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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Um caso de poliamor entre uma cientista, a fotografia e a ciência

Por Catarina R. Marcolin

Gamarídeo coletado no estuário do Rio Buranhém, Porto Seguro. Foto: Catarina Marcolin.

Dizem que uma imagem pode valer mais que mil palavras. Esse ditado popular ganha sentido especial para mim quando converso sobre plâncton. Estes microorganismos tão pequenininhos tem na verdade grande importância. Informações sobre a quantidade e o tamanho desses organismos que vivem nos oceanos nos ajudam a entender sobre muitas coisas, até mesmo, sobre a regulação do clima no planeta


Mas contar e medir esses bichinhos da forma tradicional demoooora e pode ser muito entediante. Para resolver esse problema, os cientistas pensaram numa solução bem simples usando uma tecnologia inventada há bastante tempo atrás, a fotografia. As lentes e o sistema óptico continuam os mesmos, o que mudou foi a forma de processar essas imagens. Usando um software de análise de imagens é possível fazer automaticamente a contagem e a medição do tamanho desses bichinhos, o que nos deixa com tempo de sobra para ir a praia, navegar na internet ou até escrever esse texto. 

Mas analisar uma quantidade enorme de informação, linhas e mais linhas de dados também pode tomar bastante tempo. E foi assim que eu uni duas paixões, o plâncton e a computação agora andam de mãos dadas na minha vida. Aprender a programar foi como descobrir o fascínio pelos videogames. Amor pela ciência, a gente vê por aqui.










Esse texto é a primeira produção do Curso de Capacitação em divulgação científica, promovido pelo British Council e Museu do Amanhã no Rio De Janeiro. A tarefa do dia era falar sobre meu trabalho utilizando um objeto e eu trouxe minha câmera fotográfica:



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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Garoupas ao mar

Por: Cláudia Kerber



   É de conhecimento corrente que as populações marinhas estão declinando em todo o mundo. As três principais abordagens para evitar o esgotamento dos estoques são controlar os esforços de pesca (cotas de pesca, limitação de tamanho de captura, especificação de petrechos), garantir os locais e períodos de reprodução (defesos, áreas de proteção ambiental) e aumentar a população através de programas de repovoamento. Os dois primeiros métodos formam a base das políticas públicas para a conservação das espécies marinhas no Brasil e impõe sérias restrições à pesca artesanal. A terceira opção, o repovoamento, permite restabelecer a biomassa de reprodutores e acelerar a recuperação dos estoques assegurando a sobrevivências de espécies ameaçadas.


  O repovoamento é uma das principais ferramentas para compensar danos causados por atividades humanas no meio ambiente e tem sido largamente utilizado para a recuperação dos estoques pesqueiros em bacias, rios e reservatórios brasileiros. O repovoamento de espécies marinhas tem sido utilizado desde o Século 19 e no Japão, o programa nacional de recuperação dos estoques pesqueiros envolve mais de 80 espécies de peixes, moluscos e crustáceos. No Mar Cáspio, são criados e soltos anualmente mais de 12 milhões de juvenis de espécies de esturjão nativo (Acipenser persicus) que sustentam praticamente toda a indústria do caviar. Também são produzidos alevinos de outras espécies locais que sustentam a produção pesqueira de cooperativas licenciadas para a pesca.


   Ao desenvolver ações de repovoamento, é primordial que as formas jovens tenham boa diversidade genética e que sejam saudáveis garantindo que ao serem introduzidos não causem modificação da constituição genética da população selvagem e que se aplique o monitoramento.


    Para estabelecer uma estratégia adequada, é necessário conhecer a adaptação dos alevinos logo após a soltura, a dispersão, o processo de mortalidade dos juvenis e garantir que o habitat selecionado ofereça abundância de alimento e abrigo contra predadores. Entre 2013 e 2015, o Projeto Garoupa patrocinado pela PETROBRAS e executado pela ATEVI avaliou a população de garoupas em seus habitats nas regiões costeiras do norte do estado de São Paulo ao centro estado do Rio de Janeiro. Permitiu também identificar áreas para mitigação com o objetivo de reposição de peixes com baixos níveis populacionais como é o caso da garoupa. Além de avaliação de habitats, o Projeto Garoupa, também forneceu dados importantes sobre o comportamento de larvas e alevinos desta espécie utilizando telemetria que resultou em trabalho científico publicado no Journal of Fisheries and Aquaculture Development (Riedel, et al. 2017). Finalmente ótimas condições físicas, bióticas e abióticas para os alevinos podem ser oferecidas se a soltura for em áreas de ocorrência natural.

   No Brasil, uma iniciativa pioneira foi o projeto “Repovoamento do Litoral do Paraná com Alevinos de Robalo” que previa a produção de alevinos pelo Centro de Produção e Propagação de Organismos Marinhos (CPPOM) da Pontifícia Universidade Católica do Paraná com recursos da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior/Fundo Paraná. O projeto colocou cerca de um milhão de larvas e 300 mil alevinos de robalo nas baias do litoral paranaense em 2006-2007. Já em 2001 o CPPOM havia produzido 252 mil de larvas de robalos, que foram soltas na baía de Guaratuba com o propósito de viabilizar a recuperação do litoral paranaense. Uma das críticas que se fez a esta iniciativa foi a falta de avaliação dos resultados do repovoamento. 

    A importância ecológica de algumas espécies predadores de topo de cadeia como a garoupa verdadeira (Epinephelus marginatus) está também no fato de exercerem alta influência na densidade de suas presas e na estrutura da comunidade de fauna, o que a torna importante na regulação e equilíbrio de comunidades de seus ambientes. A proteção desta espécie visa, portanto, não somente manter seus níveis de abundância, mas também manter o seu ecossistema equilibrado e sadio. Tem hábitos sedentários e estudos sobre a movimentação dela demonstram que permanecem em territórios pequenos, distintos e individuais de 1500 m² até 2 há.


  Embora algumas áreas de proteção no Mediterrâneo tenham conseguido êxito em impedir o declínio dos estoques já comprometidos de garoupa, em grande parte devido à proteção de habitats, a recuperação é lenta e a falta destes grandes predadores tem influência direta e negativa na dinâmica e estrutura do ecossistema coralíneo. Medidas de repovoamento tem sido avaliadas para restabelecer a saúde dos ambientes coralíneos.


  A garoupa verdadeira é listada na Red List da IUCN como ameaçada de extinção (A2d). No Brasil foi incluída na Lista de Recursos do MMA como sobre explotada (IN 05/2004) e também consta como sobre explotada no Decreto Estadual Nº 56.031/2010 que define as espécies da fauna silvestre ameaçadas, colapsadas e sobre explotadas no estado de São Paulo. Atualmente é protegida pela Portaria MMA 445/2014 na categoria Vulnerável, e já existe um Plano de Recuperação instituído pelo MMA (Portaria 228/2018) cuja pesca é regulamentada pela Portaria IM 41/2018.


    O PROJETO GAROUPAS AO MAR é um projeto de Análise e Monitoramento Genético para avaliar o processo de reintrodução de alevinos de garoupa verdadeira produzidos em cativeiro no setor Maembipe da APAMLN a ser executado por uma equipe com grande experiência sob a coordenação da Associação Ambientalista Terra Viva. Tem como parceiros o Instituto de Pesca de São Paulo e o Laboratório de Análise Genética de Animais Aquáticos da Universidade de Mogi das Cruzes. A APA Marinha do Litoral Norte de São Paulo e a Prefeitura de Ilhabela deram a anuência e são parceiros também. 


   Sendo um Projeto de interesse difuso da sociedade, optou-se por realizar um financiamento coletivo ou crowdfunding, um tipo de “vaquinha” via internet para levantar os recursos necessários. Qualquer pessoa pode acessar a plataforma kickante e fazer sua contribuição.


  Se quiser ser um agente desta mudança, nos ajude fazendo uma contribuição. Seguir a ATEVI (FB: atevi.org Instagram: atevi_meio_ambiente), compartilhar os conteúdos e pedir contribuições ajuda muito também.



  A campanha de financiamento coletivo termina na primeira semana de dezembro/2018.






Para saber mais:




Sobre a autora:


Claudia Ehlers Kerber é veterinária mestre em fisiologia com especialização em produção de peixes marinhos pelo South East Fisheries and Development Center, SEAFDEC, Filipinas. Desenvolve projetos de reprodução e produção de formas jovens de peixes marinhos.






Bibliografia

Anderson, A.B. et al. “Recovery of grouper … of a marine protected area in Southern Brazil.” Mar Ecol Prog Ser, 2014: 207-215.

Araujo, R.M. “Fatores preditores da variação espacial na biomassa de peixes recifais” SC, 2014. 100.

Astruch, P. et al. “Marquage et suivi do érou brun (Epinephelus marginatus) par Télémétrie acoustique” 2nd Symp on Medit. Groupers. Nice: 2007. 25-28.

Bartley, et al. “Restocking, stock enhancement, and searanching” Rev. Fish. Sci., 2008: 357-365.

Blankensip, H. et al. “A responsible approach to Marine Stock Enhancement.” American Fisheries Society Symposium. 1995. 167-175.

CDB. “Aichi Biodiversity Targets.” 2010. http://www.cbd.int/sp/targets.

Froese, R., FishBase. 2013. http://www.fishbase.org/, version 12/2013.

Koeck, B. et al. “Diel and seasonal movement pattern of Epinephelus marginatus inside a marine reserve.” Marine Environmental Research, 2014, 94 ed.: 38-47.

Riedel, R., C.E. Kerber et al. “Captive-reared Dusky Grouper as an alternative to repopulation of degraded reef habitats.” Journal of Fish and Aquac Dev, 2017, 3 ed.: 1-5.

Tessier, A.et al. “Evolution of the population of Epinephelus marginatus within the Natural Marine Reserve of Cerbère-Banyuls.” GEM. 2012. Poster.


quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Festa das bruxas no oceano

Por Yonara Garcia


E para entrar neste clima de Halloween, que tal falarmos de alguns monstrinhos do mundo submarino?!



O mundo submarino é composto por uma imensa diversidade de organismos, desde os mais minúsculos organismos do plâncton às enormes baleias azuis, dos mais fofos, como o polvo Dumbo, aos mais feios, como o blobfish (lembre dele em nosso post Quem estuda o feio, bonito lhe parece). E no mês de outubro, quando comemoramos o Halloween, no Brasil conhecido como o Dia das Bruxas, resolvemos fazer uma pequena lista dos bichos mais assustadores do fundo do mar. Aproveitem a leitura e se inspirem para, quem sabe no futuro, usar fantasias bem originais!

Fonte: Polvo Dumbo (esquerda) e Blobfish (direita).

Peixe Diabo Negro do Mar

Fonte: Time
Em 1995, saía na capa da revista Time o Peixe Diabo Negro do Mar, o espécime que se tornaria o símbolo do mar profundo. Este peixe é uma espécie abissal, conhecida pelo nome científico Melanocetus johnsonii pertencente a ordem dos Lophiiformes. Ocorrem em profundidades mesopelágicas em águas tropicais e temperadas em todo o mundo. Possuem uma espécie de “vara de pesca” que termina em uma bolha que emite uma luz como uma isca, atraindo as presas em direção aos seus temidos dentes afiados. Esta luminosidade é possível graças à simbiose com bactérias bioluminescentes. Machos e fêmeas são muito diferentes. As fêmeas podem medir até 20 cm de comprimento, com cabeça e boca bem grandes. Já os machos tem o corpo mais simples, são bem menores que as fêmeas (chegando a medir apenas 2,9 cm, pouco maior que uma moeda de 1 real) e são incapazes de sobreviver sozinhos, vivendo como parasitas nas fêmeas. Ao encontrar uma fêmea, o macho morde sua barriga e se funde ao seu corpo, recebendo dela nutrientes e suprimento de sangue e fornecendo uma fonte permanente de espermatozóides. Recentemente, pesquisadores do Instituto de Pesquisa do Aquário da Baía de Monterrey, na Califórnia, conseguiram filmar uma fêmea de 9 cm. As filmagens foram realizadas a 600 metros de profundidade no cânion submarino de Monterrey, na costa da Califórnia, sendo a primeira vez registrado em seu habitat natural.


Esse misterioso predador também já foi vilão no cinema. Se você já assistiu ao filme Procurando Nemo, vai se lembrar desse monstruoso peixe que Dory e Marlin encontram no fundo do mar. No filme, em meio a escuridão, eles são atraídos pela isca de luz do Diabo Negro do Mar, mas ao perceberem o monstro que estava por trás, nadam rapidamente para não serem capturados por esse feroz predador e, assim, continuarem as buscas por Nemo.

Fonte: Link

Lula vampira do inferno

Fonte: Link
A lula vampira do inferno (Vampyroteuthis infernalis), é o único representante vivo da Ordem Vampyromorphida, pertencentes ao grupo dos cefalópodes. São organismos pequenos, atingindo tamanho máximo de 28 cm. Ocorrem em grandes profundidades (normalmente entre 600 e 1200 m) em águas temperadas e tropicais dos Oceanos Pacífico, Atlântico e Índico. Nestas profundidades, a luz solar é fraca ou ausente, a quantidade de oxigênio é baixa e a temperatura varia entre 2° a 6°C. Apesar de possuírem uma taxa metabólica muito baixa e viverem sob concentrações de oxigênio também extremamente baixas, estes animais são capazes de se deslocarem com velocidades relativamente altas, utilizando principalmente suas aletas para se deslocarem, ao invés do jato propulsão, como outras lulas. Embora escassos, alguns estudos verificaram que estes animais se alimentam de copépodes, camarões e cnidários, mas a maior parte de sua energia é obtida por meio de detritos (partículas não-vivas que se originam nas camadas superiores do oceano e que precipitam em direção às camadas mais profundas). De acordo com a presença dos bicos da lula vampiro no estômago de alguns animais, foi observado que estes organismos são predados principalmente por pinípedes (focas, leões-marinhos, lobos-marinhos e morsas), baleias e peixes bentopelágicos. O nome lula vampiro do inferno foi dado devido a algumas características morfológicas como sua pele escura, a presença de uma membrana entre os tentáculos que dão a impressão de uma capa e os olhos vermelhos (dependendo da iluminação). Para o naturalista e explorador William Beebe (1926), a lula vampira do inferno é como “um polvo muito pequeno, mas terrível, preto como a noite, com mandíbulas brancas marfim e olhos vermelho sangue” ("a very small but terrible octopus, black as night, with ivory white jaws and blood red eyes"). Que medo! Mas de acordo com alguns estudos do comportamento, elas não passam de um animal dócil. Uma dica de leitura muito interessante, de autoria do filósofo Vilém Flusser e do biólogo/artista Louis Bec, é o livro chamado Vampyrotheuthis infernalis, uma mistura de filosofia/ciência/fábula que discute o quão distante estamos nós humanos dos animais.


Peixe-bruxa

Fonte: Link

O peixe-bruxa faz parte da Classe Myxini e, apesar de ser classificado por alguns pesquisadores como vertebrado, não possui nem vértebras nem ossos (Heimberg et al., 2010; Nelson et al., 2016). De acordo com Theodore Uyeno, da Universidade Estadual de Valdosta (Geórgia, EUA), a partir de um estudo que analisou o DNA desses organismos, o peixe-bruxa é considerado um vertebrado que perdeu as características do uso da coluna. No lugar da coluna ele possui uma corda de cartilagem (notocorda), que em nós, humanos, aparece apenas na fase embrionária. Pertencem a classe Myxini e são encontrados em águas frias em ambos os hemisférios.São criaturas primitivas, semelhantes às enguias, sem escamas, com corpo cilíndrico e alongado possuindo movimento parecido ao de uma cobra. Não possui mandíbula nem estômago. Possui vários corações e pelo menos duas vezes mais sangue em seus corpos do que outros peixes. Contam com quatro pares de tentáculos de detecção dispostos em torno de sua boca. A boca contém duas fileiras paralelas de dentes fortes e pontiagudos, que são presos a placas dentais ásperas. Apesar de possuírem apenas a arcada dentária superior, esses animais possuem uma mordida poderosa! Por meio de alguns estudos, pesquisadores sugeriram que esse peixe é capaz de morder, pois se enrola para formar nós, principalmente próximo da cabeça, que junto com a arcada superior prende e espreme o alimento. São quase cegos, com olhos rudimentares que são capazes de detectar a luz, mas têm sentidos bem desenvolvidos de toque e cheiro. Apelidados de “urubus marinhos”, passam a maior parte de suas vidas no fundo dos oceanos se alimentando de peixes mortos e moribundos, mas também atacam pequenos invertebrados, tendo como seu prato favorito carcaças de baleias. Além disso, foi observado que estes peixes ainda são capazes de absorver nutrientes pela pele. Uma característica notável desses animais é a capacidade de secretar uma espessa camada de muco sobre a pele que serve tanto como uma mecanismo de defesa como uma arma de caça. O vídeo abaixo mostra o momento que esses peixes encontram uma carcaça no fundo do mar. É quase que um ataque zumbi de tão voraz e por isso eles merecem estar em nossa lista.



Tubarão-duende

Se você já assistiu MIB: Homens de Preto, vai notar a grande semelhança desse animal aos alienígenas do filme. Esse é o Mitsukurina owstoni, também conhecido como tubarão-duende. Este peixe de águas profundas possui uma ampla distribuição, com registros no Oceano Pacífico, Atlântico e Índico. Sua aparência incomum tem como destaques seu focinho alongado e achatado, que se projeta no topo de sua cabeça, parecido com uma pá, e uma boca protuberante, com dentes longos e finos, capaz de se estender para frente sob o focinho ou se retrair para uma posição sob o olho. Acredita-se que o focinho plano tenha a função de detectar os sinais elétricos fracos emitidos pelas presas. Pode chegar até 3,9 m de comprimento. De acordo com análises de conteúdo estomacal, pesquisadores descobriram que eles se alimentam principalmente de peixes, lulas e crustáceos.



Fonte: https://giphy.com/gifs/shark-goblin-5PfnL0B6XxcQg
















Este tubarão não é um hábil nadador, então, ao detectar uma presa, ele se move lentamente em direção a sua comida e, no momento do ataque, ele projeta sua mandíbula para frente, de forma abrupta e bem rápida, puxando a presa para dentro de sua boca. Apesar de raramente capturado, esta espécie não é considerada ameaçada (no status na Lista Vermelha do UICN ele é considerado como “Preocupação Menor”), visto que na maioria das vezes em que é pescado é apenas como uma captura acessória (não intencional) de redes de arrasto em águas profundas, principalmente na costa do Japão. Em 2011, o tubarão-duende foi capturado acidentalmente por um barco de pesca na costa do Rio Grande do Sul. Este exemplar foi doado ao Museu Oceanográfico da FURG (Universidade Federal do Rio Grande), sendo o segundo exemplar a integrar a coleção científica do país.
Fonte: Link
Apesar de alguns organismos das profundezas serem bem “horripilantes”, todos são importantes para o ecossistema marinho. Já imaginou se eles se organizassem para fazer uma festa de Halloween no fundo dos oceanos? Acho que as fantasias mais tenebrosas que apareceriam seriam de homens e plásticos, que são as maiores ameaças para a existência deles. Então, aproveite sua festa, mas faça sempre a sua parte, para que deixemos de ser os verdadeiros monstros da vida marinha. Feliz Dia das Bruxas!


Referências:
HEIMBERG, Alysha M. et al. microRNAs reveal the interrelationships of hagfish, lampreys, and gnathostomes and the nature of the ancestral vertebrate. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 107, n. 45, p. 19379-19383, 2010.
NELSON, Joseph S.; GRANDE, Terry C.; WILSON, Mark VH. Fishes of the World. John Wiley & Sons, 2016.
Robison, B. H., Reisenbichler, K. R., Hunt, J. C., & Haddock, S. H. D. (2003). Light Production by the Arm Tips of the Deep-Sea Cephalopod Vampyroteuthis infernalis. The Biological Bulletin, 205(2), 102–109. doi:10.2307/1543231
ZINTZEN, Vincent et al. Hagfish feeding habits along a depth gradient inferred from stable isotopes. Marine Ecology Progress Series, v. 485, p. 223-234, 2013.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Como uma larva no mar: a vida de um poliqueta



Por Agna Silveira

Os organismos do grupo Polychaeta pertencem a uma classe de invertebrados do filo Annelida (já falamos de poliquetas aqui). São vermes que podem ter uma aparência grotesca, mas também apresentam-se bonitos e graciosos; podem ser vermes de escamas, vermes arenícolas (que vivem na areia) e muitos outros. São divididos comumente em 2 grupos de acordo com o seu estilo de vida: se vivem em túneis ou tubos, onde quase não se locomovem, são chamados de Sedentaria, mas se são livres e exploram o mundo por aí, são chamados de Errantia.


Polychaeta da família Tomopteridae, a única família holoplanctônica, ou seja, que tem todo o seu ciclo de vida no plâncton. É um típico exemplar dos Errantia. Fonte.













Poliqueta tubícola (ou seja, vive em tubos,
típico Sedentaria) da Baía do Araçá, São
 Sebastião, SP
 Foto: Álvaro E.
Migotto. 
Fonte.

Os biólogos costumam classificar os organismos vivos de acordo com as mais diferentes características, utilizando critérios morfológicos, fisiológicos, genéticos e moleculares, por exemplo. Chamamos esse processo de classificação taxonômica e ela resulta no agrupamento dos organismos  em Filo, Classe, Ordem, Família, entre outros. Para exemplificar essa sistematização , tomamos como exemplo o nosso personagem principal (uma larva de poliqueta da família Spionidae coletada no píer de Porto Seguro). A sua classificação taxonômica encontra-se abaixo:

Filo Annelida
Classe Polychaeta
Ordem Canalipalpata
Subordem Spionida
Família Spionidae


Larva de Polychaeta, família Spionidae, coletada no píer
 de Porto Seguro, BA. Foto: Catarina Marcolin.

Os poliquetas adultos podem se reproduzir de forma assexuada ou sexuada. Vamos relembrar um pouco o que isso quer dizer? Quando os poliquetas se reproduzem sexuadamente, eles liberam gametas diretamente na água, onde ocorre a fertilização. A partir daí se desenvolvem larvas planctotróficas (que se alimentam de plâncton). As larvas são, portanto, uma fase do ciclo de vida de alguns organismos. Além disso, os poliquetas são capazes de se regenerar quando partes de seu corpo são fragmentadas em segmentos, que se regeneram em novos indivíduos (essa seria a reprodução assexuada). Percebam que não há fase larval neste caso, pois a partir de um organismo adulto se desenvolve outro adulto.


O tamanho destes animais pode variar bastante, desde seres microscópicos até organismos de 3 metros de comprimento! O corpo da larva que aparece no vídeo tem aproximadamente 700 μm de comprimento, menor que 1 mm, ou seja, equivale aproximadamente à largura da cabeça de um alfinete. 


Apesar de tão pequeninas, essas larvas conseguem nadar de modo impressionante, utilizando estruturas chamadas de parapódios (elas ocorrem em pares isolados que crescem na lateral do corpo), onde se inserem as cerdas. Essas estruturas atuam como se fossem remos ou pequenos pés, conjuntamente com músculos circulares e longitudinais para nadar à beça nos oceanos (veja o vídeo).


Estruturas corpóreas, incluindo parapódios utilizados para natação, larva da família Spionidae. Foto: Catarina Marcolin.

Video da larva de Spionidae usando os parapódios para nadar. Vídeo filmado no laboratório da UFSB, por Catarina Marcolin. Edição Agna Silveira.

As larvas de poliqueta se alimentam de fitoplâncton ou de partículas em suspensão. Para isso, esses animais desenvolveram estruturas adaptadas para capturar partículas, como os cílios protostomiais. Talvez você esteja se perguntando como esses animais conseguem encontrar alimento nos vastos oceanos. Acontece que os poliquetas possuem órgãos sensoriais que variam nas diferentes espécies de acordo com seu estilo de vida. O que chamamos de olhos nestes organismos são órgãos fotorreceptores localizados no protostômio, que podem variar de dois a quatro pares e detectam apenas variações de intensidade luminosa. Em alguns grupos, como  os poliquetas pelágicos da família Alciopidae, existem grandes olhos capazes de formar imagem, conforme pode ser visto na imagem abaixo.


Note os enormes olhos deste poliqueta da
 família Alciopidae. Fonte.
Uma vez capturado o alimento, é hora da digestão! Poliquetas, incluindo suas larvas, possuem um tubo digestivo completo, ou seja, tem uma boca anterior (para captação de alimento) e um ânus exterior (para liberação de fezes). No vídeo você pode ver o alimento migrando no tubo digestivo até ser finalmente expelido na forma de fezes. Fofo não?

As larvas de poliqueta não são apenas fofas, elas participam de processos ecológicos fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas, do qual você também faz parte. São um importante elo de ligação entre os produtores primários (organismos que produzem o próprio alimento) e os animais marinhos de maior tamanho como larvas de peixes, até baleias. O que significa que estes animais são essenciais na transferência de matéria e energia nos ecossistemas marinhos. Você imaginou que um bichinho tão pequeno seria tão importante?

Páginas Consultadas:

http://biomarpt.ipma.pt/pdfs/1572Curso%207-Taxonomia%20e%20Ecologia%20de%20Zooplancton%20Marinho_Metodo%20e%20tecnicas%20de%20amostragem%20contagem%20e%20identificacao.pdf

http://www.biorede.pt/page.asp?id=780

https://sites.evergreen.edu/vms/polychaete-larvae-eq/

http://simbiotica.org/digestivo.htm

http://www.repository.naturalis.nl/document/549831

Sobre a autora:

Sou Bacharel Interdisciplinar em Ciências, estudante de segundo ciclo no curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Fiquei encantada pelo mundo microscópico desde que o conheci, então decidi incluir o zooplâncton na minha formação como conteúdo optativo. Este texto foi o resultado da avaliação final do componente Bioecologia do Zooplâncton, ofertado na UFSB, pela professora Catarina Marcolin.