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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Da praia ao laboratório: como me tornei uma cientista

Por Mônica Lopes-Ferreira*
Desde pequena sempre gostei do mar. Nos finais de semana, nas férias, nos feriados, lá estava eu curtindo uma praia. Tudo no litoral me encantava: a natureza, as paisagens, os animais.  Enquanto eu desfrutava das verdes águas mornas da cidade de Maceió, minha terra natal, simultaneamente prestava atenção em todo o ecossistema ao meu redor.

No início da juventude chegou o momento de escolher qual carreira seguir. Não tive dificuldade em entender que o estudo dos seres vivos fazia com que a minha mente e meu coração vibrassem. Decidi fazer Biologia, estudei bastante e ingressei na Universidade Federal de Alagoas.  

Sou muito curiosa e sempre gostei de aprender. Além da rotina das aulas na Universidade, eu participei de muitos cursos, seminários e palestras na área. Até que no ano de 1989, um encontro especial mudou o rumo da minha história. Ivan Mota - pesquisador do Instituto Butantan – ministraria em Alagoas um curso sobre Imunologia. Como estudante, me senti estimulada a saber mais sobre aquele centro de pesquisa que eu conhecia somente pelos livros de Ciências. Eu já sabia que os cientistas de lá estudavam animais peçonhentos e produziam soros para tratar os acidentes que os venenos provocavam. E a Imunologia?  Ela eu ainda não conhecia.

O curso era complexo, oferecia aulas o dia inteiro e tinha muitos alunos. Ali tive contato com muitas novidades e fiz grandes descobertas. O professor era um pesquisador competente, entusiasmado e apaixonado. Fiquei completamente atenta e deslumbrada com a Imunologia. Para a minha surpresa, ao final do curso ele anunciou que faria a seleção de cinco alunos para um estágio no Instituto Butantan. Passei na entrevista, fui escolhida e descobri que o professor – assim como eu - também gostava do mar.

Tive total apoio dos meus pais para realizar o estágio. Sentamos, conversamos e decidimos que eu iria para São Paulo. Eles tinham consciência de que seria uma grande oportunidade e que eu viveria momentos únicos. Quando cheguei na capital paulista, me surpreendi com o tamanho da cidade. Como ela era diferente de Maceió! Nunca vou esquecer do primeiro dia, do primeiro olhar, das fortes batidas no coração, ou seja, minha descoberta da cidade. Em contrapartida, o Butantan era um refúgio no meio de São Paulo. Muitas árvores, prédios antigos, museus, laboratórios, cobras, aranhas, escorpiões, entre outras espécies de animais peçonhentos.

Os pesquisadores me ensinaram muito.
As hipóteses, as perguntas, os experimentos, a vida dinâmica do laboratório e a Imunologia foram conduzindo a trajetória para que eu me tornasse uma cientista. Acabei ficando em São Paulo e terminei o curso de Biologia por aqui. Estudei muito e ingressei em uma pós-graduação na área de Imunologia. Meu objeto de estudo foi um animal peçonhento. Não era cobra, aranha, muito menos escorpião. Minhas origens litorâneas falaram mais alto e decidi estudar um peixe.

O animal escolhido para a minha pesquisa foi o Niquim, de nome científico Thalassophryne nattereri; peixe da região Nordeste que despertou a minha atenção durante um período de férias em Maceió. Um médico dermatologista me contou na ocasião relatos sobre os acidentes que o bicho causava em pescadores e banhistas.  Não havia tratamento e existiam poucos estudos sobre o veneno. Fiquei convencida da importância de estudar a espécie em questão, quando comecei a conversar com os pescadores locais. Eles me disseram: “Ele é um peixe pequeno, de movimentos discretos, não ataca ninguém, mas quando tem seu espaço invadido, solta um veneno capaz de aleijar ".

O aquário no laboratório cresceu e outros peixes peçonhentos chegaram:  bagres, arraias, peixe-escorpião e espécies que habitam as nossas águas e causam acidentes. Até que um peixe mais dócil apareceu no meio do caminho e os estudos foram ampliados.

Zebrafish
O Zebrafish - de nome científico Danio rerio - é conhecido popularmente como Paulistinha. Ele é utilizado como modelo experimental em muitos países para estudos comportamentais, genéticos, testes de toxicidade, entre outras áreas. Aprofundei meus conhecimentos sobre a espécie e iniciei os estudos com o peixe no Instituto Butantan.

As pesquisas avançaram e em 2015 foi inaugurada a Plataforma Zebrafish. Um local de criação e manejo do animal, que tem como objetivo fazer ciência e compartilhar informações. A partir da Plataforma surgiu a Rede Zebrafish. Um projeto que liga 80 pesquisadores de 40 instituições espalhadas pelo Brasil. O Paulistinha também é comunicação; um divulgador de ciência e contador de histórias. Com ele eu tenho ido além, chegado em diferentes lugares, conversado com crianças, jovens, adultos e idosos.

Mulher e cientista
Durante uma palestra que ministrei em um Colégio Estadual de Osasco, sobre o Zebrafish, os alunos não sabiam qual era o gênero do pesquisador que falaria para eles naquele dia. A maior parte dos estudantes esperava um homem velho, de jaleco e com cabelos brancos.  Fiz questão de levar comigo somente pesquisadoras mulheres; elas são maioria em nosso laboratório e devem servir de exemplo para as crianças. É preciso romper paradigmas para que as coisas mudem. Me sinto realizada pela oportunidade de trabalhar em prol do avanço da ciência.

Esta é a minha história como mulher e cientista. Estudei, ingressei na pós-graduação e, no ano de 2000, concluí o doutorado pelo Departamento de Imunologia da Universidade de São Paulo. Sou doutora, pós-doutora, pesquisadora do Instituto Butantan e atualmente diretora do Laboratório Especial de Toxicologia.

E por tudo isso posso dizer, Sou Feliz, Sou Cientista.



*Mônica é pesquisadora do Instituto Butantan e coordenadora da Plataforma Zebrafish.

As ilustrações deste post são de Veridiana Scarpelli.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

A pós-graduação como um espaço agradável

Por Daniela Coelho

Boa parte das pessoas com quem eu já conversei sobre pós-graduação tem referências ruins sobre o ambiente acadêmico. Essas referências vão desde as más orientações que recebem dos seus orientadores (usarei o termo orientadores para me referir tanto a homens quanto a mulheres), até um ambiente pesado, de intensa cobrança e competição, que o próprio programa de pós graduação pode cultivar. Isso sempre me chamou atenção, pois desde o meu terceiro semestre do curso de Biologia eu já tinha interesse na vida acadêmica.
Fiz iniciação científica e mestrado (zoologia) na UFBA e agora estou no doutorado (ecologia) na USP. No início eu realmente achei que meu processo de adaptação seria muito pesado, por estar trocando de área de atuação e de cidade. Porém, andei um passo de cada vez e isso foi essencial para que soubesse que estava escolhendo a pessoa certa, no lugar certo. Primeiro, conheci meu orientador alguns anos antes de fazer a seleção. Fiz o esforço de ir até a universidade onde ele leciona justamente para conhecê-lo e termos nossa primeira conversa sobre a “possibilidade” de orientação - essa galera normalmente é muito ocupada e fazer o contato previamente é essencial. Ele me propôs que tivéssemos uma vivência antes (uma espécie de estágio), justamente para saber se eu me adequaria ao seu estilo de orientação e se ele acharia interessante me orientar. Nada mais justo! Ele me sugeriu também conversar com seus orientandos para saber sobre o seu perfil de orientação e sobre o ambiente do laboratório.
Acho que pouquíssimos orientadores fariam tal sugestão, assim como poucos alunos têm esse feeling de buscar saber onde estarão pisando! Conversar com os alunos que já foram orientados pelo pesquisador e aqueles que estão em via de orientação pode pesar muito na sua escolha. Após estar certa de que seria uma boa decisão fazer o doutorado com ele, iniciamos a etapa de discutir o meu projeto, de forma que a linha de pesquisa que seguiríamos se adequasse tanto aos interesses dele, quanto aos meus, afinal, eu passaria 4 anos da minha vida estudando aquele tema, naquele ambiente e sob aquela orientação.

Quando fui prestar a seleção, tive outra grata surpresa: meu orientador se propôs a discutir comigo cada um dos artigos que cairiam na prova, justamente para garantir que eu me sentisse mais segura para o processo seletivo. Embora essa atitude dele seja um ponto fora da curva, ele provavelmente também estava garantindo que o seu investimento de tempo em mim seria garantido se eu fosse aprovada na seleção! Após ingressar no programa e discutirmos nosso projeto, ele fez uma sugestão que achei brilhante! Eu seria preparada a ponto de, no último capítulo da minha tese, ser a única autora, pois ao final do meu doutorado eu deveria “ser capaz de pensar sozinha numa pergunta, delinear e executar uma pesquisa”, e a participação dele seria apenas para aparar as arestas.

Nesse momento eu realmente entendi que sua preocupação não era apenas com o número de artigos que eu iria produzir ao final do meu doutorado, e sim com a qualidade da minha formação. Ele também incentiva os alunos que integram o laboratório a trabalharem conjuntamente na elaboração de uma pesquisa, sem a participação dele e isso tem sido muito produtivo para o crescimento, união e amadurecimento do grupo. Estamos aprendendo a nos ajudar mais. Além disso, nosso orientador disponibiliza uma hora de reunião semanal para cada aluno discutir com ele o projeto ou qualquer outro assunto que quiser. Ele estuda junto com a gente!

A maioria das pessoas diz que eu vivo num laboratório de conto de fadas, e que orientadores como o meu são raríssimos! Pode até ser, quando pensarmos no grande universo das pós graduações. Porém, assim como o meu, eu tenho convivido com diversos outros orientadores que também se preocupam, e muito, com a sua “prole”. Eu faço parte de uma espécie de laboratório integrado, onde, além do meu orientador, existem três outros professores que agem praticamente da mesma forma. Eles não se importam exclusivamente com a nossa produtividade acadêmica, mas também com a qualidade do profissional que eles estão formando para o mercado.

Ok, agora vamos ampliar a escala. E o ambiente da sua pós graduação? Bom, eu estou muito satisfeita com o programa de pós graduação em ecologia da USP. Pelo tempo que estou aqui, pouco mais de 1 ano de pós e dois anos anteriores de vivência no laboratório, pude perceber que os coordenadores são muito humanos e preocupados com o bem estar dos alunos. Juntamente com os representantes discentes, eles conseguem manter um ambiente onde os alunos têm voz ativa. Há eventos sobre saúde mental, com ciclo de palestras e bate-papo entre os alunos, ou com os professores, sobre depressão, síndrome do impostor, ansiedade, organização de tempo e muitos outros temas que tanto afligem os estudantes. Além disso, temos um espaço destinados aos alunos para apresentação dos nossos projetos, ideias ou para o convite de palestrantes do nosso interesse.  Venhamos e convenhamos, existe algum trabalho sem prazos e cobranças? Não, né? A questão é o que os organizadores do ambiente em que você está inserido estão fazendo para melhorar a sua paz de espírito.O programa cobra prazo e produtividade dos alunos, como qualquer outro programa. O que muda é o que eles fazem para amenizar o estresse ao qual estamos submetidos.

Será que tudo que estou vivendo é um mar de rosas e eu estou iludida com a realidade do ambiente da pós graduação? Claro que não, não me considero uma pessoa tão ingênua assim! O grande xis da questão é saber previamente para onde você quer ir. Como disse o gato do filme Alice no País das Maravilhas, “se você não sabe pra onde ir, qualquer caminho serve”. E quais conselhos eu gostaria de deixar aqui? O primeiro é: busque se informar fortemente sobre o suporte dado por sua pós graduação de interesse à saúde mental dos alunos. Da mesma forma, busque saber quem é o seu orientador de interesse e o que os alunos antigos e atuais pensam sobre ele, tanto como pessoa quanto como profissional. Não esqueça: quem vê lattes não vê coração! A segunda é: não escolha o orientador “apenas” pelo quão produtivo ou expert ele é na sua área de interesse. Escolha também pelo quanto ele vai te respeitar como pessoa e respeitar seus interesses profissionais. Não escolha ”o melhor”, escolha aquele que é capaz de extrair o que há de melhor em você.

Eu sei que não há espaço para todos nesses ambientes ideais, mas quando estamos falando da nossa saúde mental, talvez seja mais prudente refletir se vale a pena estar em lugares que degradem a sua paz de espírito na construção do seu caminho acadêmico ao invés de buscar outras alternativas.


Sobre a autora:

Daniela Pinto Coelho: É bióloga formada pela UFBA, mestre pelo programa de pós-graduação em Diversidade Animal (UFBA) e doutoranda pelo programa de pós-graduação em Ecologia da USP. A autora desenvolve pesquisa com redes de interações tróficas usando serpentes como modelo de estudo. É apaixonada por gatos e por esportes de aventura.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Como uma larva no mar: a vida de um poliqueta



Por Agna Silveira

Os organismos do grupo Polychaeta pertencem a uma classe de invertebrados do filo Annelida (já falamos de poliquetas aqui). São vermes que podem ter uma aparência grotesca, mas também apresentam-se bonitos e graciosos; podem ser vermes de escamas, vermes arenícolas (que vivem na areia) e muitos outros. São divididos comumente em 2 grupos de acordo com o seu estilo de vida: se vivem em túneis ou tubos, onde quase não se locomovem, são chamados de Sedentaria, mas se são livres e exploram o mundo por aí, são chamados de Errantia.


Polychaeta da família Tomopteridae, a única família holoplanctônica, ou seja, que tem todo o seu ciclo de vida no plâncton. É um típico exemplar dos Errantia. Fonte.













Poliqueta tubícola (ou seja, vive em tubos,
típico Sedentaria) da Baía do Araçá, São
 Sebastião, SP
 Foto: Álvaro E.
Migotto. 
Fonte.

Os biólogos costumam classificar os organismos vivos de acordo com as mais diferentes características, utilizando critérios morfológicos, fisiológicos, genéticos e moleculares, por exemplo. Chamamos esse processo de classificação taxonômica e ela resulta no agrupamento dos organismos  em Filo, Classe, Ordem, Família, entre outros. Para exemplificar essa sistematização , tomamos como exemplo o nosso personagem principal (uma larva de poliqueta da família Spionidae coletada no píer de Porto Seguro). A sua classificação taxonômica encontra-se abaixo:

Filo Annelida
Classe Polychaeta
Ordem Canalipalpata
Subordem Spionida
Família Spionidae


Larva de Polychaeta, família Spionidae, coletada no píer
 de Porto Seguro, BA. Foto: Catarina Marcolin.

Os poliquetas adultos podem se reproduzir de forma assexuada ou sexuada. Vamos relembrar um pouco o que isso quer dizer? Quando os poliquetas se reproduzem sexuadamente, eles liberam gametas diretamente na água, onde ocorre a fertilização. A partir daí se desenvolvem larvas planctotróficas (que se alimentam de plâncton). As larvas são, portanto, uma fase do ciclo de vida de alguns organismos. Além disso, os poliquetas são capazes de se regenerar quando partes de seu corpo são fragmentadas em segmentos, que se regeneram em novos indivíduos (essa seria a reprodução assexuada). Percebam que não há fase larval neste caso, pois a partir de um organismo adulto se desenvolve outro adulto.


O tamanho destes animais pode variar bastante, desde seres microscópicos até organismos de 3 metros de comprimento! O corpo da larva que aparece no vídeo tem aproximadamente 700 μm de comprimento, menor que 1 mm, ou seja, equivale aproximadamente à largura da cabeça de um alfinete. 


Apesar de tão pequeninas, essas larvas conseguem nadar de modo impressionante, utilizando estruturas chamadas de parapódios (elas ocorrem em pares isolados que crescem na lateral do corpo), onde se inserem as cerdas. Essas estruturas atuam como se fossem remos ou pequenos pés, conjuntamente com músculos circulares e longitudinais para nadar à beça nos oceanos (veja o vídeo).


Estruturas corpóreas, incluindo parapódios utilizados para natação, larva da família Spionidae. Foto: Catarina Marcolin.

Video da larva de Spionidae usando os parapódios para nadar. Vídeo filmado no laboratório da UFSB, por Catarina Marcolin. Edição Agna Silveira.

As larvas de poliqueta se alimentam de fitoplâncton ou de partículas em suspensão. Para isso, esses animais desenvolveram estruturas adaptadas para capturar partículas, como os cílios protostomiais. Talvez você esteja se perguntando como esses animais conseguem encontrar alimento nos vastos oceanos. Acontece que os poliquetas possuem órgãos sensoriais que variam nas diferentes espécies de acordo com seu estilo de vida. O que chamamos de olhos nestes organismos são órgãos fotorreceptores localizados no protostômio, que podem variar de dois a quatro pares e detectam apenas variações de intensidade luminosa. Em alguns grupos, como  os poliquetas pelágicos da família Alciopidae, existem grandes olhos capazes de formar imagem, conforme pode ser visto na imagem abaixo.


Note os enormes olhos deste poliqueta da
 família Alciopidae. Fonte.
Uma vez capturado o alimento, é hora da digestão! Poliquetas, incluindo suas larvas, possuem um tubo digestivo completo, ou seja, tem uma boca anterior (para captação de alimento) e um ânus exterior (para liberação de fezes). No vídeo você pode ver o alimento migrando no tubo digestivo até ser finalmente expelido na forma de fezes. Fofo não?

As larvas de poliqueta não são apenas fofas, elas participam de processos ecológicos fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas, do qual você também faz parte. São um importante elo de ligação entre os produtores primários (organismos que produzem o próprio alimento) e os animais marinhos de maior tamanho como larvas de peixes, até baleias. O que significa que estes animais são essenciais na transferência de matéria e energia nos ecossistemas marinhos. Você imaginou que um bichinho tão pequeno seria tão importante?

Páginas Consultadas:

http://biomarpt.ipma.pt/pdfs/1572Curso%207-Taxonomia%20e%20Ecologia%20de%20Zooplancton%20Marinho_Metodo%20e%20tecnicas%20de%20amostragem%20contagem%20e%20identificacao.pdf

http://www.biorede.pt/page.asp?id=780

https://sites.evergreen.edu/vms/polychaete-larvae-eq/

http://simbiotica.org/digestivo.htm

http://www.repository.naturalis.nl/document/549831

Sobre a autora:

Sou Bacharel Interdisciplinar em Ciências, estudante de segundo ciclo no curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Fiquei encantada pelo mundo microscópico desde que o conheci, então decidi incluir o zooplâncton na minha formação como conteúdo optativo. Este texto foi o resultado da avaliação final do componente Bioecologia do Zooplâncton, ofertado na UFSB, pela professora Catarina Marcolin.



quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Mudanças Climáticas ou Aquecimento Global?

Por Carolina Barnez Gramcianinov

Texto original: Tempo.com

Encontramos na internet ou na TV um monte de notícias sobre o aquecimento global. As vezes ouvimos a expressão "mudanças climáticas". Será que esses termos querem dizer a mesma coisa?

De forma simples, o aquecimento global é um dos maiores sintomas das mudanças climáticas causadas pelo homem.

Muitas vezes para dar um tom apelativo às reportagens e artigos usa-se aquecimento global como sinônimo de mudanças climáticas, gerando certos equívocos na transmissão de informações científicas. De forma simples podemos encarar o aquecimento global como um dos maiores sintomas das mudanças climáticas causadas pelo homem.

Aquecimento global se refere apenas ao aumento da temperatura média da superfície da Terra, enquanto mudanças climáticas é um termo mais genérico que abrange este aquecimento e seus efeitos secundários, como derretimento do gelo, aumento de chuvas ou períodos de seca em algumas regiões, aumento do nível do mar e etc. Além disso, normalmente o termo aquecimento global é empregado para falar do aquecimento causado pelas atividades humanas. Já mudanças climáticas engloba tanto mudanças causadas pelo homem quanto variações naturais do clima.

A elevação da temperatura média na superfície do planeta ocorre devido ao rápido aumento do dióxido de carbono e outros gases de efeito estufa na atmosfera provenientes principalmente da queima de carbono, petróleo e gás. O homem também pode influenciar o clima através da emissão de partículas chamadas aerossóis e transformação de paisagens, como desmatamento, por exemplo.

Por que falamos "Aquecimento Global"?

O termo aquecimento global foi usado a primeira vez pelo geoquímico Wallace Broecker em 1975 (Science). Naquela época os cientistas já percebiam que as atividades humanas podiam impactar o clima, porém, ainda não se sabia quais seriam as consequências. Qual efeito dominaria o clima? Resfriamento pela emissão de aerossóis ou aquecimento pela emissão dos gases de efeito estufa?

A tendência da temperatura global na superfície da Terra é positiva na maior parte do planeta. Áreas em cinza não possuem dados suficientes para o cálculo da tendência. Créditos: NOAA Climate.gov.

Em 1979, um grupo de cientistas estudou o impacto do dióxido de carbono (CO2) no clima. Nesse trabalho o termo de Broecker "aquecimento global" foi retomado para falar do aumento da temperatura média da superfície da Terra devido ao aumento do CO2 na atmosfera. No entanto, a expressão mudanças climáticas foi usado para discutir as outras consequências induzidas pelo aumento de CO2.

O uso do termo aquecimento global gera confusão quando mal explicado ou mal usado. Muitos questionam "como pode estar ocorrendo aquecimento global se tal região está ficando mais fria?" Apesar da temperatura em algumas regiões do globo estarem diminuindo, em outras a temperatura está aumentando ainda mais. Desta forma, quando se faz a média das temperaturas na superfície em várias regiões do planeta, observa-se um aumento.

Variabilidade Natural vs. Atividades Humanas

Muitos cientistas preferem usar o termo mudanças climáticas em seus estudos. Separar os efeitos da variabilidade natural dos efeitos causados pelo homem não é uma tarefa fácil e esse trabalho é feito através de simulações do clima em situações distintas - por exemplo, sem o aumento dos gases do efeito estufa por atividades humanas e com o aumento de emissões como temos hoje.

Sabemos que o planeta já passou por mudanças climáticas, mas a temperatura média global está aumentando mais rápido se comparado com registros prévios. Créditos: NOAA Climate.gov.


O planeta já experimentou mudanças climáticas ao longo de seus 4,54 bilhões de anos, com eras do gelo e períodos mais quentes. Porém o aumento atual da temperatura média global parece estar ocorrendo muito mais rápido que em qualquer outro ponto do nosso registro de temperatura. Por isso acreditamos que o aquecimento global é um tipo de mudança climática sem precedentes, e está gerando um série de efeitos secundários em nosso sistema climático.

Sobre Carolina B. Gramcianinov

Sou oceanógrafa pelo IO-USP, onde também fiz mestrado em Oceanografia Física. Sempre quis saber mais sobre o impacto do oceanos no tempo e clima da Terra, o que me motivou a entrar no doutorado em Meteorologia no IAG-USP. Meus maiores interesses estão relacionados à física dos oceanos e atmosfera e seus impactos em outros processos ambientais e nas atividades humanas. Acredito que um entendimento integrado dos fenômenos meteológicos e oceanográficos é fundamental para a compreensão do sistema climático e previsão do tempo e estado do mar.  A autora já publicou outro post aqui no blog, relembre: https://batepapocomnetuno.blogspot.com/2017/10/os-furacoes-e-seus-nomes.html

quinta-feira, 22 de março de 2018

Poluição marinha, microplásticos e ciência cidadã

Por Thaiane Santos


Sabia que tem plástico em todo lugar no mundo? Em praias, no meio dos oceanos, até nas regiões polares! O uso dos plásticos aumentou rapidamente durante o século 20 pelas suas características como baixo custo, alta durabilidade, flexibilidade, baixa densidade e por ser resistente ao calor. Essas características permitem várias formas de fabricação e usos. Pense em quantos tipos de plástico você conhece. Inúmeros né? Dê uma olhadinha no ambiente em que você está e veja quantos itens de plásticos tem por perto. Muitos! Quando um tipo de plástico não é reutilizado, e descartado de forma incorreta, ele pode chegar em praias e em mar aberto! Sabe aqueles pratinhos de isopor que a gente compra no supermercado? Assim, como todos os itens feitos de plástico, ele não some na natureza (https://goo.gl/9rT4JU)! Da mesma forma que o isopor, vários tipos de plástico têm baixo valor comercial para a reciclagem de cooperativas. Por isso são descartados junto com o lixo comum, de forma incorreta. 

Já se tem conhecimento de que o plástico presente nos oceanos pode ser resultado da falta de controle desses resíduos em terra (https://goo.gl/B1sShN). Quando o plástico está presente no meio marinho ele vai se quebrando em pedacinhos menores, dando origem aos microplásticos (http://batepapocomnetuno.blogspot.com.br/2017/05/pellets-e-microplastico-no-ambiente.html). Esses pedacinhos de plásticos nos oceanos representam um risco para os animais marinhos que podem ingerir ou aspirar essas partículas por engano. Estudos recentes comprovam que 73% dos peixes do oceano Atlântico ingerem microplásticos. Entre esses peixes são tipos comuns na nossa alimentação, como o atum (https://goo.gl/ddGax7). 

O fim dessa rota do plástico (casa >>  lixo >> oceano), quando não é a ingestão pelos animais marinhos, é o acúmulo em praias, e mais de 95% do lixo nas praias brasileiras é plástico (https://goo.gl/nHDKvx)! Saber para onde vai e de onde vem esses fragmentos plásticos é muito importante para avaliar o tamanho do impacto gerado no planeta por nós humanos, que coloca em risco o meio ambiente e a nossa própria saúde! Também ajuda na criação e implantação de políticas de monitoramento e soluções para o lixo marinho! O mais legal é que essa ajuda pode ser dada por qualquer pessoa disposta a pegar um pouquinho de areia em qualquer praia e enviar para a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Esse tipo de pesquisa que conta com uma mãozinha da sociedade é chamado ciência cidadã. É uma forma nova de fazer ciência pelas universidades, envolvendo o meio acadêmico com pesquisadores e a participação popular. Esses estudos têm como ator importante o cidadão voluntário que pode ajudar a fazer ciência em qualquer lugar do mundo gastando bem pouquinho. Já pensou como seria difícil uma pessoa ficar viajando pelo país para pegar um pouquinho de areia nesse mundão de praias que existem? Com a ciência cidadã todo mundo pode colaborar, fazendo sua parte na coleta de dados colaborativos sobre lixo marinho no mundo e ainda ser um cidadão cientista! 

A gente aqui do LEGECE (Laboratório de Ecologia e Gerenciamento de Ecossistemas Costeiros e Estuarinos) na UFPE criou o projeto “Poluição marinha, microplásticos e ciência cidadã” para fazer esse estudo de monitoramento de lixo marinho. Quer saber como colaborar? É bem fácil! Dá para curtir uma praia e ainda dar uma mãozinha pra gente! Basicamente a gente precisa que você pegue 3 amostras de areia que são raspadas de forma bem superficial numa área específica. Antes de pegar a areia precisamos que você posicione o celular na altura do quadril (foto 1) e depois na altura dos joelhos (foto 2) para fotografar a área onde vai pegar a areia. Depois é só guardar a areia e enviar pra gente junto com as fotos. 

Aqui tem algumas instruções: 

A areia deve ser coletada na linha do deixa (aquela marquinha na areia onde ficam acumulados folhas, conchas, algas, galhos e todo tipo de lixo, inclusive vários tipos de plásticos!). Depois é só marcar na areia com uma régua um quadrado (30 x 30 cm). Aí tira foto da área marcada nas duas alturas (quadril e joelhos) com o seu celular mesmo. O único cuidado é não fazer sombra dentro do quadrado na hora da foto. Ah, e não tem hora e nenhuma maré específica para coletar a areia. Recomendamos fazer isso pela manhã para sair uma foto com luz boa, sem sombra, já que durante a tarde uma luz forte ou baixa do sol não ajuda a tirar uma foto legal da areia. 


Em seguida, com ajuda de uma pá ou espátula, raspe a areia e guarde em saquinhos com fechamento do tipo “ziplocks”. Não indicamos usar colher porque cava a areia e acaba pegando mais do que precisamos. Queremos aquela parte bem superficial, bem pouquinha areia, raspada de forma bem leve. Tudo o que tiver dentro do quadrado tem que ser guardado dentro do saquinho (folha, canudinho, tampinhas, isopor etc). Se não tiver esses saquinhos pode usar de outro tipo (o que tiver em casa), também pode usar embalagem de marmita de alumínio que é bem levinha pra carregar. 


Você vai repetir isso em 3 áreas. A distância entre os 3 pontos é variável, depende do tipo de praia (se é uma praia larga ou uma praia estreita), pode ser de 10 a 15 passos. As 3 áreas de coleta (3 quadrados) são 3 amostras diferentes que devem ser guardadas em embalagens separadas e identificadas (amostra 1, amostra 2, amostra 3). Só mais uma coisinha: observe se nos dias anteriores à sua ida à praia teve alguma chuva forte, que causa ondas mais fortes podendo deixar mais resíduos na praia. É importante notar se é uma praia limpa, se está suja, se tem alguma fonte de lixo visível, bares e restaurantes (praia turística), esgoto (praia urbana), ou é uma praia mais deserta, com natureza preservada. Depois da ajuda, quando tiver com os saquinhos de areia, entre em contato com a gente para combinar como vamos pegar as amostras e as informações que precisamos. 

Vamos ajudar a ciência e a natureza? Se torne um colaborador voluntário! 

Contato:
microplasticscience@gmail.com
thaay.santos@gmail.com
mfc@ufpe.br 
https://www.facebook.com/thaiane.santos.23
https://www.facebook.com/LegeceOceanografiaUFPE/?pnref=lhc
https://microplasticscience.wixsite.com/citizensciencemps

Sobre a autora:

Oceanógrafa pela Universidade Federal do Pará, atuou no Laboratório de Biologia Pesqueira e Manejo dos Recursos Aquáticos e tem experiência em estudos com biomarcadores bioquímicos por atuar no Laboratório de Toxicologia fazendo pesquisa de poluição aquática e estresse oxidativo em vertebrados e invertebrados estuarinos da Amazônia.  Atualmente é mestranda na Universidade Federal de Pernambuco, faz parte do grupo LEGECE (Lab. de Ecologia e Gerenciamento de Ecossistemas Estuarinos e Costeiros) onde trabalha com monitoramento de microplásticos em praias desenvolvendo metodologia de citizen science. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

É possível distinguir diferentes baleias assim como nós sabemos reconhecer as pessoas?

Por Liliane Lodi

Foto-Identificação:  A identidade de cada animal
As baleias-de-bryde são identificadas com base no perfil de suas nadadeiras dorsais, através da presença de cortes e cicatrizes, utilizando uma técnica chamada de foto-identificação. Os cortes e cicatrizes da nadadeira dorsal têm características únicas. Nenhuma baleia é igual a outra. Estas marcas assemelham-se às nossas impressões digitais ou a um código de barras.

A baleia-de-bryde é regularmente avistada na região Sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo) em áreas próximas à costa em especial na primavera, verão e outono, pois não é uma espécie migratória como as outras baleias. Perfil característico de uma baleia-de-bryde na superfície.

Nos últimos 40 anos a técnica de foto-identificação tem sido utilizada para estudar inúmeras populações de golfinhos e baleias no mundo inteiro.
Trata-se de uma técnica não invasiva ou hostil, uma vez que o animal não precisa ser fisicamente capturado ou marcado. Basta obter boas fotos de sua nadadeira dorsal.

No Brasil existem registros confirmados desde o Rio Grande do Sul até a Bahia, e também nos estados da Paraíba e do Maranhão. A baleia-de-bryde ocorre tanto em áreas costeiras quanto em regiões oceânicas. A coloração cinza-escuro prateada uniforme no dorso e seu corpo esguio a torna uma das mais belas baleias.

Durante as interações inter e intraespecíficas dos indivíduos, ou ainda como resultado do impacto com certos elementos humanos (tais como redes de pesca e hélices de embarcações) e ambientais (interação com o fundo), a nadadeira dorsal pode sofrer alterações resultando em padrões reconhecíveis de cortes e cicatrizes permanentes ao longo do tempo.

Cortes e cicatrizes quando presentes na nadadeira dorsal nunca são iguais. É como se fosse uma impressão digital, o que permite o reconhecimento de animais diferentes.

A melhor fotografia de cada baleia (selecionada como aquela em que a nadadeira dorsal está mais em foco e perpendicular à câmara, em alta resolução) de uma dada ocasião é considerada como uma avistagem (captura).  À medida que este indivíduo identificado for observado em outras oportunidades trata-se de uma reavistagem (recaptura). Com este procedimento é possível construir um álbum ou um catálogo fotográfico.
Estudos de foto-identificação fornecem informações importantes que ampliam o conhecimento sobre as baleias que servem de base para a elaboração de estratégias de conservação. Além do trabalho desenvolvido por investigadores especializados, a participação pública pode adicionar informações importantes a este tipo de estudo. 

Baleia-de-bryde deslocando-se entre lixo sólido flutuante. As principais ameaças incluem as capturas acidentais em redes de pesca, degradação e perda do hábitat, poluição (doméstica, química e sonora), colisão com embarcações e molestamento intencional.


Como os pesquisadores não podem ter olhos em todos os lugares, foi criado em dezembro de 2017
o Programa de Pesquisa Participativa Brydes do Brasil, uma parceria entre o Projeto Baleias e Golfinhos do Rio de Janeiro e o WWF-Brasil. O programa é aberto não só para pesquisadores, mas também para ambientalistas, amantes da natureza, praticantes de esportes náuticos e quem mais quiser participar. É como se estivéssemos treinando novos olhos de pesquisadores em baleias!



Objetivos do Programa de Pesquisa Participativa Brydes do Brasil
  • Mobilizar e envolver a sociedade na pesquisa científica participativa,
  • Elaborar uma base de dados de baleias-de-bryde foto-identificadas em águas brasileiras, através de um acervo fotográfico concentrado,
  • Identificar, comparar e quantificar novas ocorrências das baleias-de-bryde identificadas em uma mesma área,
  • Determinar os deslocamentos da baleia-de-bryde na costa brasileira e áreas chave para à conservação da espécie,
  • Reunir registros para posterior análise objetivando entender se a(s) população(ções) está(ão) em decréscimo, mantida(s) ou aumentando, e
  • Conscientizar sobre a necessidade da conservação das baleias-de-bryde e do uso sustentável de nosso litoral como seu habitat

Como participar
Você não precisa ser um pesquisador para aprender como fotografar adequadamente uma baleia-de-bryde para propósitos de identificação individual em registros que possam ser de fato aproveitados em prol da conservação desses animais. Assim, se você deseja auxiliar na pesquisa sobre as baleias-de-bryde, torne-se um colaborador da rede!
Os resultados obtidos por esse banco de dados compartilhado pode fazer a diferença na conservação da espécie no Brasil!

Obtenção das fotos
As dicas para a obtenção de fotos de qualidade da nadadeira dorsal, de modo que possam permitir a identificação individual segura das baleias-de-bryde brasileiras, podem ser conferidas no web site.
As fotografias submetidas serão analisadas e as consideradas de boa qualidade serão integradas numa base de dados a partir da qual é construído o catálogo compartilhado. O autor das imagens mantém todos os direitos sobre as mesmas.
Quem tem olhos para ver e anda bem informado e equipado será sempre o fotógrafo mais premiado!
A Portaria do IBAMA n.º 117, de 26 de dezembro de 1996 define normas para evitar o molestamento intencional de cetáceos em águas jurisdicionais brasileiras. Sempre siga o protocolo de observação de baleias e não as perturbe para obtenção de fotografias.
Além dos detalhes e orientações para a identificação dessas gigantes, o web site também conta com espaços interativos para compartilhar fotografias, vídeos, artigos, textos de divulgação científica, notícias na mídia e outras informações relevantes sobre a espécie.

Navegue nesta onda: Conheça - Participe - Colabore - Divulgue!

Para saber mais:

- Programa de Pesquisa Participativa Brydes do Brasil
http://brydesdobrasil.com.br  (Formatos: celular, tablet e computador)

E-mail: contato@brydesdobrasil.com.br

- Facebook: Onde estão as Baleias e os Golfinhos? https://www.facebook.com/groups/baleiasgolfinhos.rj
- Instagram: @baleiasegolfinhosdorj
- Portaria do IBAMA n.º 117, de 26 de dezembro de 1996











Sobre Liliane Lodi:

Doutora em Biologia Marinha trabalha com ecologia de cetáceos, com ênfase em distribuição, uso do habitat, comportamento e conservação. É administradora do grupo do Facebook “Onde estão as Baleias e os Golfinhos?” e do Programa de Pesquisa Participativa Brydes do Brasil direcionados à área de Ciência Cidadã. É coordenadora do projeto de pesquisa Baleias & Golfinhos do Rio de Janeiro (Instituto Mar Adentro, WWF-Brasil e Fundação SOS Mata Atlântica).