quinta-feira, 25 de maio de 2017

Discussão científica na mesa do bar

Por: Raquel Moreira Saraiva

Pint of Science leva ciência para bares soteropolitanos


   Quem imaginaria um bar lotado para ouvir palestra de um pesquisador numa noite de segunda-feira? Isso aconteceu em várias cidades dos 11 países que sediaram o Pint of Science em 2017, ocorrido nos dias 15, 16 e 17 de maio. O festival, que começou na Inglaterra em 2013, acontece no Brasil desde 2015 e chegou a Salvador (BA) este ano. 

   No dia da estréia, a conversa sobre “História Ambiental da Baía de Todos os Santos” foi comandada pelo professor Eduardo Mendes, do Instituto de Biologia da UFBA, no Caranguejo do Porto, bar localizado na Barra. O pesquisador abordou aspectos econômicos, históricos e naturais de Salvador para explicar a trajetória da Baía de Todos os Santos (BTS), desde a chegada dos portugueses à região, no ano de 1.501, até os dias atuais.

   A BTS é a segunda maior baía do litoral brasileiro, com 1.233 km², e a única a possuir uma extensão expressiva de recifes de coral, além de estuários e manguezais. As características geológicas da BTS a tornam de fácil navegação, o que facilitou o desenvolvimento econômico da região através do acesso de embarcações de médio e grande porte. Por outro lado, a atividade portuária intensa é um dos principais fatores causadores de impacto ambiental na BTS, como ressaltou o professor no Pint of Science. 


O professor Eduardo Mendes falou sobre a História Ambiental da Baía de Todos os Santos
 (Foto: ASCOM UFBA).

   O acidente geográfico que caracteriza a BTS resulta principalmente de atividade tectônica e confere à região uma paisagem encantadora. Além disso, o clima tropical e a grande diversidade natural que compõe o sistema bentônico costeiro fazem de Salvador um importante pólo turístico e atrai cada vez mais o turismo de natureza, ou “ecoturismo”. A atividade humana, entretanto, tem gerado poluição e invasão de espécies exóticas, dois dos maiores problemas ambientais que a BTS tem enfrentado. Eduardo Mendes ressaltou a falta de atuação do poder público para reverter ou mesmo amenizar o quadro. Francisco Barros, professor do Instituto de Biologia da UFBA, prestigiou o evento e ressaltou que a popularização da ciência através de iniciativas como o Pint of Science é de extrema importância para conscientizar a população e para que medidas profícuas sejam tomadas em relação à preservação ambiental “O poder público quer o que a população quer. Se nós não estivermos bem informados, não temos muita chance de pressionar o poder público”.
   No Brasil, a comunicação científica ainda se concentra nos periódicos acadêmicos, que disseminam os resultados das pesquisas para os pares. As iniciativas de popularização da ciência, por sua vez, em geral se restringem a museus e estão atreladas a incentivos governamentais. Nesse cenário, o Pint of Science inova ao levar o conhecimento gerado na academia a um ambiente informal em um evento aberto ao público.
   Em 2017, o Pint of Science aconteceu em 22 cidades brasileiras, incluindo Salvador (BA), Teresina (PI) e Goiás (GO). Um evento como este tem grande importância e significado, especialmente nas regiões cientificamente menos tradicionais. Embora tanto o número de publicações quanto as redes colaborativas venham aumentando nos últimos anos, a hegemonia da produção científica nacional está longe de ser reduzida. O pesquisador Otávio Sidone, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, mostrou em um trabalho publicado no ano passado que, no período entre 2007 e 2009, sete universidades das regiões sul e sudeste foram responsáveis por mais da metade dos produtos científicos do Brasil. Essas regiões concentram não só universidades e institutos de pesquisa consolidados, mas também recursos humanos e financeiros. De acordo com Lima e colaboradores, em trabalho publicado em 2008, a descentralização do conhecimento gerado nas universidades e centros de pesquisa contribui inclusive para criar condição de ascensão social através da apropriação de conhecimento pela população, o que tem significado ainda mais importante no contexto de desigualdade social que o país apresenta.

   A linguagem acessível permitiu a compreensão da fala do professor Eduardo Mendes até para quem não é da área de biológicas. Cleiton Lima, servidor público da área de tecnologia e mestrando em Ciências da Computação, foi convidado para a palestra sobre a Baía de Todos os Santos por amigos, e avaliou a experiência como muito positiva “Eu acho que a relação da academia com a sociedade é muito distante, e eventos como esse fazem com que as pessoas despertem para temas que são importantes de discutir mas que estão enclausurados na universidade”.



O público compareceu à primeira edição do Pint of Science em Salvador 
(Foto: ASCOM UFBA).

   O evento parece ter cumprido seu papel. O garçom Vinícius de Lima se surpreendeu com o comportamento do público “Normalmente o salão é bem barulhento, e hoje, mesmo cheio, tava silencioso”. Vinícius disse que, por causa do trabalho, ouviu muito pouco da palestra, “mas gostei bastante do que ouvi, amanhã vou tentar prestar mais atenção”. Ana Leonor, professora da Faculdade de Farmácia da UFBA, participou da produção do evento e ressalta que basta estar no local para participar do Pint of Science “Mesmo o cara que tava em uma mesa no cantinho e nem sabia do evento, escuta e se interessa. Assim o senso crítico da população é estimulado”.
   Não só a comunidade não-acadêmica ganha com o evento. Antônio Dórea, estudante de mestrado de ecologia na UFBA, destaca que eventos como esse enriquecem também quem faz a ciência “A discussão que surge nesses ambientes, com pessoas diferentes, de outras áreas e com pontos de vista diferentes, pode abrir nossas mentes inclusive para a prática científica”. 
   Cleiton Lima já faz planos de assistir nos próximos anos e até de participar como palestrante “A partir de hoje me considero parte do evento. Eu gostaria de trazer o conceito de inteligência natural para o público entender como a matemática pode participar do dia a dia”. O professor Francisco Barros faz uma ressalva: “Vou fazer de tudo para participar nos próximos dias, mas não sei se consigo tomar outra cerveja durante a semana”. 
   A produção do evento também avaliou a estreia como um sucesso. “O público aderiu e a discussão fluiu bem, a tendência é isso aumentar cada vez mais”, disse Ana Leonor. Um brinde ao sucesso da ciência no bar!

Para saber mais:

Baía de todos os santos Aspectos oceanográficos Vanessa Hatje Jailson B. de Andrade








quinta-feira, 18 de maio de 2017

Pesticidas e Aves Marinhas

Por  Jana del Favero e Fernanda I. Colabuono

Ilustração: Joana Ho

   Pesticidas (ou praguicidas) são substâncias, misturas de substâncias, ou até mesmo agentes biológicos (como um vírus ou uma bactéria), capazes de prevenir, combater ou exterminar espécies que causem danos durante a produção, colheita e armazenamento de alimentos, ou que causem danos à saúde pública (ex. insetos vetores de doenças). São importantes na agricultura, pois ao controlarem pragas, promovem um aumento na produtividade e/ou na qualidade do alimento. Porém, seu uso indiscriminado provoca vários problemas ambientais e para a saúde humana, uma vez que são tóxicos também para as espécies não-alvo, ou seja, para uma infinidade de outras espécies, além de mim, você e as aves marinhas, que focaremos nesse post. Muitas vezes são nomeados de acordo com o tipo de praga que eles atacam, exemplo: inseticidas para o controle de insetos, herbicidas para o controle de ervas daninhas, fungicidas para fungos, entre diversos outros nomes. Já agrotóxico, que comumente escutamos, é o termo legal e está definido na Lei 7802/89, também chamada Lei de Agrotóxicos. Eles podem ser classificados em agrícolas ou não agrícolas (saiba mais sobre aqui: www.mma.gov.br/seguranca-quimica/agrotoxicos).

   O transporte de agrotóxicos do solo para os corpos de água ocorre, principalmente, devido ao escoamento superficial gerado pela ação da chuva ou irrigação do cultivo. Uma vez que atingem os rios, estes funcionarão como uma “via expressa” transportando os agrotóxicos até os oceanos. Como muitos pesticidas são compostos com alta estabilidade química, ou seja, dificilmente são degradados ou metabolizados, eles persistem no ambiente por muito tempo. Assim, podem ser transportados por longas distâncias e ocorrer até mesmo em regiões onde nunca foram produzidos ou utilizados, como na Antártica!

   Uma vez nos oceanos, os pesticidas são absorvidos pelo plâncton (lembre deles aqui) e são transportados, através da alimentação, para níveis tróficos superiores, num processo denominado biomagnificação. Um exemplo de biomagnificação é apresentado na figura abaixo, onde é possível ver como a concentração de um pesticida (o DDT) em ppm (partes por milhão) aumenta a cada nível trófico: zooplâncton [0,04 ppm] < peixes pequenos [0,5 ppm] < peixe grande [2 ppm] < aves [25 ppm]. É importante lembrar que muitos peixes e aves possuem hábitos migratórios, servindo como meio de transporte de pesticidas para outras regiões.

Exemplo de biomagnificação de DDT em uma cadeia trófica

   Um dos pioneiros e mais famoso pesticida, o DDT (sigla de Dicloro Difenil Tricloretano e formadora do verbo dedetizar), foi amplamente usado durante e após a Segunda Guerra Mundial para o combate de mosquitos causadores de malária e tifo, por ser barato e altamente eficiente a curto prazo. Porém, a longo prazo tem efeitos nocivos ao meio ambiente, como alarmado pelo bióloga norte-americana Rachel Carson em seu livro “Primavera Silenciosa”, que afirmava que DDT causava a diminuição da espessura das cascas de ovos, resultando em problemas reprodutivos e em morte das aves. O livro “Primavera Silenciosa” auxiliou no banimento do DDT nos Estados Unidos na década de 70, seguido por diversos outros países ( foi apenas em 2009 que o banimento ocorreu no Brasil!).

   Por mais que o DDT tenha sido banido na maioria dos países há décadas e nunca tenha sido usado na Antártica, em seu trabalho de pós-doutorado, a Fernanda analisou ovos de algumas espécies de aves antárticas, como pinguins, petréis e skuas, e constatou a presença de DDTs e de outros pesticidas nos mesmos, ilustrando bem como essas substâncias persistem no ambiente e atingem até mesmo áreas remotas.

   Mas não pense que a transferência pela cadeia trófica (conforme mostrado na figura de biomagnificação) é a única forma dos pesticidas atingirem as aves. Atualmente nós, seres humanos, incluímos mais um item alimentar no cardápio das aves marinhas: OS PLÁSTICOS! As aves marinhas, acidentalmente, confundem o plástico com algum item alimentar e os ingere, causando diversos danos ao indivíduo (ex. obstrução do trato digestório, diminuição do estímulo alimentar etc). Além disso, os plásticos adsorvem os pesticidas (ou seja, as moléculas da substância em questão ficam aderidas/fixadas na superfície do plástico). E Bingo!... Além de todo o dano causado pela ingestão do plástico por si só, as aves ainda estão consumindo plásticos cobertos de pesticidas e outros poluentes! Em um trabalho publicado em 2010, a Fernanda e seus colaboradores avaliaram os objetos plásticos ingeridos por aves amostradas no sul do Brasil, e constatou a ocorrência de pesticidas nos mesmos.

Foto: Chris Jordan - Filhote de Albatroz encontrado morto com plásticos no estômago.

   Infelizmente, a concentração de pesticidas vem aumentando ano a ano, sendo os mesmos encontrados no solo, na atmosfera, nas águas, e nos seres vivos. O Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo, com o uso indiscriminado de pesticidas em muitos casos. Esse quadro precisa mudar. As aves marinhas e a sua saúde agradecem!


Para saber mais:

Colabuono, F.I., et al. (2010) Polychlorinated biphenyl and organochlorine pesticides in plastics ingested by seabirds. Marine Pollution Bulletin 60, 630-634. Disponível em: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0025326X10000366

Colabuono, F.I., et al. (2015). Organochlorine contaminants and polybrominated diphenyl ethers in eggs and embryos of Antarctic birds. Antarctic Science 27(4), 355–361. doi:10.1017/S0954102014000807

Colabuono, F.I., et al. (2016). Persistent organic pollutants in blood samples of Southern Giant Petrels (Macronectes giganteus) from the South Shetland Islands, Antarctica. Environmental Pollution 216, 38-45. Disponível em: http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749116304298.

Dossiê ABRASCO: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde / Organização de Fernando Ferreira Carneiro, Lia Giraldo da Silva Augusto, Raquel Maria Rigotto, Karen Friedrich e André Campos Búrigo. - Rio de Janeiro: EPSJV; São Paulo: Expressão Popular, 2015. 624 p. Disponível em: http://www.abrasco.org.br/dossieagrotoxicos/wp-content/uploads/2013/10/DossieAbrasco_2015_web.pdf

A Fernanda Colabuono já publicou outro post aqui no Bate-Papo, relembre:http://batepapocomnetuno.blogspot.com.br/2015/08/pesquisando-nas-ilhas-remotas-do-brasil.html

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Pellets e microplástico no ambiente marinho

Por Gabrielle Souza


   Você já parou para pensar por que os pequenos pedaços de plástico são prejudiciais à vida no oceano? E como eles vão parar lá? Hoje vamos falar sobre pellets e microplástico no ambiente marinho. 

   Todos os dias os seres humanos geram toneladas de lixo. Boa parte vai para lixões ou aterros sanitários, porém pellets e microplásticos vão parar nos oceanos prejudicando a vida dos organismos marinhos. Mas, existe diferença entre pellets e microplástico? Sim! 

   Os pellets são “mini-bolinhas”, conhecidas também como pastilhas de resina plástica ou nurdles. Possuem aproximadamente 0,1 - 0,5 centímetros de diâmetro e são utilizadas como matéria-prima para a fabricação de novos produtos de plástico, não sendo originárias da divisão de itens maiores em pequenos pedaços. Uma comparação simples seria o trigo que é matéria-prima da farinha, que posteriormente será utilizada para fazer um bolo. Esses pellets são transportados para os locais que as moldam e remontam para criação de novos produtos. Contudo, durante a fabricação e transporte, os pellets podem ser liberados de forma acidental no ambiente, e por meio de escoamento e fluxo de águas, são direcionados para o oceano. 

   Devido à sua durabilidade, os pellets ficam presentes durante anos no oceano, sendo transportados por correntes de água que os distribuem em praias por todo o mundo. Especialistas afirmam que, uma vez na água dos oceanos, este material retém poluentes químicos que encontram-se em seu redor, prejudicando animais, como aves e organismos marinhos, visto que estes farão a ingestão acreditando que a “mini-bolinha” seja alimento, possivelmente absorvendo as toxinas liberadas posteriormente pelo pellet.



   A fim de avaliar a poluição marinha, estas pastilhas de resina estão sendo coletadas. O portal online para ao lixo marinho Litterbase realiza o monitoramento dos locais que possuem mais acúmulo e distribuição de lixo nos cursos d’água. O Litterbase conta com um mapa mundial de distribuição dos tipos de lixo em diferentes locais e publicações de artigos sobre o assunto (Link Mapa: http://litterbase.awi.de/litter). Possui também uma página que reúne a proporção de diferentes tipos de lixo que contribuem para a composição global, com dados calculados e distribuídos em gráficos (Link: http://litterbase.awi.de/litter_graph). Existe também a Fidra, uma instituição de caridade localizada em East Lothian na Escócia, que se envolve em questões ambientais, contribuindo para um diálogo amplo a nível nacional e internacional. Eles possuem um mapa, onde realizam a caçada por nurdles (Link Mapa: http://www.nurdlehunt.org.uk/take-part/nurdle-map.html), além de trabalharem em conjunto com a indústria do plástico, a fim de acabar com a poluição por pellets.

E o microplástico? Qual a diferença dele para o pellet? Microplástico são partículas cujo tamanho varia de 1 nanômetro a 5 milímetros. Ao contrário dos Pellets o microplástico é resultado de plásticos maiores que se dividiram em pedaços menores. Esta divisão pode ser consequência, por exemplo, de quando o plástico é fragmentado mecanicamente, por ação do vento e ondas do mar. Ou seja, microplástico é uma forma secundária da matéria-prima, as pastilhas de resina.

   As microesferas são um tipo de microplástico feito de polietileno. É muito utilizada para fabricação de produtos de beleza e saúde, como por exemplo o creme dental e glitter utilizado em maquiagens, que foi bastante usado no carnaval, e que já possuem alternativas biodegradáveis. Devido ao seu tamanho essas partículas acabam ultrapassando facilmente o sistema de água dos ralos chegando aos rios e oceanos. 

   Essas partículas são encontradas no estômago de peixes, baleias e espécies do plâncton. Similarmente aos pellets, os poluentes químicos aderem-se ao microplástico, contaminando os organismos que os ingerem. Pesquisas estão em andamento para saber realmente quais são os impactos que ambos podem causar nos organismos marinhos.

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Microplástico na praia de Northwestern Hawaiian Islands em 2014. Fonte: http://oceanservice.noaa.gov/facts/microplastics.html

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Microplástico presente em cosmético para esfoliação facial. Fonte


Para saber mais:

Referências

VERGNAULT, Olivier. Nurdles pollution at record levels as 100,000 tiny plastic pellets found on one Cornish beach. 2017. Disponível em: <http://www.cornwalllive.com/nurdles-pollution-at-record-levels-as-100-000-tiny-plastic-pellets-found-on-one-cornish-beach/story-30143311-detail/story.html>. Acesso em: 29 abr. 2017.

Tiny plastic pellets found on 73% of UK beaches: Great Winter Nurdle Hunt finds thousands of pellets used in plastic production washed up on shorelines around country. 2017. The Guardian. Disponível em: <https://www.theguardian.com/environment/2017/feb/17/tiny-plastic-pellets-found-on-73-of-uk-beaches>. Acesso em: 29 abr. 2017.

MATO, Yukie et al. Plastic Resin Pellets as a Transport Medium for Toxic Chemicals in the Marine Environment. Environmental Science & Technology, [s.l.], v. 35, n. 2, p.318-324, jan. 2001. American Chemical Society (ACS). http://dx.doi.org/10.1021/es0010498.

HIRAI, Hisashi et al. Organic micropollutants in marine plastics debris from the open ocean and remote and urban beaches. Marine Pollution Bulletin, [s.l.], v. 62, n. 8, p.1683-1692, ago. 2011. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1016/j.marpolbul.2011.06.004.

TANIGUCHI, Satie et al. Spatial variability in persistent organic pollutants and polycyclic aromatic hydrocarbons found in beach-stranded pellets along the coast of the state of São Paulo, southeastern Brazil. Marine Pollution Bulletin, [s.l.], v. 106, n. 1-2, p.87-94, maio 2016. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1016/j.marpolbul.2016.03.024.

What are microplastics?: Microplastics are small plastic pieces less than five millimeters long which can be harmful to our ocean and aquatic life.. NOAA- National Oceanic and Atmospheric Administration U.S Department of Commerce. Disponível em: <http://oceanservice.noaa.gov/facts/microplastics.html>. Acesso em: 29 abr. 2017.

Microplastic Marine Debris: What are microplastics?. NOAA- National Oceanic and Atmospheric Administration U.S Department of Commerce. Disponível em: <https://marinedebris.noaa.gov/sites/default/files/MicroplasticsOnePager_0.pdf>. Acesso em: 29 abr. 2017.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Histórias de Sucesso #1 — Izadora Mattiello


Por: Equipe de redação do Laboratório de Carreira
Publicação original em: Laboratório de Carreira



O Laboratório de Carreira é apaixonado por histórias de sucesso. A nossa equipe foi atrás de exemplos de carreiras de pós-graduandos que, mesmo sob muitas dúvidas, desafios e dificuldades, conseguiram encontrar o seu caminho e conquistar uma excelente vida profissional e financeira. Nosso estudo de caso de hoje é sobre uma bióloga do interior de São Paulo chamada Izadora Mattiello. Atualmente, Izadora é sócia-proprietária da Phomenta, uma empresa que está inovando e criando a nova geração da filantropia no Brasil.  

Izadora se formou em biologia pela Universidade de Campinas (Unicamp) e desde o início da sua graduação foi apaixonada por usar seu jaleco branco, trabalhar em laboratórios de pesquisa e fazer ciência. No segundo ano de faculdade, foi aluna de iniciação científica na área de biologia ambiental com projetos ligados à área de ecologia marinha de crustáceos. Perto da formatura, ela decidiu se aventurar em um intercâmbio no Chile, na Universidad Católica del Norte, para trabalhar em um laboratório de pesquisa com algas e animais marinhos da Patagônia. Quando voltou, encarou a seleção de mestrado e garantiu seu lugar na USP para fazer o mestrado em um projeto interdisciplinar da Petrobras, que propunha um método inovador para detectar algas marinhas vivas, muitas delas tóxicas, que vinham da água de lastro de navios de diversos portos que podiam prejudicar a fauna local e a saúde humana. Ela conta que foi muito desafiador, porque trabalhava com uma equipe de formações diversas como, por exemplo, engenheiros, oceanógrafos, matemáticos, estatísticos e etc. O interessante é que parte do mestrado da Izadora foi realizado dentro de uma incubadora de empresas tecnológicas da USP e assim ela teve a oportunidade de conhecer um pouco do mundo do empreendedorismo.

Izadora Mattielo e Lorhan Caproni, fundadores da Phomenta

Depois da caminhada acadêmica de sete anos, poderia-se pensar que tinha chegado o momento de Izadora seguir sua carreira acadêmica e fazer doutorado, mas a dúvida e a incerteza ocuparam sua mente. Ela esperava ver sua pesquisa sendo aplicada para o bem do meio ambiente e da sociedade de uma maneira rápida e eficiente, mas percebeu que no lugar onde estava trabalhando existia muita burocracia, falta de eficiência e que sua paciência não aguentaria isso por mais quatro anos. A angústia e a ansiedade tomaram o lugar do prazer de executar um projeto de pesquisa, a sensação de permanecer na zona de conforto incomodava muito e o brilho nos olhos da Izadora foi aos poucos dando lugar à uma visão obscura da sua carreira.

Ela decidiu tentar a vida de pesquisadora dentro de empresas na área de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), só que os problemas continuaram a aparecer. Izadora enviou dezenas de currículos para diversas empresas da área de sua especialidade, mas na maioria das vezes sequer foi chamada para ser entrevistada. O simples fato de ter optado por uma carreira acadêmica durante anos e não ter nenhuma experiência profissional a limitava de começar sua carreira profissional. Passaram-se dez meses de tentativas de seleção para vagas de empregos e nada de respostas positivas.

Devido a esse momento de angústia e frustração, Izadora foi atrás de autoconhecimento na tentativa de resgatar o prazer no trabalho e decidiu fazer um curso chamado Catálise na Fundação Estudar. Com isso, ela conectou-se com ela mesma e descobriu que ajudar pessoas era o que a deixava realizada, então começou a trabalhar em uma ONG para colocar isso em prática. Esta atividade a aproximou de planejamento estratégico, marketing, recursos humanos e essas áreas começaram a instigar novamente a vontade de aprender coisas novas. Izadora percebeu que o que ela tinha aprendido durante os sete anos na academia como, por exemplo, montar projetos, executar o planejamento, ter um objetivo, um cronograma e etc era algo fundamental que qualquer organização precisava ter.

Sobre o Laboratório de Carreria

Laboratório de Carreira é um projeto que está se tornando uma startup. Tem como objetivo conectar o pós-graduado ao mercado de trabalho, realizando o seu sonho de vida e carreira.


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Minhocas peludas indicam a qualidade ambiental do fundo marinho no Banco dos Abrolhos

Por Michele Quesada-Silva

Todos aprendem na escola a importância da minhoca para os solos terrestres. Mas esqueceram de nos ensinar a importância dos seus parentes para os sedimentos do fundo do mar.


   As minhocas peludas na verdade chamam-se poliquetas e não têm pelos, mas sim cerdas (uma mais linda que a outra!). Os poliquetas pertencem ao mesmo grupo das minhocas (Filo Annelida) e, assim como elas, ventilam e irrigam o sedimento, estimulando o fluxo de nutrientes e a degradação da matéria orgânica. Existem no mundo mais de 11 mil espécies de poliquetas, sendo que eles podem ter diferentes tamanhos, hábitos de vida e hábitos alimentares (de herbívoros a omnívoros). Essa grande diversidade de espécies e hábitos faz com que a presença de determinadas espécies, assim como suas quantidades, indique as características do ambiente. Por isso, estes organismos são comumente utilizados por empresas de consultoria ambiental na caracterização e no monitoramento da qualidade do fundo marinho.

Diversidade de formas de poliquetas (Ilustração M. J. Schleiden).



Como estudar poliquetas
   Os poliquetas adultos são geralmente bentônicos, isto é, habitam os fundos marinhos tanto duros (como por exemplo recifes de corais) quanto os sedimentos. A figura abaixo representa a variedade de métodos para coletar os organismos bentônicos.

Métodos para coletar poliquetas (Fonte: KC Denmark A/S).

   Tradicionalmente, o bentos é dividido segundo uma classificação prática baseada no tamanho da malha das peneiras utilizadas para separar esses organismos do sedimento marinho. Animais retidos por uma peneira de 0,5 mm, por exemplo, compreendem a macrofauna bentônica, que é dominada por poliquetas. No entanto, na peneira não ficam só os organismos… então temos que separá-los em grandes grupos (poliquetas, crustáceos, moluscos, etc) através de um esteromicroscópio e, depois, com a ajuda de um microscópio com lentes de aumento mais potentes, podemos identificá-los em nível de espécie. No caso dos poliquetas, as cerdas que eu comentei anteriormente são muito importantes nessa classificação.


Microscópio utilizado para separar os organismos bentônicos do sedimento.


Impacto do sedimento terrígeno nos poliquetas ao redor dos recifes de corais do Banco dos Abrolhos
   A importância ecológica dos poliquetas fez com que eu tivesse vontade de estudá-los durante a minha graduação em Biologia e o meu mestrado em Oceanografia Biológica. Na ocasião, o Instituto Oceanográfico da USP estava desenvolvendo um projeto nos recifes do Banco dos Abrolhos (“Produtividade, Sustentabilidade e Utilização do Ecossistema do Banco dos Abrolhos – PROABROLHOS”). Os recifes de coral estão em constante modificação, sendo ora construídos pelos corais e algas calcárias, ora erodidos pelas ondas ou por algum organismo, como o peixe-papagaio. Os fragmentos resultantes destes processos de erosão espalham-se ao redor dos recifes de coral, ampliando os limites desse ecossistema. E quais são os organismos que dominam nestes fragmentos de recife? Sim, os meus queridos poliquetas!

   A área de estudo do meu mestrado foi o recife Sebastião Gomes, localizado a menos de 20 km da costa da Bahia. O objetivo do meu trabalho era caracterizar a comunidade de poliquetas que vive ao redor de um recife cujo sedimento é formado tanto por fragmentos recifais quanto por partículas finas que são transportadas principalmente do Rio Caravelas para o pé do recife com ajuda das correntes marítimas e dos ventos. Tipicamente, há maior diversidade e abundância de poliquetas em sedimentos mais grossos devido ao maior espaço entre os grãos. 


Localização do recife Sebastião Gomes no Banco dos Abrolhos.


Esquema demonstrando o aumento no espaço disponível para os poliquetas da macrofauna habitarem de acordo com o tamanho do grão do sedimento.

   Na época do meu mestrado, o que me preocupava era o aumento do aporte de sedimentos finos devido ao desmatamento das florestas tropicais costeiras para cultivo de eucalipto. Hoje, o que mais me preocupa é a lama contaminada da mineradora Samarco, que tem sido transportada ora para o sul e ora para o norte, até que atingiu o Banco dos Abrolhos em julho de 2016. Os sedimentos mais finos em regiões recifais não são prejudiciais apenas para os poliquetas, mas também para os corais que formam a estrutura do recife. Além de entupir os pólipos dos corais, a presença desse sedimento fino na coluna d’água também dificulta a penetração da luz, essencial para a fotossíntese das microalgas que vivem associadas aos corais.
   Os dados do meu mestrado foram coletados antes do desastre da Samarco e eu acredito que a utilização desses dados para o monitoramento dos recifes costeiros do Banco dos Abrolhos é um bom exemplo de como integrar a ciência básica com a ciência aplicada (Post: Ciência nada básica: http://batepapocomnetuno.blogspot.com.br/2016/06/ciencia-nada-basica.html), porque não é possível monitorar uma área sem saber como ela era antes do impacto ambiental. No momento, estes dados não são estão sendo utilizados, mas eu espero que a sua recém publicação (o artigo acabou de sair no Brazilian Journal of Oceanography) inspire esse monitoramento! 



Link para o artigo científico

Link para a dissertação de mestrado


Sobre Michele Quesada-Silva


Sou bióloga (com muito orgulho) e mestre em Oceanografia Biológica, além de ser muito metódica (as fotos das caixinhas com a coleção de poliquetas do meu mestrado exemplifica bem isso) e crítica (construtiva!). Nos últimos dois anos, abandonei os meus queridos poliquetas e participei da coordenação de uma equipe de biólogos e analistas de geoprocessamento responsáveis por avaliar o fundo marinho antes da instalação ou da desinstalação de estruturas submarinas da indústria de óleo e gás. Não me preocupo com os títulos e sim com o aprendizado. Por isso, decidi fazer mais um mestrado! Desta vez, na Europa (Espanha, Portugal e Itália) e focado em políticas públicas que visam um melhor planejamento das atividades que acontecem no ambiente marinho.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

X ENCOGERCO


Vem aí o X ENCOGERCO - O Encontro Nacional de Gerenciamento Costeiro, 
que acontecerá na FURG, (Rio Grande, RS) entre 21 e 23 de Junho de 2017!



Submissão de resumos até dia 15 de maio
Desconto na inscrição até dia 31 de maio!

Clique na imagem para mais informações!



quinta-feira, 13 de abril de 2017

Peixes Ósseos e Cartilaginosos

Por: Gabrielle Souza

Você já se perguntou qual é a diferença entre peixes e raias? Será que a raia também é peixe? E os tubarões? Essas dúvidas surgem por conta da suas particularidades na forma física, mas não pense que é só isso. Existem outras características que os diferem, porém há características que os aproximam,  e é sobre esse assunto que vamos falar hoje!
























Fonte Imagem Cardume                         Fonte Imagem Raia

Mas primeiramente precisamos saber o que é peixe. Todos os peixes têm um cérebro protegido por uma caixa craniana, e na região da cabeça possuem olhos, dentes e outros órgãos sensoriais. A maioria dos peixes vive na água, são vertebrados, respiram por brânquias, possuem o corpo coberto por escamas e não são capazes de regular a própria temperatura corporal. Porém, como em toda regra existem as exceções: o peixe-bruxa não é vertebrado e não possui escamas, os peixes pulmonados têm respiração pulmonar, e o atum controla, de certa maneira, a temperatura corporal. O termo peixe, além daqueles que estamos acostumados a ver no supermercado e aquários, é também utilizado para definir organismos aquáticos como raias, tubarões e lampreias. Por isso a denominação “peixe” não representa um grupo taxonômico monofilético, uma vez que um grupo taxonômico monofilético deve incluir todos os organismos que possuem ancestral comum. Para que peixes seja considerado um grupo monofilético seria necessário incluir, por exemplo, os tetrápodes, que são os animais que possuem quatro membros, incluindo você Homo sapiens! (veja a figura abaixo)

Filogenia dos principais grupos de Chordata. † O táxon está extinto; grifo em vermelho representa os grupos citados nesse post (Adaptado de  NELSON et al. (2016)).

Os peixes pertencem ao Filo Chordata, ou seja, são animais que apresentam notocorda, uma estrutura de aspecto cartilaginoso posicionada na região dorsal e dá origem ao eixo do embrião, sendo o futuro lugar onde as vértebras daquele organismo irão se posicionar. Pertencem ao Infrafilo dos vertebrados, que  abrange aproximadamente 60.000 espécies, e possui uma organização taxonômica separada em diversas Classes. Porém apenas duas dessas Classes nos interessam neste momento: Chondrichthyes e Osteichthyes.


Exemplos de peixes cartilaginosos: A - tubarão (Fonte); B - raia (Fonte); D - quimera (Fonte) e peixes ósseos: C - Atum (Fonte)



  
Agora vamos falar algumas das diferenças destas classes!

   A Classe Osteichthyes possui duas Subclasses, denominadas de Sarcopterygii, que inclui os peixes com nadadeiras carnosas e os tetrápodes, e Actinopterygii, cujos organismos apresentam nadadeiras com raios. Os Actinopterygii, possuem as seguintes características gerais: esqueleto ósseo, pele coberta por escamas ósseas, respiram por brânquias protegidas pelo opérculo (uma placa óssea que cobre as brânquias) e possuem vesícula gasosa (antigamente denominada de bexiga natatória), órgão que auxilia na flutuabilidade dos indivíduos.

Tipos de escamas: placóide  e óssea (Adaptado de Bemvenuti & Fischer (2010).



   A Classe Chondrichthyes possui duas Subclasses denominadas de Elasmobranchii (raias e tubarões) e Holocephali (quimeras). As características gerais dessa Classe são: esqueleto cartilaginoso, corpo coberto por escamas placóides, respiração também por brânquias, mas essas não possuem a proteção dos opérculos (exceção das quimeras), não possuem vesícula gasosa e, portanto, apresentam outros mecanismos para auxiliar na flutuabilidade (por exemplo as nadadeiras peitorais largas, semi-rígidas e horizontais nos tubarões que reduzem o afundamento e o fígado grande e rico em óleo, o que diminui a densidade corporal).


Quadro comparativo entre Peixes ósseos e Peixes Cartilaginosos



   Uma característica que peixes ósseos e cartilaginosos possuem em comum e que todos sabemos, é que ambos além de super nutritivos, são deliciosos! Mas é importante ter cautela ao consumi-los pois muitas espécies estão ameaçadas de extinção. Assim, finalizo esse post compartilhando com vocês uma cartilha de consumo sustentável de pescados, criado pelo pessoal da Unimonte: http://www.unimonte.br/img/upload/institucional_tipo/16_146.pdf. Bom apetite!






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Referências

HICKMAN C.P.; ROBERTS, L.S & LARSON, A. 2004. Princípios Integrados de Zoologia. Guanabara Koogan Editora. 846p.

What is a fish? Understanding Evolution. Disponível em: <http://evolution.berkeley.edu/evolibrary/article/fishtree_02>. Acesso em: 05 abr. 2017.

NELSON, Joseph S. et al. 2016. Fishes of the World. 5. ed. New Jersey: John Wiley & Sons, Inc., Hoboken. 752 p.

BEMVENUT, M. A. & FISCHER, L. G. 2010. PEIXES: MORFOLOGIA E ADAPTAÇÕES. Caderno de Escologia Aquática, Rio Grande- Rs, v. 5, p.1-24.