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quinta-feira, 7 de março de 2019

Dia Internacional da Mulher 2019

Oito de Março, o Dia Internacional da Mulher, está chegando! E junto com ele, uma série de eventos imperdíveis.


Nós do Bate-papo com Netuno separamos alguns eventos em diversas partes do Brasil. E na sua cidade? Haverá algum evento? Compartilhe com a gente!

Angra dos Reis – RJ

Na Vila Histórica de Mambucaba será realizada o evento “Mar de rosas: as mulheres e os oceanos”, onde ocorrerá uma homenagem às mulheres que têm suas vidas ligadas ao mar (Dia: 09/03 às 13 horas – gratuito; informações (24) 988331608).

Florianópolis - SC

Pré 8M Na UFSC - roda de conversa: Mulheres na Pós - graduação: diversidade, resistência e luta (Informações: https://www.facebook.com/events/562590827563911/).

Rio de Janeiro – RJ

Mulheres do Amanhã: Uma semana de atividades no Museu do Amanhã, incluindo um dia só sobre Mulheres na Ciência. (Informações: https://museudoamanha.org.br/pt-br/semana-das-mulheres-do-museu-do-amanha-mulheres-do-amanha).

São Paulo - SP

Entre os dias 11 e 15 de março, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas realiza a Semana da Mulher IPT 2019: Construindo a Igualdade de Gênero. Além de apresentações de documentários e atrações artísticas e culturais, a programação reúne convidadas de diferentes campos do conhecimento, promovendo uma reflexão sobre a condição da mulher no mundo contemporâneo. O evento é gratuito e aberto ao público. 
Informações: http://uspmulheres.usp.br/semana-da-mulher-ipt-2019-construindo-igualdade-de-genero/


Greve Internacional de Mulheres
Mulheres do Brasil e do mundo participarão da Greve Internacional de Mulheres. A greve ocorrerá em 8 de Março. Nas ruas, as mulheres lutarão contra o machismo, a desigualdade de gênero, os feminicídios e os projetos que atacam seus direitos.

Aracaju (SE): https://bit.ly/2TnMevN
Belém (PA): https://bit.ly/2VIWXxE
Belo Horizonte (MG): https://bit.ly/2Inq1sB
Campinas (SP): https://bit.ly/2CpidAt
Caxias do Sul (RS): https://bit.ly/2HgNaL3
Curitiba (PR): https://bit.ly/2BNne63
Distrito Federal: https://bit.ly/2HkMUdR
Florianópolis (SC): https://bit.ly/2NNmliP
Itajaí (SC): https://bit.ly/2EG2E8B
Itapetininga (SP): https://bit.ly/2TkUPzm
Juiz de Fora (MG): https://bit.ly/2EC2Zci
Londrina (PR): https://bit.ly/2HdZUCi
Macapá (AP): https://bit.ly/2NxhO46
Manaus (AM): https://bit.ly/2XQ3dFE
Marabá (PA): https://bit.ly/2Tzhjf8
Natal (RN): https://bit.ly/2EJXska
Passo Fundo (RS): https://bit.ly/2TxjS1d
Petrópolis (RJ): https://bit.ly/2VLgCgn
Porto Alegre (RS): https://bit.ly/2tShL9I
Recife (PE): https://bit.ly/2SJP5d7
Ribeirão Preto (SP): https://bit.ly/2HhdcxP
Rio de Janeiro (RJ): https://bit.ly/2HiDLmf
Rio Grande (RS): https://bit.ly/2TyC4rb
Roraima (RO): https://bit.ly/2UnHtyL
Salvador (BA): https://bit.ly/2ERAGbh
Santa Maria (RS): https://bit.ly/2H61BlZ
São José dos Campos (SP): https://bit.ly/2ERGz8i
São Leopoldo (RS): https://bit.ly/2XJa3wk
São Paulo (SP): https://bit.ly/2C6UVjt
Uberlândia (MG): https://bit.ly/2H5gG7s
Vitória (ES): https://bit.ly/2EUq7nX

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2018


Duas palestras sobre a inserção das minorias em atividades científicas, voltadas para os alunos de instituições públicas:

- Primeiro dia: A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia contará com a Prof. Dra. Monica Lopes Ferreira CeTICS, discutindo sobre a ‘Presença e contribuição de mulheres para o avanço da ciência’, com a participação do Bate-papo com Netuno.

- Segundo dia: Haverá a participação do Prof. Dr. Kabengele Munanga CEA - USP, falando sobre a ‘Presença e contribuição de afrodescendentes para o avanço da ciência no Brasil’.

Quando? 17 e 18 de outubro.

Que horas? 12h - 13:30h

Local? Auditório István Jancsó (Biblioteca Brasiliana, USP)
Endereço: Complexo Brasiliana, R. da Biblioteca, 21 - Vila Universitaria, SP, 05508-065 

Entrada gratuita | Sujeito a lotação. 


Para saber mais:


segunda-feira, 30 de julho de 2018

Ciência Aberta discute " Mulheres na Ciência"

Fonte: http://thanksgivingpics.blogspot.com
/2011/11/marie-curie-pictures.html

O Ciência Aberta é um programa de TV produzido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) em parceria com o jornal Folha de S.Paulo. A próxima edição do programa terá como tema “Mulheres na Ciência”, onde abordará assuntos relacionados à maior presença e as contribuições das mulheres para o avanço da pesquisa científica e tecnológica e os problemas que elas ainda enfrentam para ingressar num mundo que, até recentemente, era eminentemente masculino.

Participarão dos debates a socióloga Alice Rangel de Paiva Abreu, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e diretora do GenderInSITE (Gender in science, innovation, technology and engineering); a física Márcia Barbosa, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ganhadora do Prêmio L´Oreal e Unesco de Mulheres nas Ciências - Físicas e do Prêmio Claudia em ciência, ambos em 2013; e a química Vanderlan Bolzani, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e ganhadora do prêmio Distinguished Women in Science Chemistry and Chemical Engineering, American Chemical Society (USA) e International Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC). A mediação será da jornalista Sabine Righeti.

O programa será exibido ao vivo no dia 1º de agosto, a partir das 15h, pelo site da FAPESP (www.fapesp.br), pela página da Agência FAPESP no Facebook (www.facebook.com/agfapesp) e no YouTube (www.youtube.com/user/fapespagencia) e pelo site da TV Folha (www1.folha.uol.com.br/tv). Durante o programa, perguntas do público externo poderão ser feitas por meio da página da Agência FAPESP no Facebook (www.facebook.com/agfapesp).


quinta-feira, 19 de julho de 2018

A “mulher não tem aptidão para determinado campo científico” e outros seres mitológicos do imaginário popular acadêmico

Veronica Slobodian


Ilustração: Joana Ho

   A Academia tem o costume de se achar diferente do restante dos agrupamentos humanos. Os acadêmicos se consideram gozar de um alto grau de questionamento, de maneira que não sucumbiriam às crendices populares e quaisquer tipos de argumentos que não sejam respaldados somente em fatos, dados empíricos, experimentos regulados.

  Entretanto, o ambiente acadêmico apresenta crendices populares, como qualquer outro agrupamento humano. Inclusive crendices com personagens dignos de criptozoologia ou folclore, com espécies lendárias, mitológicas e hipotéticas, as quais teriam sido avistadas por diversos acadêmicos ao longo de suas carreiras. Personagens como a “mulher não gosta de exatas”, a “mulher não tem aptidão para determinado campo científico”, a “mulher não serve para assumir posição de liderança”, dentre outros tantos.

  Essas são figuras folclóricas do ambiente acadêmico as quais estão arraigadas há tanto tempo no imaginário popular de seus membros, que muitos juram terem visto tais espécimes, argumentam até ter registros concretos de suas existências, e acabam passando os contos referentes a esses personagens através das gerações. Mas é isso que elas são: figuras folclóricas. E cada vez mais temos dados empíricos para argumentar este posicionamento.

   Na Ictiologia não era diferente. O ser mitológico mais famoso da ictiologia era a “mulher não gosta de trabalhar com peixes”. Os argumentos do folclore para a existência de tal personagem eram geralmente referentes ao “fato” de que a maioria das pessoas que decide trabalhar com peixes tem esta vontade derivada de terem pescado muito quando crianças. Esse ser mitológico também foi aventado como uma condição madura da espécie “menina não gosta de pescar”, afinal, pescaria é algo que os pais fazem com seus filhos. Que pai leva sua filha para pescar, não é mesmo? “Meninas não gostam de lago, grama ou peixes". Argumentam que por termos menos meninas pescadoras, seria natural termos menos mulheres trabalhando com peixes e, portanto, menos mulheres sendo convidadas a palestrar em congressos de peixes.


   De maneira a sairmos do ambiente folclórico, e trabalharmos com dados concretos (afinal, cientista gosta de dados, não é mesmo?), iniciamos uma pesquisa sobre o perfil de gênero na ictiologia. Há um grande desbalanço de gênero na ictiologia brasileira? Se sim, quais fatores podem levar a tal?

 O estopim para tal pesquisa foi observar que nos últimos congressos ictiológicos brasileiros o número de palestrantes mulheres era muito inferior ao de homens, compreendendo de 21–32% (em média 25,8%) na última década. E para tal fato muitas hipóteses foram traçadas ao longo do tempo, que pudessem explicar e justificar tais números.


   Claro, se o ser mitológico de “mulher não gosta de trabalhar com peixes” realmente existisse, e devesse ser descrito pela ciência, provavelmente a porcentagem de mulheres na Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI) deveria ser semelhante à de mulheres palestrantes. Para a surpresa de muitos, encontramos que as mulheres compreendem 40% da SBI.

  Então aventamos que provavelmente o ser mitológico não era necessariamente a “mulher não gosta de trabalhar com peixes”, mas “mulher não gosta de trabalhar com sistemática e taxonomia de peixes”, de maneira que há muito menos mulheres formadas na área que homens. Para tal, levantamos os dados de mestrados e doutorados em sistemática e taxonomia de peixes nos últimos anos, e obtivemos que as mulheres são 43% de tais formações.

Posteriormente, a dúvida que surgiu é se o ser mitológico não seria “mulher publica menos, por isso é menos convidada a palestrar”. E num levantamento de 2003–2017 na revista Neotropical Ichthyology encontramos que as mulheres são primeiras autoras em 39% dos artigos, em média.

  Dessa forma, acabamos por executar algumas lendas do folclore acadêmico: “mulher não gosta de trabalhar com peixes”, “mulher não gosta de trabalhar com sistemática e taxonomia de peixes” e “mulher publica menos, por isso é menos convidada a palestrar”. Entretanto, matar as lendas não as tira do imaginário popular. E, muito menos, explica como elas vieram a existir.

 Talvez essa seja uma pergunta que nunca será respondida propriamente, ao menos não ao rigor que nós, acadêmicos e acadêmicas, gostaríamos que tivesse. Portanto, nossa intenção com tal trabalho não foi apenas de matar as lendas, mas de despertar a conscientização sobre o assunto da desigualdade de gênero na participação e representatividade das mulheres na ictiologia brasileira. Admitimos que tal desigualdade existe e ela é fruto de seres mitológicos que, apesar de muito arraigados na crendice popular, não têm dados empíricos para justificar sua descrição formal. Ao admitirmos, podemos pensar então em estratégias para enterrar propriamente esses personagens, e dar lugar às personagens reais, às mulheres fortes e grandes cientistas que compõem a ictiologia brasileira.

Veronica Slobodian é a autora deste texto, e coordenadora do projeto de levantamento da participação e representatividade de mulheres na ictiologia brasileira. Entretanto, todo o trabalho citado foi feito e/ou corroborado por mais de 50 pesquisadoras, de todo o Brasil, que assinam o projeto em andamento.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Nunca é tarde para florescer!



Ilustração: Caia Colla 

Nasci em novembro de 1940, primeira metade do século 20, filha de imigrantes portugueses que vieram para a zona rural e depois migraram para São Paulo em busca de emprego.
São Paulo estava no auge da industrialização, principalmente no que diz respeito à indústria têxtil. As famílias portuguesas eram extremamente patriarcais e, em sua maioria, de baixa renda, vivendo em casas onde abrigavam vários membros de uma mesma família. Na grande maioria dessas famílias, os filhos, quando muito, faziam curso primário e depois iam para o mercado de trabalho. Não foi diferente comigo, pois estudar, segundo o conceito geral, era só para ricos, para o meu desespero, já que sonhava com coisas grandes. Porém, minha trajetória mudou quando conheci pessoas que me ajudaram e consegui entrar no curso ginasial já com 17 anos e em seguida fui para o científico. Toda essa trajetória teve  muitos problemas por conta da grande resistência familiar. Uma formação muito rara para a época. As mulheres bem nascidas faziam escola normal e iam ser professoras primárias, as mau nascidas na maioria dos casos não terminavam o primário.
Com 19 anos comecei a trabalhar como funcionária na Faculdade de Saúde Pública da USP. Depois de fazer um estágio de mais ou menos um ano, consegui ser contratada ocupando o cargo de técnico de laboratório, colaborando com as aulas práticas de bacteriologia e auxílio à pesquisa (1960 a 1968 ).
Com 26 anos me casei. Era a rotina de todas as mulheres da época e também, é lógico, era comum se casar com maridos autoritários e repressores. Eu, como toda mulher da época, fazia o que o marido mandasse, e deixei meu trabalho para ser dona de casa por 20 anos. Tive três filhos que me ensinaram muita coisa e me deram mais força ainda para reverter essa história que não aceitava desde criança. Queria mudança.
Levei essa vida como pude, mas sempre com a ideia de algum dia dar uma girada de 360°.
Entre 1980 e 1985 morei no Estado de Goiás, passando por três cidades Niquelândia, Uruaçu e Goiânia. No início de 1986 voltei para São Paulo determinada a voltar ao mercado de trabalho, e entrei em contato com pessoas que foram meus contemporâneos na Saúde Pública. Em setembro de 1987, então com 47 anos, eu estava de volta, praticamente, ao meu primeiro emprego em um outro tempo e espaço físico diferente. Até o nome havia mudado, e a instituição agora se chamava Instituto de Ciências Biomédicas da USP (São Paulo), fazendo basicamente o que fazia em 1960, me envolvendo com a didática e pesquisa e sempre muito feliz com meu trabalho. Ufa! estava mudando minha história.
Bem, no segundo semestre de 1989 eu arrisquei e prestei vestibular no Mackenzie, em busca do meu segundo sonho: ser química ou matemática. Bem, como a química tinha mais a ver com o que eu fazia, foi nela que foquei. E consegui! Meu nome saiu na terceira lista, foi inacreditável! Comemorei com muito vinho!
Aos 49 anos, segunda metade do século 20, estava eu na sala de aula de uma universidade e levei bem, fui até o fim, trabalhando durante o dia e estudando à noite (anos dourados), me senti como se tivesse a mesma idade da galera e o interessante é que eles me tratavam assim.
Meu outro desafio, mas esse nunca foi meu sonho, foi o mestrado. Fui praticamente empurrada para ele pela Profa. Vivian  Pellizari, agora docente do Instituto Oceanográfico da USP, com quem trabalho até o momento.
Meu mestrado foi no programa de Biotecnologia Interunidades e o tema foi com saneamento básico estudando a presença de Oocistos (uma fase intermediária no ciclo de vida de protozoários) de Criptosporidim em mananciais e água tratada.
Tudo parecia já realizado quando o inesperado aconteceu: “ANTÁRTICA”!!!!!
Em 1998/99 recebi o maior prêmio da minha vida, fui para Antártica, com o projeto de pesquisa coordenado pela Profa. Rosalinda Montone (IOUSP) do qual também fazia parte a profa. Vivian Pellizari, então docente no ICB-USP. E veja bem, fui porque na última hora a pessoa indicada não pôde ir.  Permaneci na estação durante 3 meses. Fiz coleta de solo e água e processamento das amostra como parte do monitoramento da Baía do Almirantado, local onde fica a Estação Científica Brasileira Comandante Ferraz. Como se uma vez não fosse um sonho, ainda fui mais duas vezes: em 2000/2001, durante dois meses e em 2004 durante um mês.
Com 77 anos estou no IOUSP há sete e me sinto com 30 anos no meio de toda essa energia da juventude! Faço tudo que posso para ver essa gente crescer, acreditar na vida e acreditar que tem muito mais além do que podemos enxergar, pois podemos sentir também.  Concluindo, o que mais eu poderia querer?!
Obrigada às pessoas que fizeram parte da minha história de vida, que muito me enriqueceram a ponto de conseguir escrever esse texto.


Rosa com a profa. Vivian e os alunos do LECOM IO-USP.


 
Rosa com a profa. Vivian Pellizari e alunas do 
LECOM IO-USP no dia da Mulher em 2017.




Hoje em dia a Rosa, ou Rosinha como é carinhosamente chamada, está aposentada pelo ICB, depto de Microbiologia, mas trabalha no Laboratório de Ecologia Microbiana (LECOM) do IOUSP desde 2011, a convite da Profa. Vivian Pellizari, com quem trabalha há 30 anos. Além de ser responsável pela administração e logística do LECOM e realização de aulas práticas, salva e inspira a vida de todos os alunos com sua força, dedicação e amor.


Curriculum Lattes



terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Precisamos falar sobre creches nas universidades

Por Caia Colla



Sempre ouvi falar das creches da USP. Quando nasceu minha primeira filha tentei mas não consegui vaga. A vaga veio de presente, uma semana antes do nascimento da minha segunda filha, a mais velha tinha dois anos e meio. Elas iniciaram na creche em 2014 e meu coração transbordava de alegria. Finalmente vi de perto o que era aquela escola... O espaço, o primor no trabalho, educadoras incríveis, senti que aquele seria um lugar importante nas nossas vidas. Aí os ventos mudaram. O reitor Marco Antônio Zago começou a mostrar seu plano de governo, sua intolerância e sua aversão ao diálogo. Foi o ano de uma greve muito longa que afetou toda comunidade e o plano de incentivo à demissão voluntária foi implantado.
O ano acabou sem que pudéssemos prever o que vinha adiante, inscrições para as vagas nas creches foram abertas, as pessoas inscreveram seus filhos e aguardavam o resultado em janeiro. Janeiro veio sem o resultado mas com um aviso importante: NENHUMA CRIANÇA ENTRARIA EM NENHUMA DAS CRECHES DA USP NAQUELE ANO. Assim, sem explicação, sem preparo, sem discussão. Começamos ali uma luta que até hoje existe. Começamos pedindo reuniões para entendermos o que estava acontecendo e quem nos recebia era o Prof. Valdir Jorge, superintendente da SAS naquela época e representante do reitor. Conhecido também como bagre ensaboado, ele deslizava pelas perguntas e estava claramente tentando nos enrolar. Dizia que as vagas não foram abertas por conta do plano de demissão, alguns profissionais aderiram e segundo a reitoria, não seria seguro receber novas crianças com um quadro de funcionários reduzido.
Um estudo foi feito por cada creche, quantas crianças poderiam ser recebidas em cada creche considerando o novo quadro. Isso foi apresentado ao professor. Era uma diferença muito pequena, todas as creches tinham condições plenas de receber um bom número de crianças. A partir daquele momento o bagre, além de ensaboado, passou a ser surdo. Acabou. Era (e ainda é) como tentar dialogar com uma porta, não existe resposta, não existem explicações. Lembro de me preocupar com o futuro das creches. O próximo ano veio e as vagas não foram abertas. Crianças acabando seu ciclo, indo embora e nenhuma criança entrando. As creches começaram a esvaziar e o ânimo das pessoas foi caindo, era triste, é triste. Mas com a indignação nasce a luta. Um grupo de pais, funcionários e simpatizantes começou a se organizar, fazer parcerias, fazer barulho e conquistar apoio. Que luta bonita, que causa nobre. Por conta desse esforço muitos conselheiros se sensibilizaram e no final de 2016 foi votada a reabertura das vagas na capacidade das creches pelo Conselho Universitário, órgão máximo da Universidade. A maioria dos conselheiros votou pela reabertura. O reitor, além de não cumprir a decisão do Conselho atacou mais uma vez e no início de 2017, durante as férias e sem qualquer aviso, a reitoria mandou um caminhão para desmontar a creche oeste. As crianças iriam para a creche central e 58 vagas seriam abertas para a central.  O grupo mobilizado ficou sabendo e no mesmo momento ocupou a creche oeste. Isso aconteceu no dia 16 de janeiro e a ocupação continua, impedindo a reitoria de tomar o prédio das crianças. As creches têm capacidade para 700 crianças e hoje, temos apenas 210 matriculadas.

As creches da USP tem um papel importantíssimo na Universidade. É campo de estudo para as faculdades de Fonoaudiologia, Psicologia, Educação, Odontologia e de lá saem inúmeros trabalhos, teses e dissertações. É um lugar de formação de profissionais e referência nacional e internacional. Enquanto muitos países entendem a primeira infância como a fase mais importante na vida de uma pessoa e investem cada vez mais na educação infantil, a maior universidade da América Latina faz o contrário. Um plano foi traçado para acabar com o programa de educação infantil da USP, isso só não aconteceu porque existe resistência e luta.
Primeiro Vídeo Carta

Segundo Vídeo Carta


quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Desafios enfrentados por Mulheres na Ciência

Por Catarina R. Marcolin

Recentemente assisti a um debate realizado no Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) chamado “As Mulheres na Universidade e na Ciência: Desafios e Oportunidades” que me chamou muita atenção. Vale a pena assistir na íntegra o vídeo de mais de uma hora em que três mulheres cientistas nos inundam com estatísticas e fatos surpreendentes, alguns até difíceis de acreditar, sobre a participação das mulheres no meio acadêmico. O vídeo foi recomendado por uma professora do IO-USP, a Mary Gasalla, mais uma mulher cientista que nos serve de inspiração.


Ilustração Caia Colla.

No Bate-papo dessa semana, vamos discutir alguns assuntos abordados neste debate, assim, fui em busca de mais alguns dados para seguirmos na reflexão sobre o assunto. Primeiramente, fiquei feliz em saber que nós mulheres representamos cerca de 50% dos estudantes na grande parte dos cursos de graduação do país, em alguns cursos somos até maioria. Entretanto, quando olhamos para as ciências exatas e as engenharias, somos menos de 40% do total. Além disso, é impossível não se impressionar com o fato de que nós mulheres somos apenas 15% dos estudantes nas engenharias da USP. 

Se olharmos para a quantidade de bolsas de iniciação científica e de pós-graduação (mestrado, doutorado e pós-doutorado) veremos que também temos ganhado tantas bolsas quanto os homens. Inclusive, em 2010 tivemos mais mulheres do que homens com título de mestrado e doutorado. Mas novamente, isso não é a realidade nas engenharias e nas ciências exatas. Parece que algo tem nos afastados dessa área, que inclui a oceanografia. 


Número de bolsas por ano por grande área em 2014. Fonte CNPq. 

Mas os números mais chocantes são relacionados à distribuição das bolsas de produtividade em pesquisa, ou bolsas PQ, que são bolsas que premiam pesquisadores por sua excelência em pesquisa. Essas bolsas determinam a distribuição dos recursos financeiros para projetos de pesquisa no país e, portanto, afetam diretamente nosso desempenho enquanto pesquisadores. As bolsas PQ tem vários níveis e a participação das mulheres fica cada vez menor à medida que subimos nesses níveis. Note que sempre temos menos de 39% de participação nessas bolsas. 



Bolsas de Produtividade em Pesquisa por categoria/nível em 2014. A categoria 2 representa a menor categoria a que se pode concorrer a uma bolsa PQ. Para concorrer à categoria 1, sempre se começa solicitando entrada pelo nível D, até chegar ao nível A e, só então, ao nível Sênior (SR). Fonte: CNPq.

Notem que, olhando apenas para estes dois gráficos, percebemos uma segregação horizontal (entre áreas, mulheres estão concentradas em certas carreiras) e uma segregação vertical, pois temos uma baixa representação feminina nas posições de poder.

Podemos encontrar ainda mais exemplos se buscarmos por posições de liderança em grandes grupos de pesquisa. Você já ouviu falar dos INCTs? Os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia são responsáveis pela articulação em rede dos principais projetos de pesquisas em áreas de fronteira da ciência. Bem, do total de 126 institutos existentes, 109 são coordenados por homens e apenas 17 por mulheres. Temos atualmente seis INCTs na área de oceanografia/ciências do mar, dos quais cinco são coordenados por homens. Encontrei apenas um INCT com coordenação feminina e maioria de Pesquisadoras (INCT Antártico de Pesquisas Ambientais - INCT-APA). 

O pior cenário me parece o da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Os próximos dados apresentados foram citados pela física Carolina Brito (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) no debate que mencionei no início deste post. Bem, para se filiar na ABC, o(a) pesquisador(a) é indicado por algum membro da ABC e um comitê decide pela entrada ou não. Este comitê é formado massivamente por homens. O resultado não é nada animador. No próprio site da ABC é possível obter uma lista de quem são seus membros. Olhando pra essa lista, constatei que temos 795 homens para 122 mulheres na ABC. Destes, 15% dos homens não tem bolsa 1A, e  apenas 1% das mulheres não tem bolsa 1A. A interpretação mais rápida, talvez mais rasa também, que podemos fazer desses dados, é que para ser membro da ABC, se você é mulher, é praticamente obrigatório ser pesquisadora nível 1A. Para homens, isso não tem a mesma importância. 

E infelizmente, essa realidade não tem melhorado nos últimos anos. Afinal de contas em 2008, 20% das universidades tinham mulheres como reitoras, enquanto em 2016, apenas 10% das universidades têm mulheres neste cargo. Como explicar que, apesar de termos 48% de doutoras, temos apenas 23% de mulheres em cargos de professoras em nossas universidades públicas? Em alguns posts do BPCN, você já deve ter lido sobre alguns motivos pelos quais mulheres abandonam a carreira acadêmica mais do que homens (O 'sexo' realmente importa; Quando colocar filhos no cronograma; Após a maternidade, de acadêmica a empresária).

E agora mulheres, o que podemos fazer para mudar esse quadro? 

1 - Os dados apresentados aqui são muito escassos, precisamos de números, precisamos de mais indicadores! 

2 - Precisamos de formação sobre questões de gênero. Na França, recentemente foram criadas disciplinas/cursos para discutir gênero em todos os cursos de graduação.

3 - Precisamos financiar projetos de mulheres, fornecer bolsas, premiá-las. Temos pouquíssimas iniciativas, mas estas surtem efeitos incríveis. Veja o post Encontrando autoconfiança como mulher na ciência para ler o depoimento da Deborah sobre a importância de ser reconhecida em sua área. O que nos leva ao próximo ponto:

4 - Precisamos de modelos: a mulher não se enxerga em posições de poder. Socialmente, somos desestimuladas a seguir carreiras científicas consideradas “difíceis”. Desde muito pequenas somos bombardeadas com clichês da idade da pedra de que temos que cuidar da casa, temos que ser boas esposas, mães, verdadeiras senhoras de nossos lares (leia mais sobre isso aqui). Temos que dar oportunidades para que nós mulheres possamos nos sentir capazes de nos apaixonar pela ciência. A Fundação L’Oreal realizou recentemente uma pesquisa de opinião que demonstrou a visão dos europeus em relação à atuação da mulher nas ciências. Cinco mil pessoas foram ouvidas (entre homens e mulheres) e o resultado é:


  • 67% disse que a mulher não está qualificada para ocupar postos de alta responsabilidade; 
    • O principal motivo: porque “as mulheres sofreriam de falta de perseverança, falta de espírito prático, rigor científico, espírito racional e analítico”.


Depois de tudo isso, só tenho a dizer: Mãos à obra! No VII Congresso Brasileiro de Oceanografia tivemos uma mesa redonda sobre o assunto, com sala lotada e com muita participação e engajamento da plateia. Apesar de ter sido uma excelente experiência, não chegamos perto de esgotar o assunto. Então quero convidá-los para continuar a discussão. Vamos discutir gênero nos espaços que ocupamos, semeiem essa ideia! Organizem uma roda de conversa no seu ambiente de estudo ou trabalho e compartilhem com a gente essa experiência.




Sites consultados:

http://cnpq.br/estatisticas1
http://memoria.cnpq.br/estatisticas/bolsas/sexo.ht
http://inct.cnpq.br/institutos/

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Encontrando autoconfiança como mulher na ciência

Por Deborah Apgaua

Recebi nesse ano de 2016 um prêmio internacional que mudou a minha vida e visão sobre muitos aspectos da ciência. Este prêmio destina-se a mulheres de países em desenvolvimento, para que realizem pesquisa nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática, em universidades e instituições com excelência internacional. Objetiva, portanto, formar uma rede transformadora da sociedade onde homens e mulheres possuam oportunidades semelhantes no mercado de trabalho.

Ilustração: Caia Colla
Ser mulher na ciência ainda é um desafio, especialmente em um país onde a maior parte dos professores universitários das áreas de exatas são homens, e existe um desequilíbrio de gênero em cargos relacionados a lideranças. Conforme o texto já publicado neste blog (o sexo realmente importa?), aceitar que esta diferença existe, o que ainda não acontece, pode ajudar a reverter este cenário. Ainda mais importante, o aumento da autoconfiança das mulheres ajudaria a quebrar esta barreira para a maior participação feminina.

É claro que a possibilidade de realizar uma pesquisa de pós-doutorado no exterior é uma parte importante da satisfação que sinto após a conquista deste prêmio. Porém, estar inserida em um grupo que busca uma nova direção para a ciência no mundo (esta “comunidade” tem o nome de “Faculty for the Future” e abre para novas propostas todos os anos, neste site), aumentou a minha autoconfiança para desenvolver pesquisa e me tornar um exemplo que inspire outras mulheres a seguir caminho semelhante. Portanto, muito antes de começar de fato minha pesquisa, tenho sentido uma grande diferença na forma com que exponho minhas ideias e guio estudantes em seus trabalhos.

Quando decidi tentar este programa, precisei relembrar e organizar toda a minha carreira acadêmica desde a graduação até o doutorado. Tive que buscar o valor de cada experiência e relacionar como isto pode me levar a um lugar que inspire outras mulheres. Então descobri uma nova força que estava dentro de mim, algo que não conhecia. Antes de submeter a proposta de trabalho fiz uma releitura e me senti realizada, independente do resultado da aplicação. Eu me pergunto quantas mulheres poderiam sentir esta satisfação se relembrassem cada passo de sua caminhada e colocassem valor em seu trabalho.

Por exemplo, percebi que eu possuo mais prática em ensinar do que havia me dado conta. Durante a minha graduação, desenvolvi trabalhos em comunidades tradicionais onde participei da devolução de resultados da pesquisa e ministração de minicursos. Além disso, durante a minha pós-graduação adquiri experiência através de estágios em docência, mesmo que assistida por meu orientador. Quando estive no exterior fazendo parte de meu doutorado, mantive contato com meus colegas de trabalho e auxiliei na correção de textos. Consegui, portanto, ver a relevância de todos estes momentos quando precisei convencer a Schlumberger foundation, criadora deste programa, que eu era uma candidata que merecia a premiação.

Para acreditar nesta realidade sem me diminuir, e sim encontrar merecimento em minhas escolhas acadêmicas, não me preocupei com o que eu poderia ter feito e não fiz. Quando fui submetida a uma entrevista em inglês que buscou confirmar o que eu tinha escrito, não me apresentei de forma séria e durona tentando demonstrar um estereótipo masculinizado para expressar poder. Ao contrário, fui simpática e feminina e encontrei confiança sendo eu mesma.

Ao receber o resultado positivo de minha proposta, a menina insegura que não consegue expressar suas ideias científicas por não acreditar que elas sejam relevantes, já não existia mais. Como concordo com a filosofia proposta pelo programa Faculty for the Future, resolvi encarar a missão de engajar e encorajar mais mulheres na ciência.  Decidi incorporar a mulher forte que estava adormecida dentro de mim e me ver como uma cientista que busca cada vez mais vivências e que sabe que ainda tem muito a aprender.

A partir deste momento, com a autoconfiança revitalizada, converso com mulheres na minha universidade e em outras instituições e vejo o semblante se modificando à medida que aponto a possibilidade de um caminho simples para suas conquistas. A mudança está dentro de nós, porque muitas vezes nos boicotamos pela insegurança e baixa estima. Foco e autoconfiança são as palavras chave para nossa transformação.

Em conversas com alunas da pós-graduação, percebi que algumas mulheres possuem medo de se tornar apenas uma “sombra” de outros homens (talvez resultado de um ambiente de trabalho predominantemente masculino, onde de 31 professores apenas 3 são mulheres). Porém, o medo paralisa, e age no sentido contrário de ações que podem nos libertar da subordinação. Assim, quando superamos a insegurança e o medo de nos tornarmos menores que homens na ciência, nos autoafirmamos para agirmos no caminho do conhecimento que levará ao sucesso acadêmico.

O resultado dessas mudanças também é facilitado quando compreendemos que não fazemos ciência sozinhas e a colaboração é essencial. Assim, podemos transformar competição em colaboração e aceitar com mais facilidade que em nenhum passo acadêmico devemos estar sozinhas, pois precisamos lapidar o nosso trabalho. Sejam homens ou mulheres, acreditar que a ciência avança com colaboração diminui nosso ego e o peso da responsabilidade de deter um conhecimento que está constantemente sendo construído.

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Sobre Deborah:


Sou doutora ecóloga florestal, apaixonada pelas florestas tropicais do mundo. Graduei-me em biologia e nesta fase busquei abordagens etnobiológicas. Já no meu mestrado e doutorado, trabalhei com ecologia florestal para estar em contato direto com as florestas brasileiras, mas no meu doutorado acabei indo parar na Austrália onde desenvolvi meu projeto com características funcionais das plantas de floresta úmida. Atualmente estou me preparando para voltar à Austrália e realizar pós-doutorado com o apoio de um prêmio que recebi para mulheres na ciência. Pretendo compreender as características de plantas que serão mais favoráveis em cenários de secas extremas causadas por mudança climática e trazer o conhecimento para o Brasil. Espero inspirar outras mulheres a seguir carreira acadêmica.