

Não me arrependo de ter feito a mudança beirando os 30. Começar um outro curso com mais maturidade é maravilhoso, sinto que estou aproveitando muito mais a nova graduação, com menos medo e fazendo escolhas mais conscientes. A graduação em biologia e o mestrado com toxinologia me ajudaram a escrever de forma mais objetiva e clara, além de terem me dado uma boa bagagem para discutir temas ligados à saúde - como tenho feito aqui no blog com a divulgação científica. Por isso, sinto que estou fazendo o curso de jornalismo na hora certa. E quem sabe não enveredo pelo jornalismo científico um dia?

Hoje eu faço planos e penso nas mil (maravilhosas) possibilidades que a carreira me oferece, não me esquivo de falar sobre o jornalismo em qualquer lugar que esteja, não reclamo de ter que fazer coisas do trabalho ou da faculdade tarde da noite ou de madrugada nos finais de semana… pela primeira vez eu estou amando fazer o que faço. O jornalismo é parte da minha vida e não apenas uma profissão. E eu amo viver isso.

É bom realizar sonhos e também ter consciência de estar realizando-os. Desfrutar de cada momento, por mais irrelevante que pareça - para os outros. Porque eu sei o quanto sonhei em estar aqui, e não quero deixar nada passar em vão.

17992044_10207149000438333_4088882636839387644_n.jpgSobre Raquel:

Estudante de jornalismo, bióloga (2010) e mestre em Zoologia (2014). Trabalhou com neurociências, fisiologia animal e toxinologia. Hoje realiza o sonho de estudar jornalismo, é apaixonada por todas as áreas da comunicação, está no quarto semestre do curso na UFBA e feliz da vida se dedicando ao estágio na redação de um jornal. É editora do blog Bate-Papo com Netuno desde 2016.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Desafios enfrentados por Mulheres na Ciência

Por Catarina R. Marcolin

Recentemente assisti a um debate realizado no Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) chamado “As Mulheres na Universidade e na Ciência: Desafios e Oportunidades” que me chamou muita atenção. Vale a pena assistir na íntegra o vídeo de mais de uma hora em que três mulheres cientistas nos inundam com estatísticas e fatos surpreendentes, alguns até difíceis de acreditar, sobre a participação das mulheres no meio acadêmico. O vídeo foi recomendado por uma professora do IO-USP, a Mary Gasalla, mais uma mulher cientista que nos serve de inspiração.


Ilustração Caia Colla.

No Bate-papo dessa semana, vamos discutir alguns assuntos abordados neste debate, assim, fui em busca de mais alguns dados para seguirmos na reflexão sobre o assunto. Primeiramente, fiquei feliz em saber que nós mulheres representamos cerca de 50% dos estudantes na grande parte dos cursos de graduação do país, em alguns cursos somos até maioria. Entretanto, quando olhamos para as ciências exatas e as engenharias, somos menos de 40% do total. Além disso, é impossível não se impressionar com o fato de que nós mulheres somos apenas 15% dos estudantes nas engenharias da USP. 

Se olharmos para a quantidade de bolsas de iniciação científica e de pós-graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado) veremos que também temos ganhado tantas bolsas quanto os homens. Inclusive, em 2010 tivemos mais mulheres do que homens com título de mestrado e doutorado. Mas novamente, isso não é a realidade nas engenharias e nas ciências exatas. Parece que algo tem nos afastados dessa área, que inclui a oceanografia. 


Número de bolsas por ano por grande área em 2014. Fonte CNPq. 

Mas os números mais chocantes são relacionados à distribuição das bolsas de produtividade em pesquisa, ou bolsas PQ, que são bolsas que premiam pesquisadores por sua excelência em pesquisa. Essas bolsas determinam a distribuição dos recursos financeiros para projetos de pesquisa no país e, portanto, afetam diretamente nosso desempenho enquanto pesquisadores. As bolsas PQ tem vários níveis e a participação das mulheres fica cada vez menor à medida que subimos nesses níveis. Note que sempre temos menos de 39% de participação nessas bolsas. 



Bolsas de Produtividade em Pesquisa por categoria/nível em 2014. A categoria 2 representa a menor categoria a que se pode concorrer a uma bolsa PQ. Para concorrer à categoria 1, sempre se começa solicitando entrada pelo nível D, até chegar ao nível A e, só então, ao nível Sênior (SR). Fonte: CNPq.

Notem que, olhando apenas para estes dois gráficos, percebemos uma segregação horizontal (entre áreas, mulheres estão concentradas em certas carreiras) e uma segregação vertical, pois temos uma baixa representação feminina nas posições de poder.

Podemos encontrar ainda mais exemplos se buscarmos por posições de liderança em grandes grupos de pesquisa. Você já ouviu falar dos INCTs? Os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia são responsáveis pela articulação em rede dos principais projetos de pesquisas em áreas de fronteira da ciência. Bem, do total de 126 institutos existentes, 109 são coordenados por homens e apenas 17 por mulheres. Temos atualmente seis INCTs na área de oceanografia/ciências do mar, dos quais cinco são coordenados por homens. Encontrei apenas um INCT com coordenação feminina e maioria de Pesquisadoras (INCT Antártico de Pesquisas Ambientais - INCT-APA). 

O pior cenário me parece o da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Os próximos dados apresentados foram citados pela física Carolina Brito (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) no debate que mencionei no início deste post. Bem, para se filiar na ABC, o(a) pesquisador(a) é indicado por algum membro da ABC e um comitê decide pela entrada ou não. Este comitê é formado massivamente por homens. O resultado não é nada animador. No próprio site da ABC é possível obter uma lista de quem são seus membros. Olhando pra essa lista, constatei que temos 795 homens para 122 mulheres na ABC. Destes, 15% dos homens não tem bolsa 1A, e  apenas 1% das mulheres não tem bolsa 1A. A interpretação mais rápida, talvez mais rasa também, que podemos fazer desses dados, é que para ser membro da ABC, se você é mulher, é praticamente obrigatório ser pesquisadora nível 1A. Para homens, isso não tem a mesma importância. 

E infelizmente, essa realidade não tem melhorado nos últimos anos. Afinal de contas em 2008, 20% das universidades tinham mulheres como reitoras, enquanto em 2016, apenas 10% das universidades têm mulheres neste cargo. Como explicar que, apesar de termos 48% de doutoras, temos apenas 23% de mulheres em cargos de professoras em nossas universidades públicas? Em alguns posts do BPCN, você já deve ter lido sobre alguns motivos pelos quais mulheres abandonam a carreira acadêmica mais do que homens (O 'sexo' realmente importa; Quando colocar filhos no cronograma; Após a maternidade, de acadêmica a empresária).

E agora mulheres, o que podemos fazer para mudar esse quadro? 

1 - Os dados apresentados aqui são muito escassos, precisamos de números, precisamos de mais indicadores! 

2 - Precisamos de formação sobre questões de gênero. Na França, recentemente foram criadas disciplinas/cursos para discutir gênero em todos os cursos de graduação.

3 - Precisamos financiar projetos de mulheres, fornecer bolsas, premiá-las. Temos pouquíssimas iniciativas, mas estas surtem efeitos incríveis. Veja o post Encontrando autoconfiança como mulher na ciência para ler o depoimento da Deborah sobre a importância de ser reconhecida em sua área. O que nos leva ao próximo ponto:

4 - Precisamos de modelos: a mulher não se enxerga em posições de poder. Socialmente, somos desestimuladas a seguir carreiras científicas consideradas “difíceis”. Desde muito pequenas somos bombardeadas com clichês da idade da pedra de que temos que cuidar da casa, temos que ser boas esposas, mães, verdadeiras senhoras de nossos lares (leia mais sobre isso aqui). Temos que dar oportunidades para que nós mulheres possamos nos sentir capazes de nos apaixonar pela ciência. A Fundação L’Oreal realizou recentemente uma pesquisa de opinião que demonstrou a visão dos europeus em relação à atuação da mulher nas ciências. Cinco mil pessoas foram ouvidas (entre homens e mulheres) e o resultado é:


  • 67% disse que a mulher não está qualificada para ocupar postos de alta responsabilidade; 
    • O principal motivo: porque “as mulheres sofreriam de falta de perseverança, falta de espírito prático, rigor científico, espírito racional e analítico”.


Depois de tudo isso, só tenho a dizer: Mãos à obra! No VII Congresso Brasileiro de Oceanografia tivemos uma mesa redonda sobre o assunto, com sala lotada e com muita participação e engajamento da plateia. Apesar de ter sido uma excelente experiência, não chegamos perto de esgotar o assunto. Então quero convidá-los para continuar a discussão. Vamos discutir gênero nos espaços que ocupamos, semeiem essa ideia! Organizem uma roda de conversa no seu ambiente de estudo ou trabalho e compartilhem com a gente essa experiência.




Sites consultados:

http://cnpq.br/estatisticas1
http://memoria.cnpq.br/estatisticas/bolsas/sexo.ht
http://inct.cnpq.br/institutos/

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Empreendedoras ao Mar!

Por Adriana Lippi

Talvez o termo empreender esteja mais em voga agora do que antes, talvez eu esteja mais atenta a ele recentemente. Quando se pensa em empreendedores e empresários o que te vem à cabeça? Um cara ricaço dono de várias empresas (Richard Brandson - Virgin)? Um cara que manja muito de tecnologia e cria coisas inovadoras (Steve Jobs - Apple)? Um cara desonesto que faz lobby com metade dos políticos para conseguir se dar melhor?
Ilustração: Joana Ho.
Sinto que existem ares de prestígio para empreendedores, como se fossem pessoas meio fora do padrão e que fazem algo extraordinário. Bom, alguns são, mas talvez haja mais empreendedores do que você pensa. O que tem em comum a dona da barraca de café da manhã, a moça da cesta de trufas que as vende na universidade no intervalo das aulas e a amiga que vende artesanatos que ela mesmo faz (ou não)? Elas também são empreendedoras!
É capaz de você se deparar até com mais mulheres empreendedoras no seu círculo social do que com homens empreendedores. O estudo do SEBRAE de 2015 indica que 49% dos empreendedores brasileiros são mulheres. Os motivos para as mulheres começarem um negócio próprio podem ser dos mais variados:

E por aí vai! O empreendedorismo não é a solução para todos os problemas, afinal, se todos forem empreendedores quem vai trabalhar nas empresas já existentes? Todos os tipos de atuação tem seu valor nesse universo econômico e social.
Existem muitas teorias sobre o estado atual da economia global: haverá uma migração do capitalismo para outra forma de economia? Talvez, só o tempo dirá, mas cada vez mais pessoas querem desenvolver negócios inovadores e a internet está aí para conectar essas pessoas e divulgar para todos essas novas possibilidades. Estamos em uma crise global. Não só econômica, mas política, de representatividade, política, de gênero, de identidade, de classes, etc… E talvez os novos empreendimentos não sirvam só para gerar renda, mas talvez para ajudar o mundo a se reencontrar. Já pensou como você pode ser peça importante seja para sua família e/ou comunidade? Já pensou em algo que possa mudar o mundo?
Ok, ok, mas o que isso tudo de empreendedorismo pode ter a ver com os mares e os oceanos?
Existe um conceito recente chamado de “Economia Azul”, que seria uma evolução da “Economia Verde”. Vou tentar explicar bem simplificadamente: A Economia Verde busca reduzir impactos, se importa com a questão socioambiental buscando igualdade e inclusão social e uso eficiente dos recursos. Já a Economia Azul tem duas vertentes. Uma delas é a definição de Economia Azul por Gunter Pauli. Em seu livro ele diz que a Economia Azul deve buscar inspiração na natureza e seus processos além de valorizar as pessoas do local, tendo como alguns princípios: não existe lixo (tudo é aproveitável), os processos são não-lineares (ou seja, não existe um “fim”, um produto ou resíduo de um processo sempre pode ser o início de outro processo, podendo retornar de forma cíclica), um processo gera muitos benefícios, entre outros. A definição de Economia Azul feita na Rio+20 (Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável de 2012) seria a aplicação da Economia Verde para regiões costeiras.
Não sou especialista em empreendimentos de Economia Verde ou Azul, mas vou tentar dar alguns exemplos pra ilustrar:
Como exemplos da Economia Verde, voltada para os oceanos, tem a Ocean Drop, uma empresa bem nova formado por oceanógrafos, que utiliza microalgas encontradas nos oceanos para criar suplementos nutricionais. Há também a Eco-Reef, que comercializa animais para aquários marinhos que são reproduzidos em cativeiro, ou seja, protegendo os ecossistemas já existentes de perderem espécies para atividades de aquarismo, como aconteceu com o peixe-palhaço após o filme da Disney “Procurando Nemo”, cuja a captura aumentou muito e levou ao colapso algumas populações da espécie.
Quanto a Economia Azul, eu não consegui levantar exemplos atuais de empresas que atuem no oceano, mas há alguns anos atrás o Prof. Jorge Costa da FURG estudava como utilizar o CO2 gerado por termoelétricas para produzir a microalga Spirulina para suplementação nutricional, dessa forma o “resíduo” da termoelétrica serviria para outro processo (produção de microalga). Como um exemplo não ligado aos oceanos, temos uma vinícola sul-africana que utiliza patos que fazem a função de adubagem pela fezes que eliminam e controle de pragas como caracóis, parasitas e outros insetos. Dessa forma produzem as uvas sem necessidade de uso intenso de agrotóxicos, fertilizante, pesticidas, etc… e os patos acabaram se tornando uma atração turística.
Acredito que seja possível combinar as duas visões de Economia Azul (aplicar o conceito de Pauli para regiões costeiras), mas precisamos de empreendedoras e empreendedores dispostos a criar esses negócios. E ai, alguém se habilita?
Extras:
Leia também outros textos da Adriana.
Sobre Adriana:
Oceanógrafa, programadora web, viciada em ler, aprender e questionar, com mania de controle de tarefas, equipes e finanças de projetos, diretora do Instituto Costa Brasilis. Me apaixonei pelas diatomáceas ainda no colégio, achava que passaria o resto da minha vida trabalhando com esses minúsculos e quase invisíveis seres, mas não podia ignorar as coisas visíveis do meu dia-a-dia que achava importante realizar. Participei da A.A.A Oceanográfica, do Centro Acadêmico Panthalassa, encabecei O Escafandro (periódico feito pelos alunos da graduação do IOUSP), participei da organização de eventos científicos (SNO2010, SBO2011, Oceanos & Sociedade 2013, ISBS2015), fui gerente de Tecnologia de Informação e Comunicação na SALT e agora to tentando descobrir como viver no mundo das ONG’s, mas com saudades das minhas diatomáceas!

segunda-feira, 7 de março de 2016

Mulheres do século 21 com comportamentos do século 20 e tarefas do século 19

Por Cássia Gôngora Goçalo e Catarina Marcolin


Desde o século 19 já havia mulheres desempenhando papéis de destaque como cientistas. Por exemplo, Bertha Lutz (filha de Adolfo Lutz) nasceu no século 19 e foi bióloga, ativista, feminista e pioneira na luta pelos direitos das mulheres no início do século 20. Se tornou um ícone para as mulheres cientistas brasileiras. Ela foi sensacional no seu tempo, quebrando tabus e lutando pelo reconhecimento da mulher pela cidadania, num tempo onde isso era inconcebível! Assim como Sylvia Earle, nascida no século 20, que enfrentou a comunidade científica e fez com que as mulheres deste blog tivessem admiração por ela. Leiam mais sobre a vida desta incrível cientista aqui



Figura 1. Bertha Maria Júlia  Lutz, zoóloga especialista em anuros e  ativista feminista durante o século 20. Fonte: http://www.cnpq.br/web/guest/pioneiras-view/-/journal_content/56_INSTANCE_a6MO/10157/902173


E hoje, século 21, ainda vemos diferenças e preconceitos entre os gêneros, o que parece inacreditável, mas nem por isso é menos real!


Figura 2. Sylvia Earle, bióloga marinha e pioneira 
na inclusão de mulheres em expedições científicas. 
Fonte: http://www.oceancrestalliance.org/wp-content/
uploads/2014/02/Sylvia-Earle-in-a-Deep-Rover_horiz.jpg

Decidimos escrever este post após refletir bastante ao longo das discussões expostas neste blog, na sessão Mulheres nas Ciências. Eu (Cássia) nasci em uma família cujo sobrenome significa Batalha (Gongora), na qual as mulheres não poderiam deixar de fazer jus ao nome, ou seja, são batalhadoras. Tenho orgulho de falar que são mulheres fortes, guerreiras, independentes, bem-sucedidas profissionalmente e financeiramente. E claro: Mães e Avós. Desde pequena escuto esta frase “Menina você deve estudar e trabalhar para ter seu próprio sustento e que nunca na sua vida você tenha que pedir para um homem comprar, nem sequer, um pacote de absorvente para você”. E enfim, hoje sou uma dessas mulheres. 










Figura 3. Orquídea Gongora por Margaret Mee. Flores resistentes com florações magníficas, espécies exigentes (como nós!) quanto às condições ambientais, ocorrendo em habitats específicos na Amazônia.



Eu (Catarina) também venho de uma família muito matriarcal, com mulheres fortes que perseguiram seus sonhos profissionais. Somos professoras, agrônomas, pesquisadoras e, como Cássia, também sempre fui incentivada a desenvolver o intelecto e a buscar a realização profissional e a independência financeira. E isso não veio somente das mulheres da família, meu pai sempre me chamava a atenção para que eu pensasse com minha própria cabeça e que formasse minhas opiniões com base em diferentes fontes e pontos de vista.
Apesar do meu contexto familiar favorável e de eu ter tido acesso à uma educação razoável, eu não sou imune a pensamentos e comportamentos machistas, vez ou outra. E é por isso que consideramos que a discussão sobre igualdade de gêneros, direitos humanos e muitos outros temas complexos, devem estar sempre presente no nosso dia, se reconstruindo e aprimorando. Um comentário que outrora parecia inofensivo, depois de ouvir outros pontos de vista pode parecer completamente inaceitável.

Apesar da discussão sobre igualdade de gêneros ser muito mais ampla nos dias de hoje, o que percebemos, como meras observadoras do mundo à nossa volta, é que estamos ainda longe da tão almejada igualdade. A maioria das nossas amigas/conhecidas assumiram tarefas antes ocupadas pelos homens, mas não abandonaram as tarefas dos séculos passados. Estudamos (muito), trabalhamos (demais), construímos uma carreira (sólida) e administramos uma família (com amor), cuidamos dos afazeres domésticos, da limpeza da casa e do preparo das refeições (com carinho), do pagamentos das contas, além de cuidarmos da saúde (da nossa, do marido/esposa e dos filhos) e da estética, e hoje parece que nos tornamos fortes, porém exaustas, mulheres do século 21. Essa sobrecarga de tarefas pode ser atribuída a uma cultura  inflexível de que as tarefas domésticas são uma obrigação primária da mulher. O homem quase nunca divide as tarefas domésticas e quando o faz, geralmente é  no segundo plano.

Além disso, precisamos nos perguntar se nós mulheres queremos realmente essa vida exaustiva e competitiva, acumulando tarefas, tentando fazer o tempo se multiplicar. Por outro lado, as mulheres que escolhem, de forma consciente, não casar e/ou não ter filhos, para se dedicar inteiramente à carreira e aos seus hobbys ou a qualquer outra atividade, frequentemente são vistas/julgadas como egoístas ou solitárias. Essa mulher é vista dessa forma inclusive por nós, mulheres esclarecidas do século 21.



Figura 4. A mulher maravilha do século 21. Ilustração de Caia Colla.

Nós temos energia, capacidade, disposição e muito orgulho do que conquistamos ao longo dos séculos, mas frequentemente ouvimos relatos de mulheres sobre essa sobrecarga de tarefas, pois ao longo dos anos, o que mais fizemos foi acumular funções (“Enquanto descanso carrego pedras” - frase constantemente citada pela bisavó da Cássia, no sentido de que após o trabalho, ainda há as tarefas caseiras para serem realizadas). Você não se cansa só de pensar sobre isso? E será que estamos mais felizes tentando desempenhar esse papel de mulher maravilha? Este papel é algo que nós escolhemos desempenhar ou nos foi designado? Quando entrevistada, Indra K. Nooyi, CEO da PepsiCo, contou sobre as dificuldades em lidar socialmente com sua escolha de priorizar a carreira e como ela acredita que mulheres de sucesso fingem que podem ter tudo, tentando conciliar um alto cargo executivo e os papéis de mãe, nora, filha, esposa (confira a entrevista completa aqui, é muito interessante!). Mas não estamos aqui para julgar suas escolhas, mulher do século 21, o que pretendemos com esse post é promover uma reflexão sobre isso. O mais importante é que cada mulher consiga encontrar as respostas dentro de si mesma e que seja honesta em seus relacionamentos. Precisamos escolher conscientemente quais atividades iremos desempenhar, sem culpa e sem imposição por terceiros.

No momento em que definir sua postura diante da sua própria vida, lembre-se que homens e mulheres do século 21 possuem comportamentos diversos e que apesar de ninguém se autodeclarar machista, muitos de nós ainda se comportam como companheiros(as) do século 20. E isso vale para qualquer tipo de relação onde sejam estabelecidos papéis tradicionais. Independentemente do comportamento alheio, saiba que cada uma de nós influencia as pessoas ao nosso redor, especialmente como futuras mães, tias e avós de homens e mulheres. E ser independente, significa liberdade em escolher os papéis a serem exercidos em nossas vidas (dona de casa, profissional, solteira, casada ou mulher maravilha). 
Nossa mensagem é: respeite as opções alheias, dentro do seu seio familiar  e profissional e passe a mensagem de que igualdade de gêneros é muito mais do que dividir tarefas domésticas ou igualdade salarial, é respeitar e reconhecer que entre homens, mulheres, gays, transexuais, transgêneros, etc., somos todos seres humanos. E muitas de nós somos novas mulheres com hábitos antigos... ainda. Não esqueçamos que ainda temos um longo caminho a percorrer.

Portanto, aproveite o Dia Internacional da Mulher e dedique-se à você!

Referências:


  • Gongora, B. 2002. Recordando passagens da minha vida. iEditora. São Paulo, 102 p.
  • Silva, M. F. da, Silva, J. B. da, Rocha, A. E., Oliveira, F. P., Gonçalves, L. S., Silva, M. F. D., & de Queiroz, O. H. (1995). Inventário da família Orchidaceae na Amazônia Brasileira: parte I. Acta Botanica Brasilica. p. 163 a 175
  • http://memoria.cnpq.br/web/guest/pioneiras-view/-/journal_content/56_INSTANCE_a6MO/10157/902173;jsessionid=524922C3FCF3F135300954E25C1260A9?p_p_state=pop_up&_56_INSTANCE_a6MO_viewMode=print



Sobre Caia Colla, autora do desenho deste post:
Sou Caia Colla. Mais uma mulher comum tentando administrar muitas bolas no ar. Trabalho período integral como técnica de laboratório no Instituto Oceanográfico, sou mãe de duas meninas lindas e esposa de um cara incrível. Mas meu dia tem muitos turnos e para sobreviver à pressão e ter prazer nas pequenas coisas preciso ser mais que isso. A arte me salva. Espanto os maus espíritos cantando numa banda e os meus demônios através do desenho. E assim sigo, sendo muitas em uma.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Comemorando o novo emprego

Não foram poucos os desafios... muitas novidades, novas tecnologias, desafios diários na grande São Paulo e muitos quilômetros para estar em casa, mas ela  sempre enfrentou tudo com um sorriso no rosto, persistência e dedicação. E hoje a equipe editorial do Bate-Papo com Netuno comemora o novo emprego da nossa idealizadora, Catarina Marcolin, como professora na Universidade Federal do Sul da Bahia (http://www.ufsb.edu.br/).

Não temos dúvidas de que ela presenteará muitos alunos de Porto Seguro - BA com as experiências adquiridas em todas as águas por onde navegou, inclusive em outros países (lembra do post "Internacionalizar é preciso!"? Clique aqui para relembrar). 

Desejamos boa sorte nesta nova expedição e esperamos que muitos dos nossos queridos leitores que almejam a carreira acadêmica possam se inspirar em sua história de determinação! Parabéns Catarina!