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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Mulheres cientistas, ousem andar unidas!

Por Catarina Marcolin

Sou cientista, professora, mãe, mulher parda (meu pai era italiano, minha mãe uma mistura de portugueses, índios e negros), minha pele é clara; não sou de família rica nem pobre e educação foi um dos nossos privilégios. Quando li o e-mail que me dizia que fui selecionada para o curso do British Council e do festival WOW - Women of the World (Mulheres do Mundo), tinha acabado de chegar em casa para substituir minha babá nos cuidados da minha filha, dei pulinhos e gritinhos de alegria. Minha menina riu comigo. Mesmo sem entender palavras, ela captou perfeitamente minha emoção.

Chegar no Rio de Janeiro e conhecer tantas mulheres incríveis nos primeiros dias de nossa capacitação em divulgação científica tem sido muito energizante. É tanta energia que tenho despertado bem mais cedo que meu alarme todas as manhãs, algo que nunca me havia acontecido antes, mas é o despertar da ignorância que mais me impressiona.


Primeiro dia do curso, o amor já estava ali.

Sempre me achei empoderada e autoconfiante, especialmente com minhas habilidades intelectuais. Mas quando nos contaram que as 15 cientistas/divulgadoras que vieram para o curso foram selecionadas entre 236 aplicações, tive mixed feelings. Ao mesmo tempo em que estava orgulhosa, buscava mentalmente por justificativas sobre o resultado: “Deve ter sido porque sou baiana, nessa busca por um recorte geográfico, minha concorrência deve ter sido menor...”. WOW! Notem que este não é um wow de surpresa, é um “p* que pariu”, pois outros exemplos continuaram pipocando em meus pensamentos sobre momentos da vida em que encontrei outras razões, que não o meu próprio mérito, para justificar minhas conquistas. A realidade sobre como a construção social molda nossas aspirações, nossas expectativas sobre a vida, bateu na minha cara. E era só o primeiro dia.

E mais e mais “fichas” vão caindo. A força e a luta das mulheres negras, representadas desde o “corpo tela” da Zaika Santos até a língua afiadíssima e os projetos de empoderamento de meninas da Zélia Ludwig, me inspirou admirações e reflexões profundas. Me dei conta de como em três anos trabalhando com divulgação científica e discutindo questões de gênero na oceanografia, o blog do qual faço parte nunca teve a contribuição de uma mulher preta. Em quatro anos de doutorado na área de oceanografia, me lembro de ter conhecido uma única mulher preta. Estou decidida a reencontrá-la, a encontrar essas mulheres, porque tenho certeza que elas existem.

Zélia Ludwig. Foto: Catarina Marcolin.

O aumento da representatividade da mulher, seja ela mulher preta, indígena e/ou deficiente (sim, eu também aprendi o que é interseccionalidade) é uma pauta urgente, pela qual me sinto agora compelida a contribuir. Inspirada pelas palavras da renomada Reni Eddo-Lodge, vou me educar. Tomo cada vez mais consciência sobre minha própria identidade, sobre o privilégio de não ser preta (afinal de contas, não sou discriminada pela cor da minha pele), e não consigo parar de pensar sobre o próximo passo. Sobre minha responsabilidade em combater não apenas o machismo, como a propagação do racismo. Afinal de contas, Jude Kelly nos lembra que a luta por igualdade de gênero e de raça não é uma luta por direitos iguais. É uma luta entre a estupidez e a sabedoria. E esse festival está me deixando menos estúpida.

Reconhecer que precisamos discutir as relações de poder em nossa sociedade, não apenas nos educa como valida nossos sentimentos, não é mimimi. Muito sabiamente a incrível Samia, cordelista de apenas oito anos nos alertou já na cerimônia de abertura: “com autoestima baixa, toda a vida perde a lógica”. Além de encher nossos corações de esperança, ela nos mostrou que essa nova geração é poderosa. Mas não podemos deixar para as novas gerações o que podemos fazer agora. Afinal de contas, são “as ações de hoje que produzem nosso amanhã”, como nos lembra a todo momento esse lindo Museu que nos acolheu todos esses dias.

Um dos nossos grandes desafios será deixar de falar apenas para os “convertidos”, quebrando os filtros bolha Facebookianos e partir para ação. Pois aprendi que o ativismo online não será suficiente para mudar nossa realidade. Seguindo a técnica da nossa querida Timandra, espero conseguir “roubar” a habilidade de escuta da nossa colega jornalista, a Renata Fontanetto (@renata_fontanetto). Pois é apenas pela escuta, com um olhar empático que conseguiremos dialogar. Se isso fizer ferver nossas entranhas ou pulsar nossa jugular, não se preocupe querida @moleculoide, Jude e Reni nos dão dicas sobre como dialogar sem perder o controle, sem que isso nos cause úlceras ou nos deixe exaustas.

Eu já sabia admirar mulheres incríveis, mas minha curiosidade agora permeia outras nuances. Nunca mais deixarei de me perguntar como uma mulher conseguiu mudar também a realidade de outras mulheres. Nunca mais deixarei de me perguntar sobre como eu posso mudar a realidade de outras mulheres.


Mariéme Jamme e Joana D'Arc Souza, só inspiração! Foto: Catarina Marcolin.

Não tenho dúvidas de que a maior conquista deste festival foi permitir que capturássemos umas as outras e espero profundamente que essa rede tenha nós bem unidos e que não nos deixemos escapar. Que sigamos trabalhando juntas para que outras mulheres sintam que podem ser mais do que apenas esforçadas, nós somos geniais, nós somos brilhantes, a gente é f*!

Para saber mais sobre mulheres incríveis, continue acompanhando nosso blog.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Um caso de poliamor entre uma cientista, a fotografia e a ciência

Por Catarina R. Marcolin

Gamarídeo coletado no estuário do Rio Buranhém, Porto Seguro. Foto: Catarina Marcolin.

Dizem que uma imagem pode valer mais que mil palavras. Esse ditado popular ganha sentido especial para mim quando converso sobre plâncton. Estes microorganismos tão pequenininhos tem na verdade grande importância. Informações sobre a quantidade e o tamanho desses organismos que vivem nos oceanos nos ajudam a entender sobre muitas coisas, até mesmo, sobre a regulação do clima no planeta


Mas contar e medir esses bichinhos da forma tradicional demoooora e pode ser muito entediante. Para resolver esse problema, os cientistas pensaram numa solução bem simples usando uma tecnologia inventada há bastante tempo atrás, a fotografia. As lentes e o sistema óptico continuam os mesmos, o que mudou foi a forma de processar essas imagens. Usando um software de análise de imagens é possível fazer automaticamente a contagem e a medição do tamanho desses bichinhos, o que nos deixa com tempo de sobra para ir a praia, navegar na internet ou até escrever esse texto. 

Mas analisar uma quantidade enorme de informação, linhas e mais linhas de dados também pode tomar bastante tempo. E foi assim que eu uni duas paixões, o plâncton e a computação agora andam de mãos dadas na minha vida. Aprender a programar foi como descobrir o fascínio pelos videogames. Amor pela ciência, a gente vê por aqui.










Esse texto é a primeira produção do Curso de Capacitação em divulgação científica, promovido pelo British Council e Museu do Amanhã no Rio De Janeiro. A tarefa do dia era falar sobre meu trabalho utilizando um objeto e eu trouxe minha câmera fotográfica:



Posts relacionados:

https://batepapocomnetuno.blogspot.com/2015/05/o-que-voce-sabe-sobre-o-plancton.html

https://batepapocomnetuno.blogspot.com/2015/10/a-fertilizacao-dos-oceanos-e-as.html

http://batepapocomnetuno.blogspot.com/2015/04/para-o-plancton-tamanho-e-documento.html

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quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Publicar ou morrer ou publicar sem sofrer? Eis a questão!

By Catarina Marcolin

Conversando com uma colega que estava há uma semana de defender o mestrado, eis que ela me diz “Nossa, não vejo a hora de entregar esse mestrado e começar a produzir alguma coisa, sinto que não tô produzindo nada!”. Ao mesmo tempo em que pensei “Como assim?”, eu também entendi perfeitamente o que ela estava sentindo. 


Ilustração: Caia Colla.

Na carreira acadêmica a gente aprende que produzir = publicar. Portanto, enquanto não sai a publicação do paper numa revista legal, a gente trabalha insanamente, mas não parece que aquele trabalho é útil. Então nosso corpo não processa a recompensa pelo nosso trabalho. E isso é um grande desestimulador para os pesquisadores. 

Todos nós precisamos de motivação para viver. E no trabalho isso não é diferente. O que nos faz levantar todos os dias, tomar banho, trocar de roupa, enfrentar o trânsito e se dirigir ao trabalho, em um laboratório ou em uma Universidade, é o amor à ciência. E para provar nosso amor à ciência, o que fazemos? A gente pensa numa pergunta interessante, coleta dados, analisa esses dados, rebolamos na estatística e finalmente reportamos para a comunidade científica. Essa é a grande prova de que fizemos algo em nome desse amor, a nossa tão sonhada publicação.

Colocando dessa maneira, parece tudo muito simples. Um cientista deve ser uma pessoa muito realizada em sua profissão, certo? Mas não é tão simples assim. Em muitos casos, eu diria que na maioria das vezes, a conquista desse prêmio é bem tortuosa e exigente emocionalmente. 

O processo de revisão por pares é exaustivo, o nosso trabalho é constantemente criticado (nem sempre de forma muito elegante), versão após versão, até conquistarmos uma versão publicável, que não está nem perto da perfeição, mas é o melhor que se pode fazer dentro de determinado contexto. Isso quando não somos rejeitados logo de cara porque nosso artigo não se encaixa no escopo da revista, ou não atende ao amplo público leitor daquela revista. E todo esse processo pode demorar muito mais do que um ano para se completar. Então imagine como você se sentiria se só conseguisse se sentir recompensado por determinada atividade um ano após o seu início? Ou ainda, que demore ainda mais tempo e que quando você pensa que finalmente estaria terminando uma etapa da sua vida, na verdade muitas outras estariam apenas começando... 

Está vendo onde quero chegar com esse falatório? Precisamos de mais “prêmios”! Não podemos depender apenas do sucesso na publicação para nos sentirmos úteis no mundo. Precisamos de prêmios a cada semana, ou até mesmo todos os dias. Cada conquista deve ser comemorada, para cada artigo que é lido e bem interpretado, comemore. Para cada parágrafo escrito, celebre. Para cada análise estatística conquistada, vibre! Cada pequeno passo deve ser visto como algo relevante, senão corremos o sério risco de travarmos e desistirmos no meio do caminho, ou pior, de ficarmos deprimidos pela ausência de senso de utilidade.

Além disso não podemos deixar de chamar atenção para o fato de que a maioria dos pesquisadores no Brasil são contratados como docentes em Universidades públicas. No exercício de nossos cargos, precisamos dar aulas, participar de reuniões e nos envolver em inúmeras atividades burocráticas e administrativas, além de desempenhar atividades de extensão, como a divulgação científica que fazemos aqui neste blog. Recentemente, uma publicação na Scientific American recomenda que os cientistas sejam premiados por atividades de divulgação científica também.

Motivação é o que conduz o ser humano. Portanto, não é para nos sentirmos seres felizes e encantados que precisamos nos sentir úteis. É para que a gente não esmoreça nesse longo e pedregoso caminho que é a publicação de um artigo, é para que o mundo possa ter acesso a toda a ciência produzida em um laboratório. Afinal de contas, quantos de nós conseguiu publicar tudo que foi produzido desde que começou a fazer ciência? Eu mesma, nunca consegui publicar a parte mais importante do meu mestrado porque travei psicologicamente e não consegui retomar depois de tê-lo submetido 7 vezes. Ainda não desisti... E você? Já passou por algo semelhante? Conta aí nos comentários!


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Será que existe luz no fundo do mar?



Por Catarina Marcolin

Já falamos aqui no blog que sabemos mais sobre o espaço sideral do que sobre os oceanos. Se quisermos saber mais sobre o fundo dos oceanos, o assunto fica ainda mais misterioso. No fundo dos oceanos, a luz do sol não consegue penetrar, então não temos fotossíntese, a base energética da maioria das cadeias alimentares. Apesar disso, existe bastante vida no oceano profundo, e acreditem, tem também muita luz. Isso mesmo, um estudo publicado este ano na Scientific Reports estimou que mais de 75% dos organismos marinhos que vivem até 4000 m de profundidade conseguem produzir luz, um fenômeno chamado de bioluminescência. 

Uma enorme variedade de animais como peixes, vermes, medusas, crustáceos, lulas e polvos conseguem emitir sua própria luz, o que pode promover um verdadeiro show de luzes no fundo do mar. A bioluminescência já é considerada uma característica ecológica (ecological trait), ou seja, é uma característica tão importante que a gente espera que animais que vivem nos oceanos a apresentem. Agora você deve estar se perguntando, por que será que é tão importante produzir luz? Bem, graças à ciência, podemos matar um pouco da nossa curiosidade sobre este ambiente tão pouco explorado. O que se sabe hoje é que organismos produzem sua própria luz para:

Se defender de predadores: 
1 - através de camuflagem (o animal consegue assumir cores semelhante ao seu ambiente para se esconder e escapar dos predadores);


Uma lula usando bioluminescência para se esconder no fundo do oceano. Fonte: http://ocean.si.edu/sites/default/files/styles/blog_header/

2 - e distraindo o predador (alguns animais conseguem expelir materiais luminescente criando um "sósia" para enganar seu predador enquanto escapam).


Esse camarão é capaz de produzir bioluminescência de duas formas: uma secreção azul que é expelida pela boca para enganar predadores, bem como outros órgão são capazes de emitir luz como os membros, abdômen e olhos. 














Reprodução 
Fonte: http://3.bp.blogspot.com/-YW-tRi-N0lo
/TkvNcO5dRnI/AAAAAAAAASw/
kefmrFOoWyQ/s320/glow.jpg
Encontrar um parceiro no escuro não deve ser nada fácil. Algumas espécies emitem flashes de luz para atrair potenciais parceiros sexuais ou ainda, como essa glow worm, cuja fêmea emite uma luz constante que se apaga, uma vez que tenha acasalado.



 Fonte: http://www.waterwereld.nu/tomopteris.php


Tomopteris helgolandica é um verme do mar, uma das raríssimas espécies de animais capazes de produzir luz amarela. A bioluminescência neste caso é emitidas no final dos parapódios (essas estruturas que se assemelham a perninhas), quando o animal é perturbado. Acredita-se que serve para distrair predadores.


Conseguir comida
Fonte: http://extrememarine.org.uk/
old/2011/10/karensblog/files/2011/11/
deepseaanglerfish2.jpg
Alguns peixes podem ser atraídos por pequenos pontos de luz emitidos pelo predador, que os captura quando se aproximam. Ao lado, temos Angler fish ou peixe pescador.







Os organismos podem produzir luz de duas formas diferentes: pela mistura entre dois compostos químicos (uma luciferina, que produz luz de fato, e uma luciferase, enzima que catalisa a reação) causando uma reação que produz luz, ou por meio da associação com diminutos microorganismos (como bactérias) que produzem luz pelo mesmo método. 


Fonte: https://78.media.tumblr.com/
095967d790578ea9038269ad19f123c2/
tumblr_ol7ehnWiut1v1xvwho1_500.jpg
Fonte: http://www.nhm.ac.uk/resources/
visit/wpy/2014/large/48.jpg
Juvenis de polvo (esquerda) e lula (direita) nas águas do Tahiti. 


Fonte: http://blogs.unimelb.edu.au/
sciencecommunication/files/
2014/09/green.jpg

A bioluminescência também pode ser útil para nós, humanos. Cientistas podem usar compostos químicos produzidos por animais que brilham em pesquisas médicas para iluminar as células que serão vistas ao microscópio. Da mesma forma, é possível visualizar células cancerígenas por meio destes compostos químicos. Um outro exemplo é a proteína relacionada com a fluorescência verde (Green Fluorescent Protein), encontrada em certas medusas, que é utilizada como marcador genético pelos cientistas. 



Fonte: http://www.cbc.ca/kidscbc2/ content/the_feed/oceans_ctenophore.jpg
Ainda não se sabe exatamente qual a função da luminescência em Ctenóforos. Sabe-se que os padrões de cada espécie são únicos. Eles emitem tantas cores quanto um verdadeiro arco-íris, não é incrível? Não deixe de checar o vídeo! 



Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=3ytnJPfzfho


Se você gostou do que leu e quer saber mais sobre o assunto, comenta aqui que a gente tenta matar sua curiosidade!

Para saber mais:
https://www.nature.com/articles/srep45750
http://www.scholastic.com/browse/article.jsp?id=3757110
https://www.wired.com/2011/01/bioluminescent-sea-creatures/
http://www.sciencemag.org/news/2017/04/more-75-surveyed-sea-animals-glow-dark

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Desafios enfrentados por Mulheres na Ciência

Por Catarina R. Marcolin

Recentemente assisti a um debate realizado no Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) chamado “As Mulheres na Universidade e na Ciência: Desafios e Oportunidades” que me chamou muita atenção. Vale a pena assistir na íntegra o vídeo de mais de uma hora em que três mulheres cientistas nos inundam com estatísticas e fatos surpreendentes, alguns até difíceis de acreditar, sobre a participação das mulheres no meio acadêmico. O vídeo foi recomendado por uma professora do IO-USP, a Mary Gasalla, mais uma mulher cientista que nos serve de inspiração.


Ilustração Caia Colla.

No Bate-papo dessa semana, vamos discutir alguns assuntos abordados neste debate, assim, fui em busca de mais alguns dados para seguirmos na reflexão sobre o assunto. Primeiramente, fiquei feliz em saber que nós mulheres representamos cerca de 50% dos estudantes na grande parte dos cursos de graduação do país, em alguns cursos somos até maioria. Entretanto, quando olhamos para as ciências exatas e as engenharias, somos menos de 40% do total. Além disso, é impossível não se impressionar com o fato de que nós mulheres somos apenas 15% dos estudantes nas engenharias da USP. 

Se olharmos para a quantidade de bolsas de iniciação científica e de pós-graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado) veremos que também temos ganhado tantas bolsas quanto os homens. Inclusive, em 2010 tivemos mais mulheres do que homens com título de mestrado e doutorado. Mas novamente, isso não é a realidade nas engenharias e nas ciências exatas. Parece que algo tem nos afastados dessa área, que inclui a oceanografia. 


Número de bolsas por ano por grande área em 2014. Fonte CNPq. 

Mas os números mais chocantes são relacionados à distribuição das bolsas de produtividade em pesquisa, ou bolsas PQ, que são bolsas que premiam pesquisadores por sua excelência em pesquisa. Essas bolsas determinam a distribuição dos recursos financeiros para projetos de pesquisa no país e, portanto, afetam diretamente nosso desempenho enquanto pesquisadores. As bolsas PQ tem vários níveis e a participação das mulheres fica cada vez menor à medida que subimos nesses níveis. Note que sempre temos menos de 39% de participação nessas bolsas. 



Bolsas de Produtividade em Pesquisa por categoria/nível em 2014. A categoria 2 representa a menor categoria a que se pode concorrer a uma bolsa PQ. Para concorrer à categoria 1, sempre se começa solicitando entrada pelo nível D, até chegar ao nível A e, só então, ao nível Sênior (SR). Fonte: CNPq.

Notem que, olhando apenas para estes dois gráficos, percebemos uma segregação horizontal (entre áreas, mulheres estão concentradas em certas carreiras) e uma segregação vertical, pois temos uma baixa representação feminina nas posições de poder.

Podemos encontrar ainda mais exemplos se buscarmos por posições de liderança em grandes grupos de pesquisa. Você já ouviu falar dos INCTs? Os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia são responsáveis pela articulação em rede dos principais projetos de pesquisas em áreas de fronteira da ciência. Bem, do total de 126 institutos existentes, 109 são coordenados por homens e apenas 17 por mulheres. Temos atualmente seis INCTs na área de oceanografia/ciências do mar, dos quais cinco são coordenados por homens. Encontrei apenas um INCT com coordenação feminina e maioria de Pesquisadoras (INCT Antártico de Pesquisas Ambientais - INCT-APA). 

O pior cenário me parece o da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Os próximos dados apresentados foram citados pela física Carolina Brito (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) no debate que mencionei no início deste post. Bem, para se filiar na ABC, o(a) pesquisador(a) é indicado por algum membro da ABC e um comitê decide pela entrada ou não. Este comitê é formado massivamente por homens. O resultado não é nada animador. No próprio site da ABC é possível obter uma lista de quem são seus membros. Olhando pra essa lista, constatei que temos 795 homens para 122 mulheres na ABC. Destes, 15% dos homens não tem bolsa 1A, e  apenas 1% das mulheres não tem bolsa 1A. A interpretação mais rápida, talvez mais rasa também, que podemos fazer desses dados, é que para ser membro da ABC, se você é mulher, é praticamente obrigatório ser pesquisadora nível 1A. Para homens, isso não tem a mesma importância. 

E infelizmente, essa realidade não tem melhorado nos últimos anos. Afinal de contas em 2008, 20% das universidades tinham mulheres como reitoras, enquanto em 2016, apenas 10% das universidades têm mulheres neste cargo. Como explicar que, apesar de termos 48% de doutoras, temos apenas 23% de mulheres em cargos de professoras em nossas universidades públicas? Em alguns posts do BPCN, você já deve ter lido sobre alguns motivos pelos quais mulheres abandonam a carreira acadêmica mais do que homens (O 'sexo' realmente importa; Quando colocar filhos no cronograma; Após a maternidade, de acadêmica a empresária).

E agora mulheres, o que podemos fazer para mudar esse quadro? 

1 - Os dados apresentados aqui são muito escassos, precisamos de números, precisamos de mais indicadores! 

2 - Precisamos de formação sobre questões de gênero. Na França, recentemente foram criadas disciplinas/cursos para discutir gênero em todos os cursos de graduação.

3 - Precisamos financiar projetos de mulheres, fornecer bolsas, premiá-las. Temos pouquíssimas iniciativas, mas estas surtem efeitos incríveis. Veja o post Encontrando autoconfiança como mulher na ciência para ler o depoimento da Deborah sobre a importância de ser reconhecida em sua área. O que nos leva ao próximo ponto:

4 - Precisamos de modelos: a mulher não se enxerga em posições de poder. Socialmente, somos desestimuladas a seguir carreiras científicas consideradas “difíceis”. Desde muito pequenas somos bombardeadas com clichês da idade da pedra de que temos que cuidar da casa, temos que ser boas esposas, mães, verdadeiras senhoras de nossos lares (leia mais sobre isso aqui). Temos que dar oportunidades para que nós mulheres possamos nos sentir capazes de nos apaixonar pela ciência. A Fundação L’Oreal realizou recentemente uma pesquisa de opinião que demonstrou a visão dos europeus em relação à atuação da mulher nas ciências. Cinco mil pessoas foram ouvidas (entre homens e mulheres) e o resultado é:


  • 67% disse que a mulher não está qualificada para ocupar postos de alta responsabilidade; 
    • O principal motivo: porque “as mulheres sofreriam de falta de perseverança, falta de espírito prático, rigor científico, espírito racional e analítico”.


Depois de tudo isso, só tenho a dizer: Mãos à obra! No VII Congresso Brasileiro de Oceanografia tivemos uma mesa redonda sobre o assunto, com sala lotada e com muita participação e engajamento da plateia. Apesar de ter sido uma excelente experiência, não chegamos perto de esgotar o assunto. Então quero convidá-los para continuar a discussão. Vamos discutir gênero nos espaços que ocupamos, semeiem essa ideia! Organizem uma roda de conversa no seu ambiente de estudo ou trabalho e compartilhem com a gente essa experiência.




Sites consultados:

http://cnpq.br/estatisticas1
http://memoria.cnpq.br/estatisticas/bolsas/sexo.ht
http://inct.cnpq.br/institutos/

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Minicursos CBO

Ei, você aí que vai participar do Congresso Brasileiro de Oceanografia (cbo2016.org) em Salvador, já se inscreveu em algum minicurso? Para facilitar sua vida, segue aqui a lista de minicursos disponíveis. 

Uma de nossas editoras (Catarina) estará no evento, como instrutora do minicurso MC5, sobre análise de imagens do plâncton. 

MC1 – Marcadores orgânicos aplicados ao estudo das mudanças climáticas e da poluição marinha
MC2 – Geoquímica de Manguezais   
MC3 – Computação científica com Python    
MC4 – Introdução à alimentação de praias arenosas           
MC5 – Aplicações da análise de imagens do plâncton em estudos ecológicos       
MC6 – Coleção didática e cientifica sobre lixo marinho
MC7 – Protocolos para monitoramento dos manguezais
MC8 – Mapeamento de Habitats Marinhos: Conceitos, Técnicas e Aplicações
MC9 – Genômica de sistemas marinhos no contexto das mudanças globais
MC10 – Radioatividade natural aplicada a estudos oceanográficos
MC11 – Ocean Data View para iniciantes
MC12 – Educação Ambiental no Ambiente Costeiro 
MC13 – A pesquisa, avaliação e manejo dos recursos pesqueiros marinhos do Brasil
MC14 – Uso de Métodos Geofísicos no Estudo de Testemunhos Marinhos
MC15 – Introdução à investigação sísmica de ambiente submersos rasos 
MC16 – Oceanografia por Satélites
MC17 – Mamíferos Marinhos e a Interação com as Atividades Pesqueiras: pesquisa e conservação
MC18 – Bioindicadores e biomarcadores de poluição marinha e alterações climáticas
MC19 – Reconstituindo a temperatura e a salinidade do oceano para períodos anteriores aos registros instrumentais: Por que e como fazer?           
MC20 – Os Recifes de Coral – o que são e como estão?

Mais informações no site do evento (http://www.cbo2016.org/mini-cursos/).


quinta-feira, 23 de junho de 2016

Atenção ao embarcar!

Por Catarina Marcolin

Olá a todos mais uma vez. Faz tempo que não escrevo neste blog, muito mais tempo que não embarco num navio, mas com a passagem do dia mundial dos oceanos, muitas lembranças afloraram. A maioria eram lembranças boas, outras nem tanto. Especialmente de histórias que ouvi.

Em alguns outros posts publicados aqui no blog, você pode ter lido sobre as aventuras de trabalhar no mar, de mergulhar até o fundo dos oceanos, ou de viajar pelo mundo em navios estrangeiros. Mas trabalhar embarcado em um navio oceanográfico nem sempre é uma experiência fantástica, especialmente se você é uma mulher. 

É importante nos lembrarmos de que, quando estamos num navio, estamos também confinados, cercados pelo oceano, sem possibilidade de fazer uma ligação, sem acessar internet, sem ter a possibilidade de visitar um amigo ou familiar, não se pode voltar para casa quando bem entendermos. Um navio também é um ambiente extremamente masculino. A maioria dos tripulantes é composta por homens. Nos pelo menos cinco embarques dos quais participei, conheci uma única mulher tripulante fixa de um navio, ela era a enfermeira de um navio supply, aqueles que dão suporte à plataformas de petróleo. Em navios oceanográficos, não espere encontrar uma mulher tripulante. 

Quando à tripulação científica, daí sim, é mais fácil encontrar mulheres, apesar de haver uma preferência nítida a homens, pois muitos dos trabalhos envolvem força física. Precisamos carregar caixas, redes, frascos, equipamentos pesados. Mas não é somente isso! São muitas as atividades que, para serem desenvolvidas, necessitam de habilidades como liderança, iniciativa, comunicação, gerenciamento, manuseio de equipamentos, habilidades sociais e intelectuais. O trabalho é realmente duro, mas contrariando o senso comum, conheci mulheres que dão um baile em muitos homens, quando se trata de trabalho embarcado. Inclusive, eu mesma já fui impedida de embarcar num navio, o qual estava programado para realizar tarefas de um projeto do meu doutorado, sob o "argumento" de que não havia instalações adequadas para receber uma mulher. 

Se você acha que não é um grande problema este desequilíbrio usual na proporção entre homens e mulheres embarcados, talvez você possa perceber uma certa vulnerabilidade que nós mulheres podemos estar sujeitas em um ambiente como esse. Eu sempre embarquei em grupos grandes de pesquisadores e trabalhei com tripulações maravilhosas. Sempre fui tratada com enorme respeito. Infelizmente, nem sempre encontraremos este ambiente respeitoso no dia a dia de um embarque.

Para ilustrar essa vulnerabilidade que venho tentando destacar, entrevistei duas biólogas que me relataram situações extremamente inadequadas que viveram num embarque num navio em nossa costa brasileira. No post de hoje contarei a história de apenas uma delas. Ambas preferiram se resguardar pelo anonimato, então a chamarei de M a seguir.

BPCN: Alguma vez vocês já se foram excluída de um embarque para "dar espaço" a um homem?

M: Não, isso nunca aconteceu comigo, embora em nosso laboratório se dá mais preferência aos homens, pelo argumento de que à bordo há a necessidade eventual de se carregar peso.

BPCN: Quantas vezes vocês já trabalharam embarcadas e em quantas dessas vezes vocês passaram por situações desconfortáveis ou inconvenientes, que lhe causasse insegurança?

M: Participei de quatro embarques, aconteceram situações chatas em dois deles, mas em apenas um deles me senti insegura.

BPCN: Você poderia relatar alguma situação inconveniente que aconteceu com você? 

M: Eu embarquei duas vezes numa consultoria que contratou um navio para fazer um estudo de monitoramento ambiental. Um funcionário que trabalhava no convés fazia constantes brincadeiras de mau gosto com meu sotaque. Mas ele tinha problemas com outros funcionários também. 

A segunda situação, a que me deixou insegura, aconteceu num navio, que prefiro não revelar seu nome nem instituição de origem. Eu não  imaginava que fosse passar por algo semelhante num navio que pertence a uma instituição de muita credibilidade. Entretanto, já tinha ouvido alguns relatos de expedições anteriores e confesso que já tinha um certo receio de ir nesta expedição, mas não imaginei que aconteceria o que aconteceu.

Alguns membros da tripulação tinham um comportamento muito inapropriado. Todos os dias nós dividíamos a sala de refeições com alguns tripulantes. Antes mesmo de acabarmos nossas refeições, alguns tripulantes (de uma importante posição hierárquica dentro do navio) colocavam vídeos musicais de mulheres semi-nuas (funk, axé, pagode), sempre com imagens de homens e mulheres em coreografias insinuantes, fazendo alusão ao ato sexual, com som muito alto. Além disso, todos os dias havia consumo de álcool e os tripulantes nos ofereciam bebidas alcoólicas exaustivamente, especialmente para as mulheres, com intenção clara de nos embebedar. Eles tentavam exaltar seus méritos a todo momento, numa tentativa clara de conquista. Eu sempre me retirava da sala quando começavam com os vídeos e a bebedeira, e aconteceu de alguns deles virem atrás de mim, perguntando porque eu não queria beber, insistindo muito, me assediando. 

Isso não incomodava somente as mulheres, vários dos nossos colegas homens também se chateavam com a situação, mas em nenhum momento eles se manifestaram. Esta situação foi crescendo, culminando com o próximo caso a ser relatado. É importante destacar que este não era um comportamento de todos tripulantes. Ao mesmo tempo em que fomos assediadas por alguns, outros nos tratavam de forma muito respeitosa. 

Em um determinado dia houve uma confraternização com churrasco e as bebidas começaram desde cedo, pela manhã ainda. Um dos tripulantes bebeu tanto, que ameaçou se jogar do convés, o que causou enorme confusão. Durante o jantar, um dos nossos colegas (homem) estava jantando enquanto um dos tripulantes, que estava caindo o tempo inteiro de bêbado, derrubou cerveja na mesa, e após sua inútil tentativa de limpeza acabou atingindo com um guardanapo sujo o prato de nosso colega pesquisador, que ficou muito nervoso, pois entendeu que se tratava de um evento de racismo. 

Diante de tanta confusão nem consegui jantar neste dia por conta de tantos constrangimentos. Me dirigi para a copa para buscar uma fruta e lá parei alguns minutos para conversar com um tripulante sobre a situação. Neste momento entrou um outro tripulante que estava muito bêbado e ficou fazendo perguntas sobre minha amiga (pesquisadora). Eu tentei sair da copa, mas fui impedida pelo tripulante alcoolizado que insistia que eu fosse buscar minha amiga. Fui defendida pelo tripulante com o qual estava conversando e assim consegui sair da copa. Percebi que havia uma sensação de indignação por parte de vários tripulantes, pois este tipo de situação não poderia ser tolerado pela sua classe profissional. O que mais me deixou insegura é que em nenhum momento tivemos acesso ao comandante, nunca podíamos vê-lo e ele nunca respondeu aos nossos chamados e tentativas de contato. 


Ilustração: Caia Colla.

Para nossa sorte, um dos tripulantes levou o nosso caso ao comandante, que acabou por tomar uma providência, não sabemos exatamente qual foi, mas não vimos mais o tripulante que nos causava os maiores problemas. Fomos chamados para uma reunião com o imediato que ouviu, enfim, nossos relatos e convocou uma reunião com os causadores de problemas, proibindo o consumo de bebida alcoólica, os vídeos insultantes e os comportamentos que nos causavam desconforto. O comandante solicitou que o assediador se desculpasse publicamente comigo e com o meu colega pesquisador (sobre o evento do jantar), mas nada aconteceu com os outros assediadores.

Durante esta expedição, não foi possível realizar os trabalhos de coleta porque houve alguma avaria no navio logo. O navio perdeu sua velocidade e não conseguia mais navegar apropriadamente. O navio não nos desembarcou onde deveria, nos levando direto ao ponto final, e não nos foi comunicado o motivo, bem como não houve alguma explicação sobre o problema. Ficamos sete dias até chegar no nosso destino final, completamente ociosos sem informação do que estava acontecendo. 

Este mesmo navio e sua tripulação foi novamente disponibilizado para finalizarmos os trabalhos não concluídos nesta segunda expedição. Eu tive ainda que participar desta segunda expedição, mas felizmente não passamos por nenhuma outra situação de insegurança. 

Entretanto, nos deparamos com uma outra situação muito estressante e preocupante. Estávamos arrastando uma rede bongô, que deveria descer a 200 m de profundidade. Notamos que o arrasto estava durando muito pouco tempo. Descobrimos que o responsável do guincho recebeu ordens de um tripulante (superior ao operador do guincho e responsável pelas operações de convés no meu turno de trabalho) para descer menos corda do que precisávamos para que finalizássemos mais rápido o nosso serviço, comprometendo nossa amostragem e a qualidade dos nossos dados. 

BPCN: Porque você acha que o responsável pelas operações de convés tentou sabotar/boicotar o trabalho de vocês? Você acha que foi por ignorância ou foi uma tentativa deliberada de "se vingar"? 

M: Não faço a menor ideia. Não obtivemos nenhuma explicação. Não sabemos se foi vingança, desrespeito por sermos mulheres (uma mulher era a chefe da expedição), preguiça de trabalhar, pressa de voltar para casa, desrespeito pelo seu ambiente de trabalho… Enfim, qualquer que tenha sido o motivo, é muito lamentável por tudo que isso representa, é um gasto indevido de dinheiro público!

Também é super importante considerar a perda de uma valiosa informação científica, causada por um trabalho duvidoso/irresponsável por parte da tripulação. Especialmente nesta conjuntura em que nosso país se encontra no momento, obter recursos para a realização de coletas de campo, principalmente em regiões oceânicas, tem se tornado cada vez muito difícil. 


No fim das contas, os relatos que ouço e repasso demonstram claramente que nos embarques, seja com finalidade de pesquisa científica ou consultoria paralela, ainda existe preconceito sim por parte das tripulações masculinas, que tem a visão da mulher como sexo frágil, o que a torna inapropriada à vida a bordo, onde o dia a dia exige força e adaptações físicas para o trabalho realizado em um ambiente regido pelos movimentos das correntes marinhas.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Dinâmica da produção primária e convecção profunda de retorno (overturn) no mar Mediterrâneo: uma abordagem por modelagem 3D de alta resolução

Por Fayçal Kessouri
Tradução: Catarina R. Marcolin

O meu trabalho tem como foco a modelagem de sistemas plactônicos utilizando um modelo de acoplamento físico-biogeoquímico. Este tipo de modelo é uma representação virtual 3D dos principais constituintes dos níveis tróficos mais baixos do ecossistema marinho. Inclui plâncton, bactérias e os nutrientes que os suportam sobre condições hidrológicas e forçantes atmosféricas realísticas. 

O modelo biogeoquímico com o qual trabalhei mostra o impacto de correntes dinâmicas sobre os nutrientes que suportam o plâncton marinho, incluindo nitrato, fostato e silicato. Como eles estão distribuídos no oceano? Como são consumidos? Quem os consome?

O modelo biogeoquímico mostra apenas uma parte das complexas relações  entre diferentes componentes de um ecossistema. Alguns exemplos são como os apresentados  a seguir na figura 1 abaixo: matéria inorgânica alimenta o fitoplâncton quando certas condições abióticas estão disponíveis (luz suficiente, camada estratificada dos oceanos), zooplâncton se alimenta de fitoplâncton. A matéria orgânica é mineralizada em inorgânica e serve de alimento para as bactérias, as quais liberam matéria orgânica e inorgânica dissolvidas, e o ciclo continua.


Figura 1: As relações entre os compartimentos nos ciclos biogeoquímicos nos oceanos. (POM: matéria orgânica particulada; DOM: matéria orgânica dissolvida; DIM: matéria inorgânica dissolvida ou nutrientes).

O plâcton marinho é a base de toda a vida marinha. Eles influenciam a pesca, a economia mundial, a saúde humana e tem um importante papel na manutenção da biodiversidade. O plâncton é composto de:
1 – Fitoplâncton: contém a maior massa de produtores marinhos do mundo. Algumas estimativas mostram que os produtores marinhos produzem mais da metade do oxigênio que respiramos na Terra.
2 – Zooplâncton: se alimentam de fitoplâncton (veja também o post da Catarina). Representam a maior migração animal diária do planeta. 
3 – Bacterioplâncton e virioplâncton: constituem a maior biomassa do planeta, procariotos e vírus são frequentemente esquecidos quando falamos em redes tróficas marinhas clássicas (leia mais aqui).

O mar Mediterrâneo fica entre três continentes (Europa, África e Ásia) e, portanto, está sujeito a pressões físicas da descargas de rios e de depósitos atmosféricos de matéria orgânica e inorgânica, os quais tem dois níveis de impactos: (1) equilíbrio geral de matéria orgânica e inorgânica em todo o mar, (2) eutrofização (elevação no nível de nutrientes) de águas costeiras.
Um dos nossos achados mais importantes usando este modelo é a quantificação de todas as importações e exportações de matéria nos últimos dez anos entre o Mediterrâneo e os ambientes adjacentes (continentes e oceano Atlântico). Nós estimamos que o Mediterrâneo enriquece o Atlântico em mais de 140 X 109 mols de nitrogênio todos os anos através do estreito de Gibraltar. 

O mar Mediterrâneo tem uma característica em comum com o Oceano Atlântico Norte e o Oceano Ártico: zonas de convecção profundas. No Mediterrâneo, uma mistura intensa é observada quase todos os invernos por dois meses. Imagine uma gota de água se movendo do fundo do Mediterrâneo a uma profundidade de 2300 m e subindo para a superfície em um único dia. Esta convecção de retorno a partir de gradientes criados por trocas de calor na superfície e fluxos de água doce é o motor da circulação termohalina global. Esta circulação criada por um gradiente de densidade é estimada estar numa escala de 70 anos no Mediterrâneo e 1000 anos nos oceanos do mundo.

As massas de águas profundas contem altas concentrações de nutrientes, os quais são propagados para a superfície durante eventos de mistura profunda. Quando a mistura se interrompe no final do inverno, alguns dos nutrientes são aprisionados nas águas superficiais e uma grande floração de fitoplâncton é formada, cobrindo uma área de 5 mil a 20 mil km2 (figura 2). Florações de fitoplâncton podem ser tão grandes que podem ser observadas do espaço por satélites e são, portanto, bem modeladas. Essas florações de fitoplâncton ocorrem diretamente acima do local da convecção profunda, o qual é referido como o giro norte do Noroeste do mar Mediterrâneo. Este giro é provocado por fortes correntes ciclônicas (sentido anti-horário no hemisfério norte).


Figura 2: Modelagem da concentração de fitoplâncton (clorofila a [mg/m3]) no NO do mar Mediterrâneo a) Condição de inverno, o centro da bacia é depletado em fitoplâncton por conta da mistura vertical de inverno. b) floração de fitoplâncton na primavera (Kessouri et al., in prep).


Fayçal Kessouri:
Atualmente sou pós-doutorando no Departamento de Oceano e Atmosfera da Universidade da Califórnia em Los Angeles, CA, EUA e o meu doutorado foi desenvolvido na Universidade de Toulouse na França (Laboratoire d’Aerologie). Meu campo de trabalho é biogeoquímica oceânica e modelagem 3D de ecossistemas planctônicos, especialmente forçantes físicas. Eu trabalhei com os impactos da convecção profunda no ecossistema planctônico no mar Mediterrâneo e atualmente estou trabalhando com o sistema de ressurgência da corrente da Califórnia e seus impactos na acidificação e hipóxia na costa oeste americana. Meu desejo em conseguir treinamento em modelagem numérica me motivou a trabalhar com um time de físicos para adquirir uma visão mais integrada do funcionamento dos ecossistemas e seus impactos. Isso me ajudou a estudar processos dinâmicos tais como a convecção que sempre me fascinou. Estou convencido de que a modelagem é uma ferramenta perfeita para complementar as redes de observações que tem sido feitas, especialmente se você quer estudar diferentes escalas espaciais e temporais.