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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O que é Maricultura?

Por Gabrielle Souza 

Você já ouviu o termo “Maricultura”? Sabe qual a importância dessa prática? No Descomplicando Netuno de hoje vamos falar sobre isso!


   Você já deve ter escutado falar sobre a criação de algas e animais aquáticos em viveiros, não é mesmo?! Esta prática é conhecida como aquicultura, que nada mais é do que criar condições parcial ou totalmente controladas para cultivar esses organismos. Para ser considerada uma atividade de aquicultura, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), são necessários três requisitos:
  • que o organismo possua habitat predominantemente aquático em algum estágio de seu desenvolvimento;
  • a existência de manejo e produção;
  • a existência de um proprietário da criação (não é um bem coletivo).


   A aquicultura é um termo muito amplo e engloba todos os organismos que vivem em ambiente aquático. Por isso, para o cultivo e criação dos organismos marinhos ou estuarinos foi criado o termo maricultura. 

   A maricultura pode ser subdividida de acordo com o tipo de organismo cultivado, como por exemplo: peixes (piscicultura), crustáceos (carcinicultura - que se restringe somente a camarões no Brasil), moluscos (malacocultura) e algas (algicultura).

   Você deve estar se perguntando, “como estes organismos são criados e obtidos?” Geralmente os organismos são obtidos no ambiente natural em seu estágio jovem, porém também podem ser produzidos em laboratório, incluindo a reprodução e criação de larvas, conhecida como larvicultura.

   Depois da obtenção da forma jovem, os organismos são cultivados em viveiros escavados, tanques ou no mar, comumente em ambientes costeiros abrigados como baías, golfos, entre outros. Os viveiros mais utilizadas para criar este animais no mar são: gaiolas, longlines, balsas e tanques-rede.

Figura A: Longlines (ou longa linha). Fonte
Figura B: Lanterna com cinco andares, utilizados para criação de moluscos. Fonte
Figura C: Gaiola utilizada para criação de peixes. Fonte

      Para cada tipo de cultivo utiliza-se condições físico-químicas da água adequadas e controladas, como por exemplo temperatura, iluminação, salinidade, concentração de oxigênio dissolvido, amônia e nitrito.

  Na tabela abaixo observa-se a produção em toneladas da maricultura brasileira entre os anos de 2008 a 2010, onde as práticas mais comuns são carcinicultura e malacocultura. No país a maricultura é praticada em todos os estados costeiros e está, a cada dia mais, se estabelecendo como atividade produtora do pescado, sendo uma fonte de renda para diversas famílias, que garantem o sustento com essa prática. São destaques a região sul, em Santa Catarina, com a produção de mexilhões, ostras e vieiras.

Tabela Adaptada de Castello & Krug, 2015

    A maricultura é vista com grande importância na produção de alimentos e para outros ramos da indústria. É uma atividade de potencial crescimento, podendo atender o déficit entre demanda e oferta dos produtos pesqueiros. Porém, como qualquer outra intervenção humana na natureza, a maricultura tem seus pontos negativos e positivos. Ao mesmo tempo que é uma atividade que não sobrecarrega os estoques pesqueiros naturais, que gera fonte a comunidades tradicionais, pode causar desmatamento em áreas costeiras, a contaminação das águas, a introdução de espécies exóticas (que não são nativas) entre outros problemas. Assim sendo, faz-se necessário buscar uma maricultura cada vez mais sustentável, que minimize os impactos ambientais, e beneficie a sociedade e a economia local. Falaremos mais sobre isso em outro post, aguardem!


Para saber mais:




Referências

CASTELLO, Jorge Pablo; KRUG, Luíz Carlos. Introdução às Ciências do Mar. Pelotas: Textos, 2015. 602 p.


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Por que alga não é planta, por que planta não é alga?

Por Gabrielle Souza


Quando estamos na praia e vemos uma alga, logo associamos este organismo às plantas terrestres, visto que existem evidências científicas que sugerem fortemente que as plantas evoluíram das algas verdes no período paleozóico. Porém algumas de suas características são bem diferentes. As algas, assim como as plantas terrestres, são organismos eucariontes (ou seja, a célula possui núcleo e este possui uma membrana e várias organelas) e autótrofos (produzem o próprio alimento) fotossintetizantes. A palavra alga vem do latim e significa “planta marinha”, mas se ligue: nem toda alga vive na água. Elas podem viver em ambientes terrestres associadas à fungos, em uma relação mutuamente benéfica chamada simbiose, formando os chamados liquens. Uma coisa é importante ter em mente, enquanto as plantas pertencem a um único Reino, o Plantae, o termo “alga” engloba distintos grupos taxonômicos, como por exemplo, os Reinos Stramenopila (algas marrons e diatomáceas), Rodophyta (algas vermelhas) e Chlorophyta (algas verdes) (Nybakken & Bertness, 2005). Assim, devido a complexidade e constantes mudanças taxonômicas destes organismos, não entraremos em detalhes nas formas de classificação desse grupo polifilético (que não possui um ancestral comum) chamado “alga” e sim focaremos em suas características gerais.

Líquen sobre uma rocha de granito da Serra do Mar, Joinville, Santa Catarina.

As algas possuem diversas formas de organização. Podem ser encontradas nas formas unicelulares como por exemplo as algas verdes e os dinoflagelados e pluricelulares que se organizam de forma filamentosa. Podem formar colônias que são unidas fisicamente e sua organização pode ser definida entre colônias amorfas que não possuem número definido de células, ou as que apresentam organização complexa em número de células e formas definidas. Podem ainda assumir formas planctônicas ou bentônicas (saiba mais sobre essas formas neste link) e cenocíticas onde o talo não está dividido em células e possui uma forma tubular. Dentre essas diversas formas, é comum escutarmos os termos microalgas, quando são algas microscópicas, e macroalgas, quando são visíveis a olho nu.
E são, comumente, as macroalgas que são confundidas com plantas. Uma das principais características que diferenciam as macroalgas das plantas é a sua estrutura. Visivelmente elas são parecidas, mas as macroalgas não possuem órgãos e tecidos especializados e não são vascularizadas, bem como não possuem capacidade de formar uma estrutura com flor, folhas, raiz e caule. No caso das algas multicelulares sua estrutura diferenciada é um talo utilizado para sustentação dos seus filamentos.
 
A) Alga pluricelular; B) Alga unicelular (dinoflagelado); C) Alga pluricelular; D) Alga unicelular

Outra diferenciação está na estrutura celular. As algas verdes unicelulares, por exemplo, estão classificadas no reino protista. Os flagelos, que são estruturas utilizadas para facilitação da movimentação, presente em alguns protistas como dinoflagelados, não se encontram nas plantas.
Agora, existem plantas embaixo d’água? Todas as que estão nos aquários, são algas? Um exemplo de planta aquática é a Elódea, que é muito utilizada para ornamentar aquários e ambientes aquáticos artificiais. Esta planta é do grupo das Angiospermas e pertencente ao Reino Plantae. Este reino abrange organismos fotossintetizantes vasculares e avasculares, ou seja, com presença ou não dos vasos que são responsáveis pela condução de sais minerais e água, e ausência ou não das partes reprodutivas; no caso das Angiospermas essas partes reprodutivas geram flores, folhas e frutos. A Elódea tem características evolutivas que permitiram a sua adaptação ao ambiente aquático. Segundo Scremin-Dias (1999) as folhas das plantas aquáticas submersas são geralmente muito finas e recortadas características que permitem que as elas suportem turbulências e oscilações da água, evitando a dilaceração. As folhas das plantas aquáticas apresentam também  muitos espaços aeríferos que, além de possuírem superfície permeável ao líquido que circunda a planta, auxiliam na sustentação e circulação interna do ar.



Posts relacionados






Referências

NYBAKKEN, J.W. & BERTNESS, M. D. 2005. Marine Biology: an ecological approach (6º ed.)

MIGOTTO, Alvaro E.. Dinoflagelado: fitoplâncton, dic, unicelular, planctônico, cebimar-usp. Cifonauta- Banco de Imagens de Biologia Marinha. Disponível em: <http://cifonauta.cebimar.usp.br/
photo/11554/> Acesso em: 06 dez. 2016.

LAS ALGAS EUCARIOTAS. Disponível em: <http://recursos.cnice.mec.es/biosfera/alumno/1bachillerato/organis/contenidos10.htm> Acesso em: 06 dez. 2016.

PATTERSON, David J.. Algae: Protists with Chloroplasts. Disponível em: <http://tolweb.org/accessory/Algae:_Protists_with_
Chloroplasts?acc_id=52> Acesso em: 06 dez. 2016

AGUIAR, Celio. As Algas marinhas bentônicas. Projeto Ilhas do Rio. Disponível em: <http://maradentro.org.br/ilhasrj/livro/as-algas-marinhas-bentonicas> Acesso em: 06 dez. 2016.

SIENA, Ádamo. Elódea: Alga? Não! Planta aquática. Disponível em: <http://ead.hemocentro.fmrp.usp.br/joomla/index.php/publicacoes/ciencia-em-foco/210-elodea-alga-nao-planta-aquatica>. Acesso em: 06 dez. 2016.

AOYAMA, Elisa Mitsuko; MAZZONI-VIVEIROS, Solange Cristina. ADAPTAÇÕES ESTRUTURAIS DAS PLANTAS AO AMBIENTE. 2006. 17 f. Tese (Doutorado) - Curso de Programa de Pós Graduação em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente, Instituto de BotÂnica – Ibt, São Paulo, 2006. Disponível em: <http://www.biodiversidade.pgibt.ibot.sp.gov.br/Web/pdf/Adaptacoes_estruturais_das_Plantas_ao_Ambiente_Elisa_Aoyama.pdf>. Acesso em: 16 dez. 2016.


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A fertilização dos oceanos e as mudanças climáticas

Por Yonara Garcia


Você já ouviu falar de geoengenharia? É uma ferramenta cada vez mais utilizada nos dias de hoje, mas também muitas vezes controversa, pois em alguns casos o resultado pode ser completamente inesperado! 

Hoje falaremos sobre um polêmico experimento realizado em julho de 2012, por Russ George, um empresário americano, que despejou cerca de 100 toneladas de sulfato de ferro no Oceano Pacífico como parte de um projeto de geoengenharia na costa oeste do Canadá (http://www.nature.com/news/ocean-fertilization-project-off-canada-sparks-furore-1.11631). 

Fertilização do oceano por sulfato de ferro. Fonte: http://officerofthewatch.com/2012/11/05/canada-iron-fertilization-incident/
 O ferro é considerado um elemento fundamental, muitas vezes limitante, para o crescimento do fitoplâncton. O fitoplâncton é composto por microalgas que realizam fotossíntese, processo no qual utilizam a luz solar como fonte de energia e absorvem dióxido de carbono (CO2) e água para produzir matéria orgânica na forma de carboidratos. A partir desses carboidratos e com a adição de outros nutrientes, como nitrogênio, fósforo e ferro, as microalgas produzem outras substâncias, como proteínas, aminoácidos e outras moléculas que formam as células. 

Em 1980, o oceanógrafo John Martin propôs que determinadas regiões do oceano (as áreas chamadas HNLC - High Nutrient, Low Chlorophyll), apesar de ricas em nutrientes, seriam pobres em produção primária por conta da falta de ferro. Assim sendo, a adição de ferro deveria aumentar a produção do fitoplâncton e, consequentemente, afetar o ciclo do carbono, diminuindo os níveis de CO2 na atmosfera. Sua célebre frase “Give me half a tanker ful of iron and I’ll give you an Ice Age” (Me dê metade de um barril de ferro e eu te darei uma era do gelo.) causou grande euforia, pois ele acreditava que se certas áreas do oceano fossem fertilizadas, os efeitos do aquecimento global poderiam ser revertidos, resfriando a terra.

Assim surgiu a ideia que o empresário americano colocou em prática. Russ e sua equipe despejaram uma certa quantidade de ferro no mar, acreditando que iriam promover o aumento do número de organismos fotossintetizantes e, assim, aumentar a eficiência dos processos de sequestro de carbono no oceano. Sim, bem parecido com o processo de fertilizar/adubar uma plantação para que ela cresça mais rápido! Este  assunto  gerou muita polêmica, pois entra em conflito com questões éticas e políticas a respeito dos efeitos que uma intervenção como esta traria para um ecossistema tão complexo e ainda pouco conhecido como os oceanos. Para entender melhor porque a ideia deste projeto é tão polêmica, vamos primeiro falar sobre alguns processos importantes que ocorrem no “maravilhoso mundo oceânico”.


Você já ouviu falar em “bomba física”? E “bomba biológica”? Não, não é um tipo de arma de guerra para dizimar uma população inimiga! Bomba física é o processo relacionado com a solubilidade do CO2 no oceano (solubilidade = quantidade máxima que uma substância pode ficar dissolvida em um líquido). Já a bomba biológica ocorre depois deste processo, quando  uma fração do carbono dissolvido é absorvida pela atividade biológica, através da fotossíntese, nas camadas superficiais do oceano, e transportada para o fundo. Então, vamos entender melhor como ocorre este transporte de carbono no oceano…

Movimento do carbono no sistema oceânico. 1) Utilizando energia solar, o fitoplâncton fixa dióxido de carbono na zona eufótica (onde há luz). 2) Parte dessa matéria orgânica é consumida pelo zooplâncton e por alguns microrganismos heterotróficos. 3)  Parte é exportada da zona eufótica em direção a zona mesopelágica (cerca de 1000 m de profundidade), sendo que uma fração desta matéria orgânica é remineralizada e o restante segue para o fundo dos oceanos, onde demorará milhares de anos para retornar a superfície. Adaptado de United States Joint Global Ocean Flux Study.
O CO2 é um gás capaz de se dissolver na superfície dos oceanos. Este mecanismo de solubilidade está relacionado com a concentração desse gás na atmosfera e com a temperatura da água: quanto mais CO2 houver na atmosfera e quanto menor for a temperatura, maior será a quantidade desse gás dissolvido na superfície dos oceanos. Uma vez dissolvido na água, o CO2 passa para uma nova fase do ciclo, na qual será absorvido por organismos fotossintetizantes marinhos.

Uma parte da matéria orgânica formada na fotossíntese é utilizada na respiração celular e liberada em forma de CO2. A outra fração, que foi utilizada na formação da célula, é consumida pelo zooplâncton (consumidores primários nas tramas tróficas marinhas - leia mais aqui) e/ou  transportada por gravidade para o fundo dos oceanos através da chamada “neve marinha”, formada por fragmentos alimentares e pelotas fecais oriundos da alimentação do zooplâncton, conchas e microrganismos mortos. Esse processo de transferência de carbono para o oceano profundo diminui a quantidade de carbono na zona eufótica (zona que recebe luz solar suficiente para que ocorra a fotossíntese) fazendo com que bilhões de toneladas de carbono sejam sequestrados (retirados) da atmosfera por ano. Alguns estudos estimam que a bomba biológica seja responsável por remover cerca de 5-15 gigatoneladas de carbono por ano (Henson et al., 2011).

Fitoplâncton marinho. Fonte: Link
E vocês podem imaginar como essa retirada é importante tendo em vista a quantidade enorme de carbono que nossas atividades industriais, carros, aviões têm emitido na atmosfera ao longo dos últimos anos. É importante relembrar que o tão discutido aquecimento global, entre outros problemas, é provocado em grande parte por um excesso de carbono na atmosfera. De acordo com o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) 2014, somente em 2010, 49 gigatoneladas de carbono foram emitidas na atmosfera por atividades antropogênicas. E é justamente por isso que esses experimentos com o ferro ganharam tanta popularidade.


Parece simples, não?! Pronto, resolvido o problema do aquecimento global! Vamos fertilizar os oceanos! Mas a coisa não é tão simples assim. Interferir em ecossistemas naturais é um assunto extremamente delicado, que pode causar danos incalculáveis e irreparáveis.

Alguns pesquisadores realizaram experimentos semelhantes ao do empresário americano e concluíram  que, apesar da fertilização aumentar a taxa de fotossíntese, a mesma pode desencadear alterações na composição química do oceano, alterando o funcionamento de todo o sistema. Por exemplo, o aumento da taxa fotossintética do fitoplâncton é diretamente proporcional à quantidade de dimetilsulfeto (DMS - enxofre volátil na forma reduzida) excretado por essas microalgas na água, que se volatiliza e vai parar na  atmosfera (ou seja, mais fotossíntese pelo fitoplâncton, mais dimetilsufeto no ar). Na atmosfera, estas partículas facilitam a formação de nuvens, o que seria ótimo, pois com a maior formação de nuvens poderia haver maior reflexão da radiação solar e assim maior resfriamento do planeta. Contudo, nem todos os tipos de nuvens têm a propriedade de resfriar o planeta. Estudos recentes apontam que outros fatores climáticos  também podem afetar a distribuição e as propriedades das nuvens,  podendo aumentar a temperatura do planeta. Além disso, foi observado que a fertilização também aumenta a produção de óxido nitroso (N2O), molécula que aquece 320 vezes mais que o CO2.


Outro estudo, publicado em abril de 2014 na Geophysical Research Letters, mostrou que mais de 66 % do carbono sequestrado pelo oceano retorna à atmosfera dentro de 100 anos. Ou seja, se por um lado  a bomba biológica ameniza a temperatura da Terra, sequestrando o carbono da atmosfera, por outro lado ainda não sabemos o que acontecerá quando houver o retorno deste carbono após certo tempo. Controverso o suficiente pra você?

Imagem obtida pela NASA, apresentando um bloom (floração) de fitoplâncton, vista por satélite.

Desta forma, apesar dos processos que ocorrem nos oceanos serem responsáveis pela redução da concentração do CO2 na atmosfera, interferir no sistema pode não ser a melhor solução, pois existem muitos processos químicos, físicos e biológicos que, por não serem compreendidos inteiramente, poderiam resultar em prejuízos não previstos. Enquanto não chegamos numa compreensão mais integrada destes processos, a redução das emissões de CO2 seria muito mais eficiente e segura do que tentar remediar um problema manipulando um processo tão complexo e ainda pouco compreendido.


Até a próxima!

Literatura consultada:
Henson, S. A., R. Sanders, E. Madsen, P. J. Morris, F. Le Moigne, and G. D. Quartly (2011), A reduced estimate of the strength of the ocean's biological carbon pump, Geophysical Research Letters, 38










terça-feira, 7 de julho de 2015

Um “mar” de algas

Por Cássia Goçalo e José Eduardo Martinelli Filho

Você já deve ter ido a uma praia e se decepcionado quando viu muitas algas marrons boiando na água do mar. Além do mal cheiro, uma grande dificuldade ao nadar... Pois é, essas algas são geralmente inofensivas aos seres humanos e podem ser fontes de substâncias anticoagulantes, antioxidantes, antipiréticos e analgésicos, além de funcionarem como biofiltros da poluição marinha causada pelos seres humanos.

Está ocorrendo um aumento na frequência e na intensidade das algas encalhadas nas praias ao redor do mundo. O fenômeno chamado de “marés de algas” seria explicado pela eutrofização costeira (aumento de nutrientes no ambiente marinho, relacionado a poluição). As “marés de algas” podem prejudicar as economias locais baseadas no turismo, aquicultura e a pesca artesanal tradicional, impedindo pequenos barcos de navegarem e entupindo tanques de cultivo.

Há algumas semanas houve uma invasão de Sargassum (um tipo de algas marrons ou pardas) no litoral do estado do Pará. As algas também foram registradas em grandes quantidades em Fernando de Noronha e no estado do Maranhão. Como relatado pelo Prof. Martinelli da Universidade Federal do Pará “Elas são transportadas pelo oceano através das correntes marinhas por quilômetros de distância. A floração de algas que ocorreu no Brasil, possivelmente é provinda do mar do Sargaço e do Caribe. Essas algas podem ser utilizadas como fertilizante, sendo colhidas antes de atingir a costa, processadas e distribuídas aos agricultores tradicionais”. Confira a reportagem completa http://g1.globo.com/pa/para/bom-dia-para/videos/t/edicoes/v/algas-marinhas-mudam-a-paisagem-da-praia-do-atalaia-em-salinas/4110776/.




Algas pardas do gênero Sargassum encalhadas na praia do Atalaia, em Salinópolis, Estado do Pará, durante o mês de maio de 2015.






As algas do gênero Sargassum são encontradas em bancos de algas nos mares tropicais e subtropicais e conseguem flutuar pois possuem “bolsas” de ar. Servem como habitat de muitos organismos marinhos e espécies de peixes como o “porquinho”, até mesmo golfinhos e tartarugas foram observados entre as algas. No post Algas flutuantes: o meio de transporte dos invertebrados marinhos vimos como os animais são transportados por macroalgas flutuantes do gênero Macrocystis, da mesma forma que ocorre com o Sargassum.


Sargassum, com as bolsas de ar que auxiliam a flutuação no mar.


O encalhe de algas no litoral do Pará é um fenômeno recente, só chamou a atenção quando em 2013, grandes quantidades foram relatadas uma vez no município de Salinópolis. Já em 2014, pilhas de algas se acumularam durante dois períodos no mês de maio. Em 2015, até o momento, já foram três eventos. Para ilustrar o tamanho do problema, para uma única praia (Atalaia, município de Salinópolis) o professor estimou cerca de 174 e 234 toneladas de alga para os dois encalhes ocorridos em 2014. 

Tais eventos duram entre 2 a 5 dias, período em que as praias ficam lotadas de algas. O turismo é afetado uma vez que, expostas ao sol, as plantas entram em rápida decomposição, liberando um cheiro desagradável para a maioria dos banhistas. Já as crianças que moram no local se divertem com a pilha de algas, enquanto pescadores reclamam da grande quantidade do material em suas redes de arrasto. Algas pardas do gênero Sargassum encalhadas na praia do Atalaia, em Salinópolis durante o mês de maio de 2015. 

Descrevendo assim, as algas até parecem nocivas para o ambiente e para as atividades humanas, mas tais organismos podem ser benéficos, inclusive para a economia local se forem utilizadas as estratégias necessárias. Outras espécies de Sargassum são utilizadas em países como o Japão e a China na alimentação e também como fertilizantes, além de matéria-prima para a extração de gelatina e até mesmo de álcool. Para a região afetada na costa paraense, o mais viável, num primeiro momento, seria a coleta das algas e distribuição para os agricultores locais, para a produção de adubo. 

Vale lembrar que o complexo de espécies Sargassum natans/fluitans são algas que podem fechar seu ciclo de vida na coluna de água, ou seja, independente do fundo marinho. As algas encontradas nas praias da região Norte do Brasil e em Fernando de Noronha pertencem justamente a tais espécies. As mesmas também são responsáveis pela formação do mar de Sargassum no Caribe. O professor Martinelli apresenta duas explicações sobre a origem das algas: a primeira é de que essas algas se desprendam do mar de Sargaço e sejam transportadas até a costa norte do Brasil. A segunda é de que uma população dessas algas já esteja se desenvolvendo recentemente na costa da região norte do Brasil. 

Amostras de algas foram enviadas para as professoras Maria Teresa Széchy e Beatriz de Barros Barreto, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, para sequenciamento do DNA e assim dar subsídios para as explicações levantadas.  

Estudos sobre as marés de algas são considerados essenciais para se obter reais perspectivas ambientais e econômicas futuras para o Brasil, em termos de viabilidade e aproveitamento deste recurso natural ao invés de apenas considerá-las como "ervas daninhas". 


Artigos e sites recomendados: 

Montes, R. C. Estudo Ficoquímico da alga marinha Sargassum vulgare var. nanum E. de Paula (Sargassacea) do litoral paraibano. Universidade Federal da Paraíba. Dissertação de Mestrado, João Pessoa, 2012. 115 p. 

Smetacek, V.; Zingone, A. 2013. Seaweed tides on the rise. Nature. Vol 504 p. 84-88.  

Sobre o convidado:

O professor José Eduardo Martinelli Filho (também conhecido como Zé Du) foi aluno de mestrado e doutorado do Instituto Oceanográfico da USP e colega das editoras deste blog. Foi professor substituto na UNESP São Vicente em 2008, professor assistente na UFPA campus de Altamira entre 2009 a 2012 e professor adjunto da Faculdade de Oceanografia da UFPA em Belém, desde 2012. Formado em Biologia, atua principalmente nos temas Oceanografia Biológica, Ecologia Marinha e Zoologia de Invertebrados.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Algas flutuantes: o meio de transporte dos invertebrados marinhos

Por Izadora Mattielo

Um caso na Patagônia Chilena...

Durante a faculdade, fui fazer um estágio de férias no Chile com um professor da Ecologia Marinha. Lembram do post de sexta-feira (acesse aqui)? Pois é, internacionalizar é preciso!!!

A minha sorte é que um mês antes da viagem eu encontrei este professor em um congresso aqui no Brasil, onde pudemos planejar o meu projeto que seria com as “algas flutuantes”. Oi? Ele queria que eu entrasse em um barco e caçasse as algas que estavam flutuando no meio do mar para analisar a fauna acompanhante. - Hummm, OK. E?

Aí o professor me explicou que essas algas se desprendiam por causa das fortes correntes marinhas, tempestades ou ventos, e iam flutuando à deriva, termo em inglês chamado de rafting. E junto a elas acompanhava uma fauna que se abrigava entre suas folhas, principalmente de invertebrados marinhos que não tinham fase larval e, sim, desenvolvimento direto. Ou seja, as algas seriam um mecanismo de dispersão e conectividade das espécies marinhas!


Foto: Macrocystis pyrifera flutuante. Por Ivan Hinojosa.










Foto: Esquema das algas bentônicas, flutuantes e os animais
mais comuns encontrados em ambas as algas. Por Ivan Hinojosa.















Este professor e sua equipe já haviam reportado o aparecimento de espécies nativas em diferentes regiões do país, principalmente de animais que não tinham fase larval. Portanto, não tinha como esses animais se dispersarem livremente. Isso só seria explicado através de um “carregamento” dessas espécies para novas regiões...ou seja, pelas algas: o novo meio de transporte da comunidade marinha! Interessante, não?

E foi! Como eu só fiquei três meses lá, não pude participar das coletas das minhas amostras (da parte mais legal), porque quando eu chegasse já teria que começar a identificação da fauna. Mas meu chefe foi muito legal e me levou em uma expedição de outro projeto! Pensem em um lugar paradisíaco, ondas gigantes, barco pequeno, muito frio e sol ao mesmo tempo, GPS na mão, binóculos na outra, papel e lápis para anotações e somente três pessoas a bordo para fazer tudo. Não podíamos tirar a atenção do mar à busca das frondes de algas. Ah, se eu passei mal de tanto olhar pra baixo para a água? Imagina! Nestas horas, é só contrair o abdome e lembrar do amor à ciência que dá tudo certo!

Fotos: À esquerda eu no barco em Punta Choros antes da coleta; e à direita, o pessoal coletando a fronde de macroalga flutuante com peneira para não escapar nenhum animal. Por: Ivan Hinojosa.


O meu projeto tinha como um dos objetivos comparar a fauna acompanhante de algas flutuantes com a de algas que ainda não se desprenderam, que chamamos de bentônicas, ou seja, que estão fixas ao fundo ou a algum substrato, pedra, por exemplo. E neste caso, elas foram coletadas através de mergulho autônomo. As algas que trabalhei eram da espécie Macrocystis pyrifera, que formam grandes kelps (florestas) no Oceano Pacífico.




Foto: Fronde de algas bentônicas à esquerda, os famosos kelps marinhos; e à direita detalhe da Macrocystis pyrifera, com suas folhas e aerocistos. Segunda foto por: Ivan Hinojosa.


No laboratório, estas algas foram lavadas sobre peneiras para reter os animais que queríamos identificar. Depois disso, pesamos as algas, medimos o tamanho das folhas e outras estruturas importantes. Na lupa, fizemos a identificação dos animais.

Então vamos ao que interessa: os resultados! As algas bentônicas, que estavam fixas, tinham uma abundante fauna acompanhante, diferentemente das flutuantes. Além disso, certos grupos nunca apareciam nas algas flutuantes, como os ouriços-do-mar e alguns tipos de crustáceos (que na biologia são chamados de decápodas), provavelmente pelo fato de não conseguirem se agarrar às algas e não ficarem fixos durante a “viagem” à deriva.

Gráfico de porcentagem de ocorrência dos táxons em cada tipo de alga,
flutuante e bentônica. Por Izadora Mattiello e Ivan Hinojosa.
Outro fato interessante é que apesar da menor abundância de espécies, as algas flutuantes apresentaram, em sua maioria, espécies com desenvolvimento direto, sem fase larval, o que reforça ainda mais a nossa hipótese inicial de que as algas flutuantes contribuem na dispersão das espécies. Um caso bem conhecido na costa chilena é do molusco bivalve Gaimardia trapesina.

Infelizmente, quase tudo tem seu lado negativo. Neste caso é o carregamento do lixo! Com tanto lixo marinho, que nós humanos porcamente poluímos, as algas acabam por fazer esse tipo de transporte também. Durante minhas análises, cansei de jogar fora plásticos, tampinhas de garrafas, pedacinhos de corda, que acabaram grudando nas algas. Nestas horas fica bem nítido o quanto a gente já abusou desse ecossistema.

Você gosta de lixo no seu carro, no metrô, no avião? Quando estiver na praia lembre-se do meio de transporte dos animais marinhos, pelo menos...

Foto: Ivan Hinojosa.
Saiba mais em: Lab BEDIM

Até a próxima!