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quinta-feira, 7 de março de 2019

Dia Internacional da Mulher 2019

Oito de Março, o Dia Internacional da Mulher, está chegando! E junto com ele, uma série de eventos imperdíveis.


Nós do Bate-papo com Netuno separamos alguns eventos em diversas partes do Brasil. E na sua cidade? Haverá algum evento? Compartilhe com a gente!

Angra dos Reis – RJ

Na Vila Histórica de Mambucaba será realizada o evento “Mar de rosas: as mulheres e os oceanos”, onde ocorrerá uma homenagem às mulheres que têm suas vidas ligadas ao mar (Dia: 09/03 às 13 horas – gratuito; informações (24) 988331608).

Florianópolis - SC

Pré 8M Na UFSC - roda de conversa: Mulheres na Pós - graduação: diversidade, resistência e luta (Informações: https://www.facebook.com/events/562590827563911/).

Rio de Janeiro – RJ

Mulheres do Amanhã: Uma semana de atividades no Museu do Amanhã, incluindo um dia só sobre Mulheres na Ciência. (Informações: https://museudoamanha.org.br/pt-br/semana-das-mulheres-do-museu-do-amanha-mulheres-do-amanha).

São Paulo - SP

Entre os dias 11 e 15 de março, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas realiza a Semana da Mulher IPT 2019: Construindo a Igualdade de Gênero. Além de apresentações de documentários e atrações artísticas e culturais, a programação reúne convidadas de diferentes campos do conhecimento, promovendo uma reflexão sobre a condição da mulher no mundo contemporâneo. O evento é gratuito e aberto ao público. 
Informações: http://uspmulheres.usp.br/semana-da-mulher-ipt-2019-construindo-igualdade-de-genero/


Greve Internacional de Mulheres
Mulheres do Brasil e do mundo participarão da Greve Internacional de Mulheres. A greve ocorrerá em 8 de Março. Nas ruas, as mulheres lutarão contra o machismo, a desigualdade de gênero, os feminicídios e os projetos que atacam seus direitos.

Aracaju (SE): https://bit.ly/2TnMevN
Belém (PA): https://bit.ly/2VIWXxE
Belo Horizonte (MG): https://bit.ly/2Inq1sB
Campinas (SP): https://bit.ly/2CpidAt
Caxias do Sul (RS): https://bit.ly/2HgNaL3
Curitiba (PR): https://bit.ly/2BNne63
Distrito Federal: https://bit.ly/2HkMUdR
Florianópolis (SC): https://bit.ly/2NNmliP
Itajaí (SC): https://bit.ly/2EG2E8B
Itapetininga (SP): https://bit.ly/2TkUPzm
Juiz de Fora (MG): https://bit.ly/2EC2Zci
Londrina (PR): https://bit.ly/2HdZUCi
Macapá (AP): https://bit.ly/2NxhO46
Manaus (AM): https://bit.ly/2XQ3dFE
Marabá (PA): https://bit.ly/2Tzhjf8
Natal (RN): https://bit.ly/2EJXska
Passo Fundo (RS): https://bit.ly/2TxjS1d
Petrópolis (RJ): https://bit.ly/2VLgCgn
Porto Alegre (RS): https://bit.ly/2tShL9I
Recife (PE): https://bit.ly/2SJP5d7
Ribeirão Preto (SP): https://bit.ly/2HhdcxP
Rio de Janeiro (RJ): https://bit.ly/2HiDLmf
Rio Grande (RS): https://bit.ly/2TyC4rb
Roraima (RO): https://bit.ly/2UnHtyL
Salvador (BA): https://bit.ly/2ERAGbh
Santa Maria (RS): https://bit.ly/2H61BlZ
São José dos Campos (SP): https://bit.ly/2ERGz8i
São Leopoldo (RS): https://bit.ly/2XJa3wk
São Paulo (SP): https://bit.ly/2C6UVjt
Uberlândia (MG): https://bit.ly/2H5gG7s
Vitória (ES): https://bit.ly/2EUq7nX

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Da praia ao laboratório: como me tornei uma cientista

Por Mônica Lopes-Ferreira*
Desde pequena sempre gostei do mar. Nos finais de semana, nas férias, nos feriados, lá estava eu curtindo uma praia. Tudo no litoral me encantava: a natureza, as paisagens, os animais.  Enquanto eu desfrutava das verdes águas mornas da cidade de Maceió, minha terra natal, simultaneamente prestava atenção em todo o ecossistema ao meu redor.

No início da juventude chegou o momento de escolher qual carreira seguir. Não tive dificuldade em entender que o estudo dos seres vivos fazia com que a minha mente e meu coração vibrassem. Decidi fazer Biologia, estudei bastante e ingressei na Universidade Federal de Alagoas.  

Sou muito curiosa e sempre gostei de aprender. Além da rotina das aulas na Universidade, eu participei de muitos cursos, seminários e palestras na área. Até que no ano de 1989, um encontro especial mudou o rumo da minha história. Ivan Mota - pesquisador do Instituto Butantan – ministraria em Alagoas um curso sobre Imunologia. Como estudante, me senti estimulada a saber mais sobre aquele centro de pesquisa que eu conhecia somente pelos livros de Ciências. Eu já sabia que os cientistas de lá estudavam animais peçonhentos e produziam soros para tratar os acidentes que os venenos provocavam. E a Imunologia?  Ela eu ainda não conhecia.

O curso era complexo, oferecia aulas o dia inteiro e tinha muitos alunos. Ali tive contato com muitas novidades e fiz grandes descobertas. O professor era um pesquisador competente, entusiasmado e apaixonado. Fiquei completamente atenta e deslumbrada com a Imunologia. Para a minha surpresa, ao final do curso ele anunciou que faria a seleção de cinco alunos para um estágio no Instituto Butantan. Passei na entrevista, fui escolhida e descobri que o professor – assim como eu - também gostava do mar.

Tive total apoio dos meus pais para realizar o estágio. Sentamos, conversamos e decidimos que eu iria para São Paulo. Eles tinham consciência de que seria uma grande oportunidade e que eu viveria momentos únicos. Quando cheguei na capital paulista, me surpreendi com o tamanho da cidade. Como ela era diferente de Maceió! Nunca vou esquecer do primeiro dia, do primeiro olhar, das fortes batidas no coração, ou seja, minha descoberta da cidade. Em contrapartida, o Butantan era um refúgio no meio de São Paulo. Muitas árvores, prédios antigos, museus, laboratórios, cobras, aranhas, escorpiões, entre outras espécies de animais peçonhentos.

Os pesquisadores me ensinaram muito.
As hipóteses, as perguntas, os experimentos, a vida dinâmica do laboratório e a Imunologia foram conduzindo a trajetória para que eu me tornasse uma cientista. Acabei ficando em São Paulo e terminei o curso de Biologia por aqui. Estudei muito e ingressei em uma pós-graduação na área de Imunologia. Meu objeto de estudo foi um animal peçonhento. Não era cobra, aranha, muito menos escorpião. Minhas origens litorâneas falaram mais alto e decidi estudar um peixe.

O animal escolhido para a minha pesquisa foi o Niquim, de nome científico Thalassophryne nattereri; peixe da região Nordeste que despertou a minha atenção durante um período de férias em Maceió. Um médico dermatologista me contou na ocasião relatos sobre os acidentes que o bicho causava em pescadores e banhistas.  Não havia tratamento e existiam poucos estudos sobre o veneno. Fiquei convencida da importância de estudar a espécie em questão, quando comecei a conversar com os pescadores locais. Eles me disseram: “Ele é um peixe pequeno, de movimentos discretos, não ataca ninguém, mas quando tem seu espaço invadido, solta um veneno capaz de aleijar ".

O aquário no laboratório cresceu e outros peixes peçonhentos chegaram:  bagres, arraias, peixe-escorpião e espécies que habitam as nossas águas e causam acidentes. Até que um peixe mais dócil apareceu no meio do caminho e os estudos foram ampliados.

Zebrafish
O Zebrafish - de nome científico Danio rerio - é conhecido popularmente como Paulistinha. Ele é utilizado como modelo experimental em muitos países para estudos comportamentais, genéticos, testes de toxicidade, entre outras áreas. Aprofundei meus conhecimentos sobre a espécie e iniciei os estudos com o peixe no Instituto Butantan.

As pesquisas avançaram e em 2015 foi inaugurada a Plataforma Zebrafish. Um local de criação e manejo do animal, que tem como objetivo fazer ciência e compartilhar informações. A partir da Plataforma surgiu a Rede Zebrafish. Um projeto que liga 80 pesquisadores de 40 instituições espalhadas pelo Brasil. O Paulistinha também é comunicação; um divulgador de ciência e contador de histórias. Com ele eu tenho ido além, chegado em diferentes lugares, conversado com crianças, jovens, adultos e idosos.

Mulher e cientista
Durante uma palestra que ministrei em um Colégio Estadual de Osasco, sobre o Zebrafish, os alunos não sabiam qual era o gênero do pesquisador que falaria para eles naquele dia. A maior parte dos estudantes esperava um homem velho, de jaleco e com cabelos brancos.  Fiz questão de levar comigo somente pesquisadoras mulheres; elas são maioria em nosso laboratório e devem servir de exemplo para as crianças. É preciso romper paradigmas para que as coisas mudem. Me sinto realizada pela oportunidade de trabalhar em prol do avanço da ciência.

Esta é a minha história como mulher e cientista. Estudei, ingressei na pós-graduação e, no ano de 2000, concluí o doutorado pelo Departamento de Imunologia da Universidade de São Paulo. Sou doutora, pós-doutora, pesquisadora do Instituto Butantan e atualmente diretora do Laboratório Especial de Toxicologia.

E por tudo isso posso dizer, Sou Feliz, Sou Cientista.



*Mônica é pesquisadora do Instituto Butantan e coordenadora da Plataforma Zebrafish.

As ilustrações deste post são de Veridiana Scarpelli.

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Mulheres cientistas, ousem andar unidas!

Por Catarina Marcolin

Sou cientista, professora, mãe, mulher parda (meu pai era italiano, minha mãe uma mistura de portugueses, índios e negros), minha pele é clara; não sou de família rica nem pobre e educação foi um dos nossos privilégios. Quando li o e-mail que me dizia que fui selecionada para o curso do British Council e do festival WOW - Women of the World (Mulheres do Mundo), tinha acabado de chegar em casa para substituir minha babá nos cuidados da minha filha, dei pulinhos e gritinhos de alegria. Minha menina riu comigo. Mesmo sem entender palavras, ela captou perfeitamente minha emoção.

Chegar no Rio de Janeiro e conhecer tantas mulheres incríveis nos primeiros dias de nossa capacitação em divulgação científica tem sido muito energizante. É tanta energia que tenho despertado bem mais cedo que meu alarme todas as manhãs, algo que nunca me havia acontecido antes, mas é o despertar da ignorância que mais me impressiona.


Primeiro dia do curso, o amor já estava ali.

Sempre me achei empoderada e autoconfiante, especialmente com minhas habilidades intelectuais. Mas quando nos contaram que as 15 cientistas/divulgadoras que vieram para o curso foram selecionadas entre 236 aplicações, tive mixed feelings. Ao mesmo tempo em que estava orgulhosa, buscava mentalmente por justificativas sobre o resultado: “Deve ter sido porque sou baiana, nessa busca por um recorte geográfico, minha concorrência deve ter sido menor...”. WOW! Notem que este não é um wow de surpresa, é um “p* que pariu”, pois outros exemplos continuaram pipocando em meus pensamentos sobre momentos da vida em que encontrei outras razões, que não o meu próprio mérito, para justificar minhas conquistas. A realidade sobre como a construção social molda nossas aspirações, nossas expectativas sobre a vida, bateu na minha cara. E era só o primeiro dia.

E mais e mais “fichas” vão caindo. A força e a luta das mulheres negras, representadas desde o “corpo tela” da Zaika Santos até a língua afiadíssima e os projetos de empoderamento de meninas da Zélia Ludwig, me inspirou admirações e reflexões profundas. Me dei conta de como em três anos trabalhando com divulgação científica e discutindo questões de gênero na oceanografia, o blog do qual faço parte nunca teve a contribuição de uma mulher preta. Em quatro anos de doutorado na área de oceanografia, me lembro de ter conhecido uma única mulher preta. Estou decidida a reencontrá-la, a encontrar essas mulheres, porque tenho certeza que elas existem.

Zélia Ludwig. Foto: Catarina Marcolin.

O aumento da representatividade da mulher, seja ela mulher preta, indígena e/ou deficiente (sim, eu também aprendi o que é interseccionalidade) é uma pauta urgente, pela qual me sinto agora compelida a contribuir. Inspirada pelas palavras da renomada Reni Eddo-Lodge, vou me educar. Tomo cada vez mais consciência sobre minha própria identidade, sobre o privilégio de não ser preta (afinal de contas, não sou discriminada pela cor da minha pele), e não consigo parar de pensar sobre o próximo passo. Sobre minha responsabilidade em combater não apenas o machismo, como a propagação do racismo. Afinal de contas, Jude Kelly nos lembra que a luta por igualdade de gênero e de raça não é uma luta por direitos iguais. É uma luta entre a estupidez e a sabedoria. E esse festival está me deixando menos estúpida.

Reconhecer que precisamos discutir as relações de poder em nossa sociedade, não apenas nos educa como valida nossos sentimentos, não é mimimi. Muito sabiamente a incrível Samia, cordelista de apenas oito anos nos alertou já na cerimônia de abertura: “com autoestima baixa, toda a vida perde a lógica”. Além de encher nossos corações de esperança, ela nos mostrou que essa nova geração é poderosa. Mas não podemos deixar para as novas gerações o que podemos fazer agora. Afinal de contas, são “as ações de hoje que produzem nosso amanhã”, como nos lembra a todo momento esse lindo Museu que nos acolheu todos esses dias.

Um dos nossos grandes desafios será deixar de falar apenas para os “convertidos”, quebrando os filtros bolha Facebookianos e partir para ação. Pois aprendi que o ativismo online não será suficiente para mudar nossa realidade. Seguindo a técnica da nossa querida Timandra, espero conseguir “roubar” a habilidade de escuta da nossa colega jornalista, a Renata Fontanetto (@renata_fontanetto). Pois é apenas pela escuta, com um olhar empático que conseguiremos dialogar. Se isso fizer ferver nossas entranhas ou pulsar nossa jugular, não se preocupe querida @moleculoide, Jude e Reni nos dão dicas sobre como dialogar sem perder o controle, sem que isso nos cause úlceras ou nos deixe exaustas.

Eu já sabia admirar mulheres incríveis, mas minha curiosidade agora permeia outras nuances. Nunca mais deixarei de me perguntar como uma mulher conseguiu mudar também a realidade de outras mulheres. Nunca mais deixarei de me perguntar sobre como eu posso mudar a realidade de outras mulheres.


Mariéme Jamme e Joana D'Arc Souza, só inspiração! Foto: Catarina Marcolin.

Não tenho dúvidas de que a maior conquista deste festival foi permitir que capturássemos umas as outras e espero profundamente que essa rede tenha nós bem unidos e que não nos deixemos escapar. Que sigamos trabalhando juntas para que outras mulheres sintam que podem ser mais do que apenas esforçadas, nós somos geniais, nós somos brilhantes, a gente é f*!

Para saber mais sobre mulheres incríveis, continue acompanhando nosso blog.

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Mulheres em eventos científicos: por que estamos falando sobre isso?

Por: Juliana Leonel



Ilustração: Caia Colla

  O Gordon Research Conference (GRC) é um grupo de aproximadamente 200 conferências de alto prestígio internacional coordenado por uma organização sem fins lucrativos com o mesmo nome. Os tópicos das conferências cobrem as mais diversas áreas da ciência. Durante esse eventos pesquisadores de várias partes do mundo se reúnem para discutir os assuntos mais recentes e as últimas descobertas científicas de um determinado campo científico. No final de julho ocorreu o GCR de Geoquímica Orgânica na cidade de Holderness nos EUA. 

   O GRC - Geoquímica Orgânica ocorre a cada 2 anos e é a terceira vez que tive a oportunidade de participar deste evento, o que me deixou muito feliz. Mas o que esse ano teve de tão especial comparado aos anos anteriores? Foi o evento que mais houve participação de representantes das universidades brasileiras. E mais que isso, todas mulheres! Foram seis oceanógrafas brasileiras de quatro instituições diferentes (UFSC, UFBA, UFPR e PUC-RJ) de três regiões distintas do Brasil. E isso não foi notado só por mim ou minhas colegas, foi notado por várias pessoas que vieram salientar como a participação brasileira estava aumentando e, alguns destacaram também o fato de serem todas mulheres. Algumas pessoas chegaram até a comentar que o Brasil devia ser um país onde há grande incentivo para mulheres seguirem a carreira científica... infelizmente, essa parte tivemos que explicar que não era bem assim. 


Imagem: Arquivo pessoal


  Entre as muitas atividades que compõem o evento houve um momento para pensarmos e discutirmos sobre a diversidade de gênero no evento e na geoquímica orgânica, e como poderíamos aumentar a igualdade de participação. Nesse momento foi possível perceber que embora as oportunidades e incentivos para pesquisa sejam maiores em países da América do Norte e da Europa do que no nosso país, no quesito incentivo e participação da mulher na ciência não somos muito diferentes. Na conferência mesmo, havia um número maior de homens participantes e, principalmente de palestrantes. E, da mesma forma como ocorre no Brasil, há mulheres e homens que negam que haja qualquer tipo de desequilíbrio nas participações. 


Imagem: Arquivo pessoal


   Ao mesmo tempo que essas informações entristecem, é bom saber que há muitas pessoas conscientes do problema, dispostos a discutir e tomar atitudes para tentar mudar essa realidade. Mas como podemos mudar isso? Como podemos incentivar mais mulheres a participarem da ciência (principalmente de áreas como ciências da terra e ciências exatas)? Como aumentar a participação de mulheres em conferências, tanto como participantes ou palestrantes? Como aumentar o número de mulheres nos programas de pós-graduação, departamentos, institutos?


   O primeira passo talvez seja mostrar que mulheres também podem fazer pesquisa. Pode parecer bobagem, mas muita gente acha que isso é coisa só de homem. Depois precisamos incentivá-las! E esse incentivo deve ser feito em todas as faixas etárias, começando quando elas são novas e ainda estão a procura de exemplos, como é o caso da iniciativa #meninascomcienciausp (https://www.meninascomcienciausp.com.br/). Mas deve continuar também quando elas estão na graduação, na pós-graduação ou até mesmo já inseridas no mercado de trabalho. Afinal, sempre surgem dúvidas e, em um ambiente que exalta homens e deixa as mulheres de lado, não é difícil surgirem questionamentos (haja autoestima e perseverança!). Um outro ponto importante, é dar visibilidade para essas mulheres, a regra quem não é vista não é lembrada se aplica aqui. Pesquisas mostram que homens têm maior facilidade em se auto indicar e/ou indicar os colegas para cargos, prêmios etc. E se nós fizermos o mesmo? Como fazer isso? Comece conhecendo as mulheres da sua universidade, instituto, departamento… quem são? O que fazem? Onde vivem? Do que se alimentam? Converse com elas, dividam histórias, dúvidas, alegrias e aflições de serem pesquisadorAs. Depois de conhecê-las será fácil de lembrá-las na hora de escolher/indicar uma representante, uma palestrante, um exemplo, etc. 

  Além disso, que tal começar a pedir que as comissões organizadoras dos eventos se preocupem em incentivar, aumentar e facilitar a participação feminina? Por exemplo, as comissões devem 1) refletir a diversidade que se espera em um evento científico (uma comissão formada por homens brancos de meia idade não vai saber quais são as necessidades do restante das pessoas); 2) determinar que haverá igualdade de gênero no número de palestrantes; 2) inserir em seus códigos de conduta ações para que as mulheres se sintam confortáveis e não sejam desrespeitadas durante a conferência (a propósito, as conferências que você participa tem código de conduta?); 3) orientar os revisores dos trabalhos submetidos a terem consciência das suas tendências (olha que legal esse código que foi passado para os revisores do SciPy2018: https://scipy2018.scipy.org/ehome/299527/648151/); 4) oferecer espaços de cuidado/recreação para as pessoas que levarem suas crianças; 5) oferecer um espaço adequado (atenção aqui, espaço adequado e não simplesmente um espaço!) para mães que precisam amamentar ou retirar leite (está em dúvida sobre o que é um espaço adequado, consulte as usuárias: https://blogs.scientificamerican.com/voices/the-special-challenges-of-being-both-a-scientist-and-a-mom/, há até mesmo um artigo discutindo isso: http://www.pnas.org/content/early/2018/03/01/1803153115?platform=hootsuite )

   A participação de mulheres em eventos internacionais é super importante para o estabelecimento de parcerias e estudos de maior importância. Para fazer ciência de ponta, precisamos de interação internacional. E as possibilidade de interação aumentam enormemente se você estiver nesses eventos, bem como se você der uma palestra para outras pessoas do seu campo de atuação. Por isso mulheres, não esqueçam da sororidade (= união e aliança entre mulheres, baseada na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum)! Com ela somos mais fortes e vamos mais longe!


quinta-feira, 3 de maio de 2018

Nunca é tarde para florescer!



Ilustração: Caia Colla 

Nasci em novembro de 1940, primeira metade do século 20, filha de imigrantes portugueses que vieram para a zona rural e depois migraram para São Paulo em busca de emprego.
São Paulo estava no auge da industrialização, principalmente no que diz respeito à indústria têxtil. As famílias portuguesas eram extremamente patriarcais e, em sua maioria, de baixa renda, vivendo em casas onde abrigavam vários membros de uma mesma família. Na grande maioria dessas famílias, os filhos, quando muito, faziam curso primário e depois iam para o mercado de trabalho. Não foi diferente comigo, pois estudar, segundo o conceito geral, era só para ricos, para o meu desespero, já que sonhava com coisas grandes. Porém, minha trajetória mudou quando conheci pessoas que me ajudaram e consegui entrar no curso ginasial já com 17 anos e em seguida fui para o científico. Toda essa trajetória teve  muitos problemas por conta da grande resistência familiar. Uma formação muito rara para a época. As mulheres bem nascidas faziam escola normal e iam ser professoras primárias, as mau nascidas na maioria dos casos não terminavam o primário.
Com 19 anos comecei a trabalhar como funcionária na Faculdade de Saúde Pública da USP. Depois de fazer um estágio de mais ou menos um ano, consegui ser contratada ocupando o cargo de técnico de laboratório, colaborando com as aulas práticas de bacteriologia e auxílio à pesquisa (1960 a 1968 ).
Com 26 anos me casei. Era a rotina de todas as mulheres da época e também, é lógico, era comum se casar com maridos autoritários e repressores. Eu, como toda mulher da época, fazia o que o marido mandasse, e deixei meu trabalho para ser dona de casa por 20 anos. Tive três filhos que me ensinaram muita coisa e me deram mais força ainda para reverter essa história que não aceitava desde criança. Queria mudança.
Levei essa vida como pude, mas sempre com a ideia de algum dia dar uma girada de 360°.
Entre 1980 e 1985 morei no Estado de Goiás, passando por três cidades Niquelândia, Uruaçu e Goiânia. No início de 1986 voltei para São Paulo determinada a voltar ao mercado de trabalho, e entrei em contato com pessoas que foram meus contemporâneos na Saúde Pública. Em setembro de 1987, então com 47 anos, eu estava de volta, praticamente, ao meu primeiro emprego em um outro tempo e espaço físico diferente. Até o nome havia mudado, e a instituição agora se chamava Instituto de Ciências Biomédicas da USP (São Paulo), fazendo basicamente o que fazia em 1960, me envolvendo com a didática e pesquisa e sempre muito feliz com meu trabalho. Ufa! estava mudando minha história.
Bem, no segundo semestre de 1989 eu arrisquei e prestei vestibular no Mackenzie, em busca do meu segundo sonho: ser química ou matemática. Bem, como a química tinha mais a ver com o que eu fazia, foi nela que foquei. E consegui! Meu nome saiu na terceira lista, foi inacreditável! Comemorei com muito vinho!
Aos 49 anos, segunda metade do século 20, estava eu na sala de aula de uma universidade e levei bem, fui até o fim, trabalhando durante o dia e estudando à noite (anos dourados), me senti como se tivesse a mesma idade da galera e o interessante é que eles me tratavam assim.
Meu outro desafio, mas esse nunca foi meu sonho, foi o mestrado. Fui praticamente empurrada para ele pela Profa. Vivian  Pellizari, agora docente do Instituto Oceanográfico da USP, com quem trabalho até o momento.
Meu mestrado foi no programa de Biotecnologia Interunidades e o tema foi com saneamento básico estudando a presença de Oocistos (uma fase intermediária no ciclo de vida de protozoários) de Criptosporidim em mananciais e água tratada.
Tudo parecia já realizado quando o inesperado aconteceu: “ANTÁRTICA”!!!!!
Em 1998/99 recebi o maior prêmio da minha vida, fui para Antártica, com o projeto de pesquisa coordenado pela Profa. Rosalinda Montone (IOUSP) do qual também fazia parte a profa. Vivian Pellizari, então docente no ICB-USP. E veja bem, fui porque na última hora a pessoa indicada não pôde ir.  Permaneci na estação durante 3 meses. Fiz coleta de solo e água e processamento das amostra como parte do monitoramento da Baía do Almirantado, local onde fica a Estação Científica Brasileira Comandante Ferraz. Como se uma vez não fosse um sonho, ainda fui mais duas vezes: em 2000/2001, durante dois meses e em 2004 durante um mês.
Com 77 anos estou no IOUSP há sete e me sinto com 30 anos no meio de toda essa energia da juventude! Faço tudo que posso para ver essa gente crescer, acreditar na vida e acreditar que tem muito mais além do que podemos enxergar, pois podemos sentir também.  Concluindo, o que mais eu poderia querer?!
Obrigada às pessoas que fizeram parte da minha história de vida, que muito me enriqueceram a ponto de conseguir escrever esse texto.


Rosa com a profa. Vivian e os alunos do LECOM IO-USP.


 
Rosa com a profa. Vivian Pellizari e alunas do 
LECOM IO-USP no dia da Mulher em 2017.




Hoje em dia a Rosa, ou Rosinha como é carinhosamente chamada, está aposentada pelo ICB, depto de Microbiologia, mas trabalha no Laboratório de Ecologia Microbiana (LECOM) do IOUSP desde 2011, a convite da Profa. Vivian Pellizari, com quem trabalha há 30 anos. Além de ser responsável pela administração e logística do LECOM e realização de aulas práticas, salva e inspira a vida de todos os alunos com sua força, dedicação e amor.


Curriculum Lattes



quinta-feira, 8 de março de 2018

Marisqueiras

Por Gabrielle Souza 



Ilustração: Joana Ho



   Na construção histórica social, as profissões sempre foram divididas entre os sexos feminino e masculino, ou seja, determinadas atividades eram vistas como apropriadas para homens, enquanto outras que não exigiam muito esforço físico, geralmente na área do cuidado (dona de casa, professora, enfermeira, etc) para mulheres. Assim muitas de nós sempre fomos desencorajadas a realizar determinadas funções, pois reza a lenda que somos biologicamente “mais frágeis e menos inteligentes”.

    A partir daí já dá para ver que toda essa questão não passa de uma desculpa do patriarcado né?!

     Mas você deve estar se perguntando aonde eu quero chegar com isso. Bom, o que eu quero dizer é que, a cada dia que passa, estas relações de profissões direcionadas para determinados indivíduos estão caindo por terra e que, nós mulheres, estamos mostrando que podemos estar sim, em funções e cargos reconhecidos como “masculinizados”.

   Um grande exemplo disso são as mulheres marisqueiras. Elas estão espalhadas por todo o litoral do Brasil e realizam uma atividade chamada de mariscagem. A mariscagem consiste no processo de captura contínua de mariscos de forma artesanal, seja em regime de economia familiar ou autônoma, para seu próprio sustento ou comercialização. 

    Os mariscos retirados nessa atividade geralmente são capturados em bancos de lama ou areia, que localizam-se nos mangues ou próximo a eles. A captura se dá de diversas formas, porém a mais comum é a catação manual, onde as mulheres raspam a areia com o auxílio de uma colher até encontrar o marisco.



   Esta atividade inicialmente era realizada por homens, pescadores, que diante da sociedade seriam os mais aptos para o processo, pois são fortes e aguentam idas aos mares e mangues para obter o sustento da família. Enquanto o tratamento da captura sempre foi feito pelas mulheres, ou seja, são elas que limpam os peixes e mariscos que seus maridos, irmãos, tios, pais trazem do mar. 


     Mais recentemente, as mulheres começaram a assumir também o papel de extração dos mariscos. Porém, esta atividade é simplesmente invisível, apesar de extremamente importante, social e economicamente falando. A partir disso, só podemos concluir que, pelo simples fato de serem mulheres, não existe reconhecimento de seus direitos diante da profissão que exercem, seja por seus companheiros e familiares, como também pelo Estado, por meio do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), que garante a aposentadoria e outro direitos. A falta destes direitos trabalhistas faz com que estas mulheres trabalhem em condições inadequadas, em geral com carga horária exacerbada da jornada de trabalho.

     Existem estudos que realizam um perfil social dessas mulheres, criando um panorama de aspectos socioeconômicos e de como elas se sentem sobre as situações que enfrentam. Um desses trabalhos foi realizado na Comunidade de Barra Grande, município de Cajueiro da Praia - Piauí, com uma faixa de 4 km de praia, que por decreto federal é uma Unidade Conservação, e está na categoria de uso sustentável. A grande parte das marisqueiras está na faixa etária entre 30 e 60 anos, sendo a média de idade de 42 anos. A falta de escolaridade é alta, as mulheres que cursaram o ensino fundamental incompleto correspondem a 34,92%, e quando somadas as não escolarizadas (17,46%) elevam ainda mais o percentual. A situação conjugal é predominantemente de mulheres casadas (44,44%), seguidas das que moram junto (28,57%), e a média de filhos é de quatro,havendo uma variação de zero a doze filhos. 


    Muitas dessas mulheres realizam outras atividades para auxiliar na renda mensal da família, como por exemplo: lavadeiras, rendistas, cozinheiras etc. Além de contarem suas histórias de vida, opinam sobre os problemas que enfrentam. Estes estão relacionados principalmente às condições de trabalho, e às questões burocráticas, solicitando a criação de um associação própria de mulheres marisqueiras, pois elas se sentem excluídas das colônias de pescadores que já existem no território.

   Além disso, as marisqueiras travam uma luta diária contra o machismo. Mas quem disse que elas desistem?! Um exemplo prático dessa luta, além da persistência em trabalhar mesmo diante de tantas dificuldades, é o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 47/2017. Este projeto define a profissão de marisqueira e suas competências além das responsabilidade que o poder público tem nas ações desenvolvidas pelas trabalhadoras, assegurando seus direitos e deveres. 

    As mulheres vêm conquistando o seu lugar na sociedade e dentro das organizações de trabalho, lugar que é seu por direito. Mas ainda reconhecemos que há muito a ser feito para que conquistemos uma forma igualitária de tratamento entre homens e mulheres. Valorizar o trabalho das mulheres marisqueiras é também valorizar a preservação da natureza, é reconhecer de forma justa um trabalho que é realizado com carinho, amor e dedicação.



Vídeos recomendados:
https://vimeo.com/96543725

https://projetosereias.com/videos/


Para saber mais:
https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/07/31/politica-de-apoio-a-atividade-de-mulheres-marisqueiras-sera-analisada-na-cdh




Referências Bibliográficas


FREITAS, Simone Tupinambá et al. Conhecimento tradicional das marisqueiras de Barra Grande, área de proteção ambiental do delta do Rio Parnaíba, Piauí, Brasil. Ambiente & Sociedade, [s.l.], v. 15, n. 2, p.91-112, ago. 2012. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s1414-753x2012000200006. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-753X2012000200006>. Acesso em: 01 mar. 2018

 Diário do Nordeste. Marisqueiras reivindicam seus direitos. 2003. Disponível em: <http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/regional/marisqueiras-reivindicam-seus-direitos-1.370455>. Acesso em: 01 mar. 2018.

Senado Notícias. Política de apoio à atividade de mulheres marisqueiras será analisada na CDH. 2017. Disponível em: <https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2017/07/31/politica-de-apoio-a-atividade-de-mulheres-marisqueiras-sera-analisada-na-cdh>. Acesso em: 01 mar. 2018.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Um documentário sobre salmões e mulheres cientistas

Por Jana M. del Favero





   Em um dos meus primeiros posts aqui no blog, escrevi sobre o documentário “Mission Blue”, que conta a história da incrível bióloga marinha Sylvia Early, e suas ações pró oceano (releia aqui).

   Recentemente assisti outro documentário que me tirou o fôlego e resolvi compartilhar com vocês, pois ele abrange todas as sessões desse blog: “ciências do mar”, “vida de cientista” e “mulheres nas ciências”.

   O documentário “Salmon Confidential” (Salmão Confidencial) relata a luta da bióloga Alexandra Morton para salvar os salmões selvagens da Colúmbia Britânica, Canadá. A bióloga mudou para a região para estudar as orcas, mas após relatos do aumento da mortalidade de salmões selvagens, decidiu investigar o que estaria causando essas mortes. Analisando os salmões selvagens encontrados mortos, ela encontra uma doença originária da Noruega e que já devastou fazendas de salmão em outros países, como o Chile. Como a região onde os salmões selvagens estavam morrendo possui diversas fazendas de criação do peixe, a pesquisadora tenta dialogar com os fazendeiros e pedir salmões para estudar... A partir daí começa uma batalha: os fazendeiros não liberam espécimes para estudo e lançam relatórios alegando que eles mesmos analisaram e que os salmões de cultivo da região estavam saudáveis. Mas a pesquisadora não desiste, analisa os salmões cultivados na região encontrados em supermercados e passa a observar, mesmo de longe, as fazendas dos peixes. O caso vai parar na justiça e a batalha continua, envolvendo os pesquisadores e os pescadores de salmão selvagens (prejudicados com a alta mortalidade) contra os fazendeiros e o governo (que fica do lado de quem lhe dá maior retorno financeiro!).

   E é exatamente por isso que esse documentário é de tirar o fôlego, ele aborda diversas questões polêmicas: cultivo versus pesca; o preconceito que a bióloga Alexandra Morton sofre por ser mulher em um ambiente dominado por homens, os entraves burocráticos, a dificuldade de fazer uma pesquisa sem apoio e o fato do governo escutar e apoiar o lado que lhe dá maior retorno financeiro sem analisar os fatos!

Fazenda de salmão na Colúmbia Britânica, Canadá (Fonte: http://www.salmonconfidential.ca)


A bióloga Alexandra Morton (Fonte: http://www.salmonconfidential.ca)



   Portanto, estoure sua pipoca, assista esse documentário que está disponível online e deixe sua opinião nos comentários. Adoraria escutar vocês!


   Para assistir o documentário (infelizmente só consegui em inglês e sem legenda): http://www.salmonconfidential.ca


   Para acompanhar as notícias via Facebook: https://www.facebook.com/SalmonConfidential/


   Para saber mais sobre Alexandra Morton e sua luta: