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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

A pós-graduação como um espaço agradável

Por Daniela Coelho

Boa parte das pessoas com quem eu já conversei sobre pós-graduação tem referências ruins sobre o ambiente acadêmico. Essas referências vão desde as más orientações que recebem dos seus orientadores (usarei o termo orientadores para me referir tanto a homens quanto a mulheres), até um ambiente pesado, de intensa cobrança e competição, que o próprio programa de pós graduação pode cultivar. Isso sempre me chamou atenção, pois desde o meu terceiro semestre do curso de Biologia eu já tinha interesse na vida acadêmica.
Fiz iniciação científica e mestrado (zoologia) na UFBA e agora estou no doutorado (ecologia) na USP. No início eu realmente achei que meu processo de adaptação seria muito pesado, por estar trocando de área de atuação e de cidade. Porém, andei um passo de cada vez e isso foi essencial para que soubesse que estava escolhendo a pessoa certa, no lugar certo. Primeiro, conheci meu orientador alguns anos antes de fazer a seleção. Fiz o esforço de ir até a universidade onde ele leciona justamente para conhecê-lo e termos nossa primeira conversa sobre a “possibilidade” de orientação - essa galera normalmente é muito ocupada e fazer o contato previamente é essencial. Ele me propôs que tivéssemos uma vivência antes (uma espécie de estágio), justamente para saber se eu me adequaria ao seu estilo de orientação e se ele acharia interessante me orientar. Nada mais justo! Ele me sugeriu também conversar com seus orientandos para saber sobre o seu perfil de orientação e sobre o ambiente do laboratório.
Acho que pouquíssimos orientadores fariam tal sugestão, assim como poucos alunos têm esse feeling de buscar saber onde estarão pisando! Conversar com os alunos que já foram orientados pelo pesquisador e aqueles que estão em via de orientação pode pesar muito na sua escolha. Após estar certa de que seria uma boa decisão fazer o doutorado com ele, iniciamos a etapa de discutir o meu projeto, de forma que a linha de pesquisa que seguiríamos se adequasse tanto aos interesses dele, quanto aos meus, afinal, eu passaria 4 anos da minha vida estudando aquele tema, naquele ambiente e sob aquela orientação.

Quando fui prestar a seleção, tive outra grata surpresa: meu orientador se propôs a discutir comigo cada um dos artigos que cairiam na prova, justamente para garantir que eu me sentisse mais segura para o processo seletivo. Embora essa atitude dele seja um ponto fora da curva, ele provavelmente também estava garantindo que o seu investimento de tempo em mim seria garantido se eu fosse aprovada na seleção! Após ingressar no programa e discutirmos nosso projeto, ele fez uma sugestão que achei brilhante! Eu seria preparada a ponto de, no último capítulo da minha tese, ser a única autora, pois ao final do meu doutorado eu deveria “ser capaz de pensar sozinha numa pergunta, delinear e executar uma pesquisa”, e a participação dele seria apenas para aparar as arestas.

Nesse momento eu realmente entendi que sua preocupação não era apenas com o número de artigos que eu iria produzir ao final do meu doutorado, e sim com a qualidade da minha formação. Ele também incentiva os alunos que integram o laboratório a trabalharem conjuntamente na elaboração de uma pesquisa, sem a participação dele e isso tem sido muito produtivo para o crescimento, união e amadurecimento do grupo. Estamos aprendendo a nos ajudar mais. Além disso, nosso orientador disponibiliza uma hora de reunião semanal para cada aluno discutir com ele o projeto ou qualquer outro assunto que quiser. Ele estuda junto com a gente!

A maioria das pessoas diz que eu vivo num laboratório de conto de fadas, e que orientadores como o meu são raríssimos! Pode até ser, quando pensarmos no grande universo das pós graduações. Porém, assim como o meu, eu tenho convivido com diversos outros orientadores que também se preocupam, e muito, com a sua “prole”. Eu faço parte de uma espécie de laboratório integrado, onde, além do meu orientador, existem três outros professores que agem praticamente da mesma forma. Eles não se importam exclusivamente com a nossa produtividade acadêmica, mas também com a qualidade do profissional que eles estão formando para o mercado.

Ok, agora vamos ampliar a escala. E o ambiente da sua pós graduação? Bom, eu estou muito satisfeita com o programa de pós graduação em ecologia da USP. Pelo tempo que estou aqui, pouco mais de 1 ano de pós e dois anos anteriores de vivência no laboratório, pude perceber que os coordenadores são muito humanos e preocupados com o bem estar dos alunos. Juntamente com os representantes discentes, eles conseguem manter um ambiente onde os alunos têm voz ativa. Há eventos sobre saúde mental, com ciclo de palestras e bate-papo entre os alunos, ou com os professores, sobre depressão, síndrome do impostor, ansiedade, organização de tempo e muitos outros temas que tanto afligem os estudantes. Além disso, temos um espaço destinados aos alunos para apresentação dos nossos projetos, ideias ou para o convite de palestrantes do nosso interesse.  Venhamos e convenhamos, existe algum trabalho sem prazos e cobranças? Não, né? A questão é o que os organizadores do ambiente em que você está inserido estão fazendo para melhorar a sua paz de espírito.O programa cobra prazo e produtividade dos alunos, como qualquer outro programa. O que muda é o que eles fazem para amenizar o estresse ao qual estamos submetidos.

Será que tudo que estou vivendo é um mar de rosas e eu estou iludida com a realidade do ambiente da pós graduação? Claro que não, não me considero uma pessoa tão ingênua assim! O grande xis da questão é saber previamente para onde você quer ir. Como disse o gato do filme Alice no País das Maravilhas, “se você não sabe pra onde ir, qualquer caminho serve”. E quais conselhos eu gostaria de deixar aqui? O primeiro é: busque se informar fortemente sobre o suporte dado por sua pós graduação de interesse à saúde mental dos alunos. Da mesma forma, busque saber quem é o seu orientador de interesse e o que os alunos antigos e atuais pensam sobre ele, tanto como pessoa quanto como profissional. Não esqueça: quem vê lattes não vê coração! A segunda é: não escolha o orientador “apenas” pelo quão produtivo ou expert ele é na sua área de interesse. Escolha também pelo quanto ele vai te respeitar como pessoa e respeitar seus interesses profissionais. Não escolha ”o melhor”, escolha aquele que é capaz de extrair o que há de melhor em você.

Eu sei que não há espaço para todos nesses ambientes ideais, mas quando estamos falando da nossa saúde mental, talvez seja mais prudente refletir se vale a pena estar em lugares que degradem a sua paz de espírito na construção do seu caminho acadêmico ao invés de buscar outras alternativas.


Sobre a autora:

Daniela Pinto Coelho: É bióloga formada pela UFBA, mestre pelo programa de pós-graduação em Diversidade Animal (UFBA) e doutoranda pelo programa de pós-graduação em Ecologia da USP. A autora desenvolve pesquisa com redes de interações tróficas usando serpentes como modelo de estudo. É apaixonada por gatos e por esportes de aventura.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

“Não tem como recuperar”

Por Raquel Moreira Saraiva


Foto: Eduardo Melon.


Incêndio no Museu Nacional deixa gerações de pesquisadores órfãos


“Como resgatar um espécime-tipo de uma coleção? Como resgatar algo que foi coletado há 50, 100, 200 anos? Como resgatar 200 anos de acervo?”. O professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Luiz Norberto Weber foi um dos cientistas que ficaram órfãos na noite do último domingo (02 de setembro) com a maior tragédia museológica do país, a destruição do Museu Nacional (MN) no Rio de Janeiro em decorrência de um incêndio.

Muitas coleções do Museu foram inteiramente perdidas. “Coleção de mais de 5 milhões de insetos foi embora, não sobrou nada, virou cinza. É um perda de anos e anos de estudo, de depósito em coleção e gasto de energia. Tudo foi reduzido a pó em poucas horas”, afirma Weber. De acordo com a BBC News, circula entre os pesquisadores a informação de que os armários onde ficavam as coleções de insetos se quebraram e foram queimados quando o terceiro andar, onde estavam, desabou.

Como muitos cariocas, o primeiro contato do pesquisador com o Museu foi ainda na infância. “Era comum nossos pais nos levarem para a Quinta da Boa Vista. Lá tem um zoológico, também tinha o Museu, e nós frequentávamos o local”. Como estudante de graduação do curso de biologia, Weber voltou ao local como estagiário e, anos depois, como mestrando e doutorando, entre 1994 e 2004.

“Geralmente as pessoas vinculam o museu a um acervo associado à exposição pública. Mas o museu também é dotado de vários departamentos e laboratórios vinculados a diversas expertises. Ele também concentra um grande número de coleções científicas e, no meu trabalho, eu estava muito vinculado a pesquisar esses bichos que existem em coleção científica, desenvolvendo pesquisa a partir da observação desses animais”, diz, ressaltando que não poderia desenvolver o mestrado e o doutorado se não tivesse tido acesso às referidas coleções científicas.

Perdas

As coleções que auxiliaram Weber não sofreram com o incêndio porque ficavam em um prédio anexo ao edifício histórico - As coleções de vertebrados, herbário, alguns meteoritos e fósseis, uma biblioteca de 150 anos com quase 500 mil exemplares e parte da coleção de invertebrados também estão a salvo. O Centro de Microscopia Eletrônica de Varredura (MEV) do Departamento de Invertebrados do Museu Nacional, por outro lado, foi inteiramente destruído. “Quando eu cheguei lá, senti como se tivesse em um pesadelo e fiquei esperando eu despertar. Eu não pude entrar, mas a minha sala [localizada no térreo] tinha janela na fachada e pude ver, mesmo distante, a destruição”, lamenta a técnica do MEV Camila Messias.

Estimativas iniciais de pessoas que trabalhavam no Museu indicam que cerca de 90% do acervo pode ter sido perdido. A biblioteca de Antropologia e de Ciências Sociais do museu, o acervo de Línguas Indígenas, com gravações desde 1958 dos cantos em muitas línguas sem falantes vivos, o mapa étnico-histórico-linguístico original com a localização de todas as etnias do Brasil - único registro datado de 1945 - e toda a coleção egípcia teriam sido totalmente destruídos. “Não tem como recuperar, você não recupera uma coleção, você recomeça a partir do zero. É lastimável”, diz o professor Weber.

O levantamento e o resgate do acervo que sobreviveu não têm prazo para serem concluídos. Embora a dimensão material da tragédia ainda não tenha sido determinada, pesquisadores lamentam a perda de anos de produção científica, de história e cultura. "Perdemos acervos únicos, história, conhecimento cientifico, anos de dedicação de funcionários e alunos que juntos tornavam o Museu Nacional, com todas as dificuldades, um lugar e de beleza e riqueza sem igual", diz Anaíra Lage, doutora em Zoologia pelo Museu Nacional.

Descaso

Apesar das reformas e manutenções recentes que o laboratório tinha passado no último mês, Camila Messias conta que a falta de conservação do prédio dava sensação de insegurança. “O Museu era uma bomba relógio. Cheio de coleções com espécimes em líquidos inflamáveis e com a História do Brasil dentro dos muros. Foi um ataque a nossa cultura”. 

Segundo levantamento feito pelo jornal El País, atualmente o Poder Executivo investe mais na lavagem dos 83 carros oficiais da Câmara dos Deputados e na manutenção do Palácio da Alvorada, que está desocupado, de que os cerca de R$ 206 mil que estavam destinados ao MN em 2018 - há cinco anos esse orçamento flutuava entre R$ 1 milhão e R$ 1,9 milhão anualmente. De 2015 para cá, além do orçamento cada vez mais minguado, só 2 dos 49 parlamentares do RJ demonstraram preocupação em angariar recursos para o Museu Nacional . 

O descaso com o Museu, segundo as fontes ouvidas pelo Bate-papo com Netuno, é antigo e conhecido pelos alunos, professores e funcionários que ali conviviam. “Existe um descaso com a cultura, a ciência e o conhecimento no Brasil. É impressionante, isso parece até um projeto político, com relação à cultura e conhecimento em ciência”, diz Weber. “Apesar de todos os percalços, o museu era abraçado por quem estudava lá e por quem era vinculado como funcionário”, acrescenta Weber.

“Para a maioria dos estudantes o museu era como uma casa, afinal, muitos passavam mais tempo no museu que nas suas próprias casas. No MN as coleções eram um pedacinho da gente, e cada um, a seu jeito, cuidava para preservar o que tinha ali”, conta a doutoranda do Museu Nacional Anaíra Lage. Ela defendeu a tese na última sexta-feira (31) e perdeu toda a papelada no incêndio. 

“Os documentos da minha defesa e a tese impressa foram queimados junto com a secretaria da pós-graduação. Agora é aguardar a PPGZOO se reorganizar para darmos continuidade ao trabalhos da casa. Mas isso é o de menos. A dedicação dos funcionários é destacada pela técnica Camila Messias, que também era estudante de Ciências Biológicas da UFRJ. “Muitos professores tiravam dinheiro do próprio bolso, criaram dívidas, para aumentar suas coleções viajando pelo mundo. Pessoas deixaram famílias para se dedicar ao Museu e à pesquisa”

Além da omissão do poder público, o desconhecimento do Museu e da sua importância entre os brasileiros ficou evidente com a tragédia. O Museu não entrava no roteiro dos turistas que visitavam o Rio e, mesmo entre os cariocas, não é difícil encontrar quem nunca tenha visitado o local.

"Os motoristas de Uber que me levavam ou me buscavam lá sempre comentavam que iam ao Parque Municipal Quinta Da Boa Vista, mas que nunca tinham entrado no Museu. Os brasileiros não têm a mínima noção do que perderam", diz Cristina Branco, que desenvolveu o projeto do doutorado no Museu e hoje faz pós-doutorado no Smisthsonian Museum, em Washington DC.

Memórias


Pesquisadores do mundo inteiro visitavam o Museu para desenvolver suas pesquisas nos mais diversos campos do conhecimento, como antropologia, paleontologia, oceanografia, biologia e história. “Cada item na coleção fez parte da construção do que temos de conhecimento hoje. Muitos outros fariam parte se tivesse tido tempo de serem estudados”, ressalta Camila Messias.

“Embora vários alunos e ex-alunos meus não conhecessem o museu fisicamente, eles conheceram através de mim. Ao passar informações e conhecimento, de certa maneira todo mundo que passou pelo Museu é um apêndice, como se fosse um meio replicador de todo o conhecimento adquirido lá. E não vai ser mais possível fazer isso”, lamenta Weber.

Foto: Luiz Norberto Weber (primeiro da esqueda) participando como membro de uma banca de doutorado, em uma das salas dos Museu que não existe mais. (Acervo pessoal).

Quem visitou o Museu ao menos uma vez certamente tem alguma boa lembrança: o imponente prédio histórico, as exposições e as coleções científicas impressionavam os visitantes novos e não deixavam de encantar os velhos conhecidos.

Foto: Anaíra Lage.

“Andar no museu era um retorno ao passado, era gratificante poder andar por aquelas escadarias, corredores e adentrar os laboratórios, que infelizmente não existem mais... Aquele referencial físico que eu tinha do museu acabou”, diz Weber.

Colaboração: Gabrielle Souza

Sugestões de leitura:

“Museu Nacional: De dinossauros nunca identificados a línguas extintas, o que a ciência perde com o incêndio” por Camilla Costa, BBC News Brasil. https://www.bbc.com/portuguese/amp/brasil-45404257#click=https://t.co/dhfYG32wYT

"Hope emerges for Brazil museum specimens after devastating fire", por Reinaldo José Lopes, Nature. https://www.nature.com/articles/d41586-018-06192-9

"Orçamento para lavar carros de deputados é quase três vezes maior que o do Museu Nacional", por Afonso Benites, El País. https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/04/politica/1536015210_491341.amp.html 

Entrevistados


Cristiana Castello Branco faz pós doutorado em sistemática e estuda esponjas de mar profundo. Fez graduação e mestrado na UFBA e doutorado no Rio de Janeiro. Passou 4 anos frequentando o Museu quase diariamente e fica feliz de ter levado os pais para conhecer o local e as coleções expostas.

Luiz Norberto Weber desenvolve pesquisas de taxonomia de anfíbios. Professor da UFSB, ele começou a carreira como estagiário do setor de paleontologia do Museu. Carioca, Weber mora em Porto Seguro (BA) mas ia ao Museu matar a saudade toda vez que visitava o Rio.

Camila Simões Martins de Aguiar Messias, é técnica de laboratório do Centro de Microscopia Eletrônica de Varredura do Departamento de Invertebrados do Museu Nacional e estudante de Biologia da UFRJ. Ela acredita que o incêndio foi um ataque a todos que fazem ciência e que poderia ter sido evitado. Ela trabalhava no Museu desde 2014.


Anaíra Lage trabalha com esponjas e defendeu o doutorado no Museu no último dia 31. A última visita à coleção ela fez em junho, na inauguração da exposição sobre os Corais e os 200 anos do Museu. "A ala inaugurada estava linda, cheia de detalhes nos quais era possível ver a dedicação e o carinho que a exposição foi pensada e montada para o público", lembra.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Publicar ou morrer ou publicar sem sofrer? Eis a questão!

By Catarina Marcolin

Conversando com uma colega que estava há uma semana de defender o mestrado, eis que ela me diz “Nossa, não vejo a hora de entregar esse mestrado e começar a produzir alguma coisa, sinto que não tô produzindo nada!”. Ao mesmo tempo em que pensei “Como assim?”, eu também entendi perfeitamente o que ela estava sentindo. 


Ilustração: Caia Colla.

Na carreira acadêmica a gente aprende que produzir = publicar. Portanto, enquanto não sai a publicação do paper numa revista legal, a gente trabalha insanamente, mas não parece que aquele trabalho é útil. Então nosso corpo não processa a recompensa pelo nosso trabalho. E isso é um grande desestimulador para os pesquisadores. 

Todos nós precisamos de motivação para viver. E no trabalho isso não é diferente. O que nos faz levantar todos os dias, tomar banho, trocar de roupa, enfrentar o trânsito e se dirigir ao trabalho, em um laboratório ou em uma Universidade, é o amor à ciência. E para provar nosso amor à ciência, o que fazemos? A gente pensa numa pergunta interessante, coleta dados, analisa esses dados, rebolamos na estatística e finalmente reportamos para a comunidade científica. Essa é a grande prova de que fizemos algo em nome desse amor, a nossa tão sonhada publicação.

Colocando dessa maneira, parece tudo muito simples. Um cientista deve ser uma pessoa muito realizada em sua profissão, certo? Mas não é tão simples assim. Em muitos casos, eu diria que na maioria das vezes, a conquista desse prêmio é bem tortuosa e exigente emocionalmente. 

O processo de revisão por pares é exaustivo, o nosso trabalho é constantemente criticado (nem sempre de forma muito elegante), versão após versão, até conquistarmos uma versão publicável, que não está nem perto da perfeição, mas é o melhor que se pode fazer dentro de determinado contexto. Isso quando não somos rejeitados logo de cara porque nosso artigo não se encaixa no escopo da revista, ou não atende ao amplo público leitor daquela revista. E todo esse processo pode demorar muito mais do que um ano para se completar. Então imagine como você se sentiria se só conseguisse se sentir recompensado por determinada atividade um ano após o seu início? Ou ainda, que demore ainda mais tempo e que quando você pensa que finalmente estaria terminando uma etapa da sua vida, na verdade muitas outras estariam apenas começando... 

Está vendo onde quero chegar com esse falatório? Precisamos de mais “prêmios”! Não podemos depender apenas do sucesso na publicação para nos sentirmos úteis no mundo. Precisamos de prêmios a cada semana, ou até mesmo todos os dias. Cada conquista deve ser comemorada, para cada artigo que é lido e bem interpretado, comemore. Para cada parágrafo escrito, celebre. Para cada análise estatística conquistada, vibre! Cada pequeno passo deve ser visto como algo relevante, senão corremos o sério risco de travarmos e desistirmos no meio do caminho, ou pior, de ficarmos deprimidos pela ausência de senso de utilidade.

Além disso não podemos deixar de chamar atenção para o fato de que a maioria dos pesquisadores no Brasil são contratados como docentes em Universidades públicas. No exercício de nossos cargos, precisamos dar aulas, participar de reuniões e nos envolver em inúmeras atividades burocráticas e administrativas, além de desempenhar atividades de extensão, como a divulgação científica que fazemos aqui neste blog. Recentemente, uma publicação na Scientific American recomenda que os cientistas sejam premiados por atividades de divulgação científica também.

Motivação é o que conduz o ser humano. Portanto, não é para nos sentirmos seres felizes e encantados que precisamos nos sentir úteis. É para que a gente não esmoreça nesse longo e pedregoso caminho que é a publicação de um artigo, é para que o mundo possa ter acesso a toda a ciência produzida em um laboratório. Afinal de contas, quantos de nós conseguiu publicar tudo que foi produzido desde que começou a fazer ciência? Eu mesma, nunca consegui publicar a parte mais importante do meu mestrado porque travei psicologicamente e não consegui retomar depois de tê-lo submetido 7 vezes. Ainda não desisti... E você? Já passou por algo semelhante? Conta aí nos comentários!


quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Os efeitos da falta de comunicação da ciência com a sociedade

Por Jana del Favero



Com o corte de verba anunciado pela CAPES no último dia 3, muitos pesquisadores brasileiros começaram a usar as redes sociais para contar para a sociedade o que pesquisam utilizando as hashtags #MinhaPesquisaCapes e #ExistePesquisaNoBr. Nós mesmas, aqui do Bate-papo com Netuno, fizemos um levantamento de editoras e convidadas que tiveram bolsa CAPES em algum momento de sua carreira, e em menos de de duas horas já tínhamos mais de 20 pesquisas descritas.

Mas que culpa temos nós, pesquisadores, nesse corte do governo? Por que esperamos o anúncio de uma medida tão drástica, para só então começar a falar com a sociedade e divulgar a importância das nossas pesquisas? Por que esperamos que ideias absurdas, como o  movimento anti-vacina, o conceito de  terraplana, entre outros, comecem a pipocar para que a ciência venha a público? Falar com a sociedade não deveria ser algo rotineiro dos cientistas? Por que não falamos?

O primeiro motivo que me vem na mente seria a persistente falta de tempo, que caminha  lado a lado com a falta de incentivo (e/ou falta de reconhecimento). Nós, cientistas brasileiros, além de realizarmos nossa pesquisa, conciliamos: 1. Dar aula (para graduação e pós graduação; 2. Orientar (iniciação científica, mestrado e doutorado); 3. Propor e gerenciar projetos de pesquisa, ensino e extensão; 4. Comprar equipamento e demais materiais para pesquisa e ensino (isso inclui conseguir financiamento, fazer orçamentos, pechinchar preços e realizar a compra em si); 5. Organizar escala de trabalho em laboratório e de trabalhos de campo; 6. Participar de inúmeras reuniões e comitês (departamento, colegiado de curso, pós graduação, etc); 7. Participar de bancas de avaliação (concurso, TCCs, pós graduação). A falta de incentivo está no fato de que as agências de fomento, as avaliações para ascensão de carreira e os  concursos para a seleção de professor em universidades públicas não consideram (ou dão um peso muito baixo) se você divulgou sua pesquisa ou se você tem alguma atividade de extensão. Para pontuar, o mais importante é o número de  artigos publicados em revista científica, e essas revistas quase nunca alcançam o público geral (não estou falando que artigos revistos por pares não são importantes, mas não deveriam ser a única métrica). 

Então os cientistas não falam por falta de incentivo, a população não valoriza porque não sabe como a ciência pode afetar sua vida,  o governo não incentiva porque os cientistas não falam e a população não cobra, e assim entramos em um ciclo vicioso difícil de ser quebrado. Vale lembrar que a maior parte das pesquisas no Brasil vem de dentro das universidades, e são realizadas por pesquisadores, em sua maioria mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos que são pagos por agências de fomento à pesquisa, como a CAPES. Sem a comunicação, a sociedade jamais conseguirá enxergar que não existe um remédio, um peixe no mercado ou um meio de locomoção sem pesquisa! 

Um exemplo dessa desconexão entre ciência e sociedade foi a manchete divulgada por um jornal que anunciava que a CAPES não teria verba para pagar os auxílios aos pesquisadores a partir de agosto de 2019, mas gostaria de deixar claro que a CAPES não paga auxílio aos pesquisadores, e sim bolsas de dedicação exclusiva que são a única forma de sustento para a maioria desses pesquisadores. Essa remuneração pelo trabalho de pesquisa é assim chamada porque sobre ela não incidem encargos, como impostos, mas também não traz benefícios como férias, 13° salário, fundo de garantia e seguro desemprego. Em muitos casos, o bolsista não pode nem realizar outra atividade remunerada durante o tempo de recebimento da bolsa. Assim, as bolsas são na verdade "salários" e única fonte de renda da qual a maioria desses pesquisadores depende para viver.

Quem não trabalha melhor quando está bem remunerado? Quando não precisa se preocupar se sua bolsa vai ser cortada ou não? Quando não precisa, frequentemente, pedir extensões de prazo ou submeter novos projetos?

Então deixo aqui um desafio para todos os colegas pesquisadores: falem! Não deixem as hashtags #MinhaPesquisaCapes #ExistePesquisaNoBrasil serem algo provisório. E também desafio os não cientistas: apontem algo em sua vida que não foi criado pela ciência ou que não dependa dela. Valorizem tudo que vocês tiverem ao seu redor, pois desse jeito você estará valorizando a ciência!

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Os desafios para chegar até aqui


Ilustração: Caia Colla
Terminando de escrever minha dissertação comecei a refletir sobre todos os desafios pelos quais eu passei no decorrer dos dois anos do mestrado para eu poder entregar esse trabalho redondinho, como se tudo tivesse sido perfeito e fácil de concluir. É uma mistura de sentimentos, pois ao passo que fiquei feliz por ter conseguido concluir mais uma etapa, percebi que esse documento não contava nem um terço de todas as desventuras que ocorreram. Na minha opinião, um dos capítulos da dissertação deveria ser um making-of da pesquisa, só pra contar tudo que deu errado e que você teve que resolver para entregar um bom trabalho.
Para ingressar no mestrado é necessário que, no dia da matrícula, você entregue uma Plano de Mestrado contando qual será o objetivo de sua pesquisa, qual a hipótese e o que você pretende fazer para responder essa hipótese. Nossa, até aqui foi fácil, é simples! Basta você seguir o método descrito que daí os resultados serão tratados, você discute com base em muita bibliografia estudada sobre o assunto e pronto. Em dois anos é tranquilo terminar isso. Quem dera! Pelo menos no meu caso não foi assim…Então vou contar um pouquinho pra vocês das desventuras que ocorreram durante o meu mestrado.
Meu trabalho de mestrado consistia, basicamente, em um estudo comportamental de determinados organismos do plâncton marinho por meio de filmagens em um sistema óptico tridimensional. Para construir esse sistema, eu e mais uma equipe de alunos da pós que também usariam esse sistema nos reunimos e, com base em estudos anteriores, fizemos o sistema preliminar, achando que já daria certo. Foi aí que a novela começou. Com os primeiros sistemas, percebemos alguns itens que não estavam legais como aumento, a cor do LED e a forma como o sistema estava disposto sobre a mesa. Então desmontamos o sistema e montamos outro sistema com as alterações necessárias. Essa última frase pode ser repetida mais 3 vezes, pois a cada nova montagem notávamos defeitos e tínhamos que repensar uma nova configuração do sistema. Até que depois de muitos arranjos e rearranjos e com a ajuda de pesquisadores especialistas nesta parte óptica, conseguimos chegar no sistema definitivo. Nossa, até aqui já se foram alguns meses.
Enfim consegui fazer meus primeiros experimentos. Agora sim, é gerar os resultados e partir para o abraço. Infelizmente, não. Nesta etapa do trabalho eu precisaria filmar as trajetórias que o meu organismo-alvo realizava na coluna de água. O software que tínhamos para que as duas câmeras filmassem ao mesmo tempo travava após 20 segundos de filmagem, o que não era muito representativo para mim. Achamos que era memória do computador, mas mesmo trocando para um computador mais turbinado o software apresentava o mesmo defeito. E agora? Para nossa sorte, nosso laboratório conta com um aluno da ciência da computação que desempenha um trabalho formidável. Para esse problema das filmagens nós trocamos o programa e começamos a utilizar um software que ele desenvolveu. Apesar de não limitar o tempo, esse software não disparava as duas câmeras ao mesmo tempo, então tivemos que utilizar dois computadores. Mas isso era passível de falha humana, pois mesmo que eu tentasse, não conseguia clicar com o mouse ao mesmo tempo nos dois computadores. A solução que encontramos foi utilizar dois microcontroladores que eram disparados por um potenciômetro e então as duas câmeras começavam a gravar ao mesmo tempo. Em meio a todos os testes que íamos fazendo o programa ia sendo modificando de acordo com as nossas demandas. Mais um problema resolvido!
Agora sim é partir para os experimentos. Mas o desafio de trabalhar com organismos vivos é que você depende que o mesmo esteja presente no ponto da coleta. Para meu trabalho, infelizmente, esses ajustes foram concluídos em uma época em que não tinha tantos exemplares para que eu pudesse realizar os meus experimentos. Enquanto isso o jeito era fazer coletas diárias, até que o organismo surgisse e, então, realizar os experimentos. Até aqui vários meses já se passaram, mas eu consegui realizar os experimentos.
Após as filmagens, os vídeos eram tratados por meio de um programa que nos dava como resultado final a trajetória realizada pelo organismo (além das coordenadas e dados numéricos relevantes para o estudo). Mas como esse texto é para relatar as desventuras que aconteceram, você já pode imaginar que alguma coisa aqui também deu errado. Pois bem, o programa que me forneceria as trajetórias do organismo não comportava vídeos tão longos quanto os nossos. Então mais uma vez fomos atrás de nosso “amigo-luz” e ele desenvolveu um software que nos daria a trajetória dos organismos, independente do tamanho do vídeo. Talvez aqui você esteja achando que é fácil desenvolver um programa, mas não é! Ele desenvolve para o objetivo que precisamos, nós testamos, verificamos o que precisa implementar, o que precisa mudar, e por aí vai, até chegarmos no ponto que precisamos e que talvez para outro trabalho ainda esteja sujeito a alterações. Mais um problema resolvido!
Agora sim, tratar os dados e analisar os resultados. Não que esta etapa seja fácil, mas olha quanta coisa foi feita além do que estava escrito no Plano de Mestrado inicial (isso porque contei resumidamente!). Eu não esperava me deparar com tantos desafios. Sabia que não seria trivial, mas também não esperava que nesse período eu tivesse que resolver tanta coisa. Para o mestrado eu precisei ser mais que uma bióloga...aprendi a soldar, fazer ligações elétricas, entender de física, ser técnica de computador, entender um pouquinho de programação e tudo o que foi necessário para que meu trabalho saísse.
Além de tudo o que vai acontecendo, todos os obstáculos da pesquisa, você ainda tem que lidar com sua vida pessoal. Essa parte é complicada! Muitas vezes, por problemas pessoais me senti empacada diante de um monte de coisas pra resolver. Não importa o tamanho do problema, sei que muitos passaram por coisas piores no decorrer de sua pesquisa, mas sendo ela pequena ou grande, é algo que mexe com você e te faz sentir incapaz de avançar (Veja como exemplo nosso post, O que aprendi sobre saúde mental na pós-graduação).
Bem, mas apesar de tudo o que foi contado aqui, eu cheguei ao final do mestrado com o sentimento de dever cumprido. Para mim, é muito importante compartilhar com vocês todas as minhas desventuras, pois mostra o que envolve fazer uma pesquisa...são muitas tentativas, erros e acertos, para no final publicarmos um trabalho lindo, impecável e redondinho. Mesmo com toda a pressão e obstáculos que tive que passar, eu amo o que eu faço e a cada dia tenho mais certeza que fiz a escolha certa, apesar de todos os desafios para chegar até aqui!



E você, qual foi o desafio que você teve que enfrentar na sua pesquisa? Compartilhe com a gente um pouquinho de sua história!

sexta-feira, 2 de março de 2018

Como formar bons cientistas?

Fonte: http://noticias.universia.com.br/educacao/noticia/2017/07/24/1154537/
dia-nacional-ciencia-ainda-algo-comemorar.html

Mês passado, começaram as minhas aulas do Mestrado em Oceanografia Química pela Universidade de São Paulo (USP). A primeira disciplina dessa nova etapa será dada de forma condensada, em período integral durante o mês de fevereiro. Com o nome de Oficina de Projetos em Oceanografia, essa matéria surgiu como uma maneira de auxiliar os alunos a elaborarem o projeto de pesquisa a ser desenvolvido ao longo desses dois anos de pós-graduação.
Pois bem.
A aula começou com uma reflexão sobre a ciência de maneira geral e foi afunilando até chegarmos no cenário da ciência brasileira e na carreira de pesquisador.
A discussão foi acerca dos requisitos para ser ou para formar um bom pesquisador.
Ser cientista não é fácil em nenhum lugar do mundo. A ciência exige muita dedicação, horas e mais horas de estudos, persistência e coragem para encarar o desafio de mergulhar no desconhecido com a esperança de emergir com algo novo e relevante.
No Brasil, a situação do cientista consegue ficar ainda pior. Em um país onde a ciência sofre um corte de 44% da sua verba prevista, não é difícil imaginar que a nossa discussão não foi muito animadora. Obstáculos e mais obstáculos foram destaque do nosso debate.
Não chegamos a nenhum consenso. O buraco brasileiro é muito mais embaixo.
Educação, incentivo, divulgação, reconhecimento, valorização, conscientização da sociedade, transparência na prestação de contas com o investimento recebido, melhores condições de trabalho, bolsas-auxílio compatíveis com suas necessidades...
E por aí vai – e fomos – num brainstorm, tentando colocar em uma ordem lógica qual é a solução do Brasil para formar bons cientistas.
O máximo que conseguimos obter foi a divisão dessas “palavras” em dois grupos maiores: EDUCAÇÃO & INCENTIVO


A educação deve vir desde a escola, estimulando a curiosidade e a sede pelo conhecimento. O incentivo deve vir para permitir a permanência desse cientista nessa carreira.


Ao final da aula, o professor pediu a todos nós que elaborássemos um texto bem sintetizado sobre como formar um bom pesquisador e entregássemos para ele no dia seguinte.
Fiz o meu e entreguei. Confesso que não foi fácil concatenar o pensamento e encontrar uma linha de raciocínio que fosse capaz de solucionar esse enigma. Por isso, gostaria de compartilhá-lo com vocês, para fomentar essa discussão e ouvir vozes de fora.
Segue abaixo:


Como formar um bom pesquisador?
“Primeiro a paixão, depois o treino”, disse Edward O. Wilson em Letters to a Young Scientist. Ser cientista – ou pesquisador – vem de uma curiosidade natural de querer entender o mundo que nós vivemos. Talvez você queira saber como o Universo surgiu, ou como construir um supercomputador. Talvez seu interesse esteja em compreender o corpo humano ou os ecossistemas. Seja qual for a sua pergunta, a ciência te ajudará com a resposta. E essas motivação e paixão são essenciais, porque ser cientista não é nada fácil. Faltam auxílios, incentivos, estrutura, tecnologia, e muitas vezes – para não falar sempre – não recebemos o devido reconhecimento.
Considerando que essa motivação e essa curiosidade já estejam em você, como é possível se tornar um bom cientista?
Para começar, vamos considerar o cenário brasileiro, onde vivemos. Fica mais complicado falar sobre como as coisas funcionam lá fora. Aqui, podemos fazer um plano dividido em duas vertentes principais: educação e incentivo. O início deveria ser a educação básica. Na escola, o aluno deve receber o ensino das principais disciplinas: matemática, física, história, geografia, literatura...parece óbvio, mas sabemos que no Brasil, esse óbvio é utópico. Além disso, esse aluno deve ser estimulado a pensar nos processos e nos fenômenos que o cercam. Sua curiosidade deve ser instigada e desafiada: a ciência deve ser apresentada como uma matéria possível e cotidiana. Criar feiras de ciência, desenvolver projetos científicos, desenvolver modelos, maquetes e robôs, e falar sobre cientistas renomados e suas descobertas é um bom caminho para abrir os olhos da geração futura. Fomentar a pré-iniciação científica também vale. Assim, nesses anos de colégio, o aluno conseguirá definir se tem esse perfil para a ciência e o seu próximo passo será na Universidade. Agora, passar numa boa Universidade é trivial para o bom desenvolvimento do pesquisador. É preciso se preparar para o vestibular e usar toda aquela bagagem construída com a educação básica.
Uma vez na Universidade, a sua jornada está apenas começando. Aqui dentro, o aluno deveria receber, além das disciplinas tradicionais do curso escolhido, uma educação científica, na qual ele aprenderia, desde o princípio, todo o método científico: como elaborar uma hipótese, como procurar bibliografia, como consultar outros materiais de referência, entre outras coisas. É importante ressaltar que o responsável por dar essa educação é o docente, que também deve passar por treinamentos e capacitações que o auxiliem na forma de transmitir o seu conhecimento para o aluno, didática e estratégia pedagógica adequadas. A Universidade deveria oferecer esse tipo de capacitação.
Junto a essa formação acadêmica, o aluno deve ter consciência dos incentivos existentes para o desenvolvimento de sua carreira como pesquisador. A Universidade deve investir em extensão para aproximar a ciência da sociedade, mostrar a importância e a utilidade daquilo que se faz em laboratório para o bem geral. Também deve oferecer uma estrutura adequada para o pesquisador desenvolver a sua pesquisa, com laboratórios, equipamentos e materiais em bom estado. Somado a isso, deve-se pensar em políticas de permanência: o pesquisador deve ter como se manter, manter suas necessidades básicas, enquanto desenvolve o seu projeto. Agências de fomento são cruciais para isso, oferecendo bolsas de auxílio suficientes para cobrir os gastos de moradia, de alimentação e outros desse cientista. Podemos também discutir a questão de planos de saúde e de previdência para esse pesquisador. Todos esses benefícios não são luxo, mas, sim, formas de valorizar essa carreira e considerá-la uma profissão útil e necessária como qualquer outra. Não é porque o pesquisador faz, no seu dia-a-dia, algo que gosta,que  ele não mereça ser visto como um profissional, como alguém que contribui para o desenvolvimento da sociedade como qualquer outro trabalhador. Aliás, sem ciência não há sociedade. O desenvolvimento da ciência é o que faz o ser-humano crescer, criar coisas novas e evoluir. E para garantir que isso seja feito de uma maneira adequada e de qualidade, valorizar e reconhecer aqueles que se dispõem a fazê-lo é vital.

Por fim, não podemos esquecer que pesquisador, antes de mais nada, é humano, e tem suas carências e limitações como tal. Ele não pode trabalhar sem parar, inclusive finais de semana, apenas com a justificativa de estar trabalhando com o que gosta. A sua saúde mental depende de uma regulamentação dessa atividade. Conciliar a sua vida pessoa com a vida dentro do laboratório é imprescindível para a formação de um bom pesquisador.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Sobre mudar a rota de navegação

Por Raquel Saraiva

Ilustração: Joana Ho

Mudar de carreira não é fácil - bom, pelo menos assim eu pensava quando resolvi abandonar minha carreira na fisiologia animal para encarar uma nova graduação em jornalismo. Grandes mudanças são sempre muito difíceis de encarar. E se elas não nos são impostas pelas circunstâncias da vida, mas partem de uma insatisfação nossa, acho que são ainda mais complicadas.

Quem nunca pensou em como seria se tivesse escolhido outra carreira? Passei muitos anos refletindo sobre isso - eventualmente e sem compromisso. Tomar a decisão de mudar foi, para mim, a parte mais difícil da mudança. Encarar o medo de voltar para os estudos de pré-vestibular, de falhar no Enem e medo de estar tomando a decisão errada custou muitas noites insone, muito choro e ansiedade.

Decidi pela biologia aos 17 anos. Gostava de embriologia e fisiologia, fantasiava uma carreira na ciência ou no jornalismo científico. Decidi, assim, optar pela área de saúde. Ingressei no curso e descobri aos poucos como era na realidade aquela vida que eu tinha idealizado.

Eu poderia listar os problemas da academia e da vida de professor e assim justificar minha mudança. Mas seria injusto. Todos sabemos que qualquer profissão tem seus louros e agruras. Se você gosta do que faz, os louros pesam mais na balança. Eu via muitos profissionais, alguns passando por mais dificuldades que eu, super felizes nos seus laboratórios e no campo - e não entendia como aquilo era possível.

Tentei ‘resolver’ minha insatisfação várias vezes. Foram anos de conversas com amigos, com meus pais, procurei ajuda na psicologia e na religião. No mestrado, escolhi trabalhar na área que sempre gostei e com uma orientadora que, além de super competente, era educada, prestativa e gentil. E sou muito feliz pelo trabalho que desenvolvemos juntas. Também fui muito, muito feliz no ano que fui monitora e, anos depois, professora substituta de Fisiologia Animal na UFBA.

O Facebook me lembrou essa semana uma publicação que fiz nesse período, quando lecionava. “Minha profissão é a melhor do mundo”, eu escrevi. Foi bom para lembrar dos momentos que curti minha profissão de bióloga. E eu estive feliz em muitos momentos, principalmente na sala de aula. Mas no restante do tempo eu estava insegura e detestava minha rotina.

Lembro de um pensamento que era recorrente "vou ser feliz quando eu estiver no mestrado" ou "vou ser feliz quando eu publicar meu artigo do mestrado"... bom, a “felicidade plena” que eu tanto esperei nunca veio - na verdade, ela se limitava a pequenas alegrias com as vitórias que eu tinha. Hoje, mesmo quando estou chateada com algo no curso ou em relação à profissão, eu estou feliz e tenho consciência disso em todos os momentos.  Achei que o recomeço seria difícil - e está sendo. Mas é muito mais gostoso que difícil.

Levei muito tempo para me convencer que eu não estava satisfeita e que jamais seria naquela carreira - insight óbvio que só veio com a maturidade. Eu aprendi que a gente tem que ser feliz agora - fazemos planos futuros para a vida pessoal, para a carreira, mas a felicidade deve ser vivida diariamente. Uma frase que não sai da minha cabeça é um verso da música Beautiful Boy, de John Lennon: “Life is what happens to you while you’re busy making other plans” (A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos).

Eu ouvi meu coração. Mas não só isso. Tenho muitos amigos próximos que são jornalistas, então conhecia relativamente bem a rotina da profissão. Também procurei ajuda com uma psicóloga que, por sinal, tinha se graduado e feito mestrado em veterinária antes de estudar psicologia, e ela também foi muito importante para me ajudar a enfrentar a mudança.

Assumir que jornalismo era mesmo o amor da minha vida foi fácil. Mesmo a área sendo complicada (vide as dezenas de passaralhos [demissões em massa] nas redações nos últimos meses). Sabendo que seria complicado lidar com as opiniões de pessoas próximas ("por que não faz medicina?", "acho que relações internacionais é melhor", “tem que ser forte para aguentar a carreira acadêmica”), compartilhei a novidade apenas depois da minha aprovação na UFBA.

Sei que sou privilegiada por ter tido a possibilidade de mudar - por uma série de fatores, muitos não podem fazer isso. Um fator importante foi me sentir amparada e acolhida. Eu contei com apoio da minha família, de meu marido e de poucos amigos mais íntimos. Pessoas que não questionaram minha escolha ao ver meus olhos brilharem e não mediram esforços para me ajudar. Isso foi fundamental para me dar forças para prosseguir na busca do meu sonho.

Não me arrependo de ter feito a mudança beirando os 30. Começar um outro curso com mais maturidade é maravilhoso, sinto que estou aproveitando muito mais a nova graduação, com menos medo e fazendo escolhas mais conscientes. A graduação em biologia e o mestrado com toxinologia me ajudaram a escrever de forma mais objetiva e clara, além de terem me dado uma boa bagagem para discutir temas ligados à saúde - como tenho feito aqui no blog com a divulgação científica. Por isso, sinto que estou fazendo o curso de jornalismo na hora certa. E quem sabe não enveredo pelo jornalismo científico um dia?

Hoje eu faço planos e penso nas mil (maravilhosas) possibilidades que a carreira me oferece, não me esquivo de falar sobre o jornalismo em qualquer lugar que esteja, não reclamo de ter que fazer coisas do trabalho ou da faculdade tarde da noite ou de madrugada nos finais de semana… pela primeira vez eu estou amando fazer o que faço. O jornalismo é parte da minha vida e não apenas uma profissão. E eu amo viver isso.

É bom realizar sonhos e também ter consciência de estar realizando-os. Desfrutar de cada momento, por mais irrelevante que pareça - para os outros. Porque eu sei o quanto sonhei em estar aqui, e não quero deixar nada passar em vão.

17992044_10207149000438333_4088882636839387644_n.jpgSobre Raquel:

Estudante de jornalismo, bióloga (2010) e mestre em Zoologia (2014). Trabalhou com neurociências, fisiologia animal e toxinologia. Hoje realiza o sonho de estudar jornalismo, é apaixonada por todas as áreas da comunicação, está no quarto semestre do curso na UFBA e feliz da vida se dedicando ao estágio na redação de um jornal. É editora do blog Bate-Papo com Netuno desde 2016.