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quinta-feira, 1 de junho de 2017

De oceanógrafa a programadora

Por Letícia Portella

Publicação original aqui 

                                          

Ilustração: Silvia Gonsales

   Nesta semana me pediram pra contar um pouco sobre como eu virei programadora (ou pelo menos estou no processo). Eu escrevi esse texto para contar um pouco mais sobre essa história.
   Vamos começar do começo: sou oceanógrafa formada pela Universidade Federal de Santa Catarina em Dezembro de 2013. Bom, isso por si só, já costuma assustar as pessoas: Oceoque?
   A Oceanografia é linda e apaixonante. Aprendi muitas coisas interessantes e me apaixonei por muitas matérias que eram assustadoras. Logo no começo tivemos cálculos, físicas etc. Quando comecei a trabalhar na área eu transitei entre a oceanografia geológica e física até que, em 2011, consegui um estágio num instituto de pesquisa da Marinha e fui definitivamente para a Oceanografia Física, que é a área mais perto das exatas.
   Na oceanografia é muito comum trabalhar com dados matriciais e vetoriais e, para isso é comum utilizar um software chamado MATLAB. Por isso, durante o curso acabei aprendendo um pouco de MATLAB. Que é semelhante a uma linguagem de programação, com lógica de loops, condicionais etc.
   No entanto, quando eu cheguei na marinha, conheci dois oceanógrafos que trabalhavam com Python. Python? O que é isso? Tivemos várias discussões sobre como o MATLAB era um software pago e na faculdade usávamos a versão pirata, o que não era legal em ambos os sentidos da palavra, né? Nessa onda, eles começaram a me falar sobre como o Python seria o futuro da oceanografia, graças à sua maleabilidade, facilidade e, ainda por cima, era gratuito! Show de bola. Vamos aprender, né?

   E assim eu tive o meu primeiro contato com uma linguagem de programação mais propriamente dita. Os meus colegas foram muito espertos, sabe por quê? Todos os dias eles me desafiavam a algo novo. “Duvido que você consiga ler esse txt”, “Agora faça essa atividade com a menor quantidade de linhas possível”, e assim por diante. Eu achava aquilo fantástico! Como eles eram criativos! Tempos depois descobri que estava tudo online. Ok!

   Nesse meio tempo também tive contato com Linux, acesso a distância, Ubuntu, terminais, etc. Um mundo novo foi aberto para mim, e era muito interessante!

   Voltando do estágio cai na dura realidade: ninguém trabalhava com Python, ninguém usava ubuntu/linux e não tinha como mudar as coisas. Ok, MATLAB então. Uma das coisas que mais me desmotivou foi ter que aprender as coisas sozinha, travando nas minhas dúvidas e, ainda por cima, para aprender algo que as pessoas não viam utilidade (dentro da nossa área).
   No final da faculdade comecei a trabalhar numa multinacional com engenharia portuária e costeira. MATLAB e Windows na veia. Mas, teimosa que sou, comecei a colocar Python no que eu podia. Apesar de afastada dos estudos contínuos, eu gostava muito da linguagem e queria continuar aprendendo (desde que eu fizesse algo útil). Então eu usei Python para automatizar a produção de mapas num software chamado ArcGIS, depois desenvolvi um software para calcular o tamanho de um navio com base em umas tabelas internacionais, e até me aventurei brevemente pela web com o Django.
   Um belo dia decidi fazer mestrado e tomei a decisão de que todos os pré e pós processamentos seriam com Python. Também escolhi um modelo numérico que só poderia ser utilizado em ambiente Linux. Então eu me desafiei de verdade. Resolvi sair da preguiça e aprender! Nem que fosse sozinha! (Mas mas não foi!). Um amigo me ajudou muito e assim eu fui aprendendo ainda mais, e gostando cada vez mais.

   Nesse meio tempo o grupo da Python Floripa se formou. Na primeira reunião pedi pra um amigo ir comigo, porque tinha medo e vergonha de não saber o suficiente. Na última hora ele cancelou comigo! Acabei não desistindo e fui no encontro de qualquer forma. Eu era a única menina naquela primeira reunião e, “para melhorar”, as palestras foram puramente sobre web. Eu não entendi nada, mas achei aquele mundo fantástico.

   Decidi não ir nos próximos encontros, porque eu assustei com o conteúdo e com o quanto eu não entendi as coisas. Mas aí aconteceu a “mágica” da comunidade Python. Os meninos repararam nesse problema e chamaram uma pessoa para dar uma palestra que fosse mais “a minha cara” (menos web e mais análise de dados). Quando a palestra estava para acontecer, vários deles me mandaram mensagens avisando e falando que eu deveria ir. Fantástico, né? Depois disso me engajei de verdade e comecei a me envolver com a organização do SciPy LA 2016, Python Brasil 12 e principalmente do Pyladies. Além disso, o Anitas [saiba sobre o Anitas aqui] estava se formando e conheci mulheres maravilhosas e engajadas. Enfim, em 6 meses tudo mudou e eu já tinha mudado minha vida completamente.

   E assim eu fui percebendo que eu gostava daquilo. Muito mesmo. Eu amava programar, Github, Python, Ubuntu, etc. Eu podia gastar horas estudando isso. Conforme eu me envolvia, eu percebi que poderia ser uma segunda opção. No entanto eu fiz o que a maioria de nós faz: pensei que nunca iria conseguir. “Não sou boa o suficiente”, “Jamais conseguiria me envolver totalmente nisso”, etc. Pensei mesmo. Não adianta, nós pensamos, e todos sabemos que sim. Mas mesmo pensando isso, não parei de tentar aprender e de me envolver nas coisas. Não era o objetivo mesmo! Aí um belo dia eu resolvi apresentar para aquele pessoal de web o que uma oceanógrafa estava fazendo indo nos encontros. Afinal, eu programava? Por quê? Então apresentei um pouco dos meus resultados do mestrado, que tipo de dados eu trabalhava e um vídeozinho com uma onda de maré sendo propagada no meu modelo numérico.
   No mesmo dia, a gerente de projetos de uma empresa havia dito que havia uma vaga aberta para backend em Python. No fim da noite me vi ao lado dela e resolvi saber mais sobre a vaga que ela havia comentado e começamos a conversar. O que disse no final foi: “muito legal, mas infelizmente não posso concorrer para essa vaga”. Ela me questionou o porquê e eu disse que sabia Python, mas o que eles trabalhavam era uma área totalmente diferente. E foi aí eu recebi uma resposta que eu não esperava ouvir: “Não tem problema, o que você faz é tão complexo quanto, vem conversar com a gente com mais calma!”
   E eu fui. Assim, em 3 semanas a minha vida mudou, eu pedi demissão da minha empresa para virar backend developer, onde estou hoje indo para a minha terceira semana.
   Enquanto eu avisava as pessoas que estava mudando de área, eu fiquei esperando receber um “você está louca”! Mas não foi isso que eu recebi… Eu recebi muito apoio e incentivo, principalmente das pessoas mais próximas que aguentaram minhas inseguranças durante todo o processo entre a primeira conversa até o meu primeiro dia de trabalho.
   Não vou mentir. Na noite anterior ao meu primeiro dia eu entrei em pânico. Chorei muito. O que eu estava fazendo? Eu não ia conseguir isso! Era uma loucura! O que eu tive não foi racional, foi puramente emocional e descontrolado. Liguei pra quem eu sabia que ia me acalmar e assim me joguei no dia seguinte, com muito medo e uma vontade enorme de querer dar certo.
   Então eu gostaria de falar algumas coisas que eu aprendi no processo…
   A primeira coisa que eu aprendi é que eu não fiz essa mudança sem medo e sem insegurança. Isso não pode deixar a gente parar de fazer as coisas jamais! Recebi vários comentários dizendo que a minha coragem foi inspiradora e que eu era um exemplo. Eu não me considero exemplo de nada! Vocês não imaginam o medo que eu estava! Mas foi aí que eu percebi que os nossos exemplos também têm medo e isso não é problema nenhum. Faça com medo mesmo, mas faça!
   A segunda coisa é: faça as coisas com paixão. Descubra o que você gosta e faça! Independente se você tem perspectivas, mesmo que você ache que não sabe e que não vai conseguir. O importante é gostar de alguma coisa.

   E a última é: cerque-se e valorize as pessoas que te apoiam. Eu jamais teria alcançado tanta coisa e tido coragem de mudar a minha vida se eu não contasse com o apoio de inúmeros anjos, desde os primeiros que me desafiaram até os atuais, que me apoiaram e continuam me apoiando.
   Esse é um lugar onde decidi compartilhar minha história e tentar ajudar meninas que tem vontade de aprender a programar. Entre, fique a vontade e eu espero que você se apaixone tanto quanto eu.




Letícia Portella, oceanógrafa, desenvolvedora apaixonada e fissurada por leitura. 




quinta-feira, 16 de junho de 2016

Atuar em oceanografia implica obrigatoriamente em ter uma carreira acadêmica?

Por Adriana Lippi

Desde que ingressei na graduação de oceanografia sempre ouvi questionamentos relacionados ao "o que você vai fazer": O que o oceanógrafo faz? Trabalha com pesquisa, né? Vai trabalhar no TAMAR, certo? entre outros. Eu também não tinha muita certeza de como iria ser depois de formada, mas considerava a carreira na ciência.

Ao começar o meu curso também me engajei em diferentes atividades durante a graduação: participei de entidades estudantis, empresa júnior, me lancei a editar um informativo impresso para os alunos, resolvi que queria fazer um site primeiro para a atlética e depois para o  centro acadêmico, organizei alguns eventos… e tentei me formar nesse meio tempo.

Quando me deparei com a parte "científica-acadêmica": iniciação científica e trabalho de graduação, senti uma imensa dificuldade. Óbvio que bateu a maior crise existencial: "Poxa, mas eu fiz tanta coisa nesses anos e não consigo escrever essa monografia! Não consigo ter uma bolsa de iniciação? Posso montar um site inteiro, mas não consigo entender o que estou fazendo nessa pesquisa...". Entreguei a monografia mesmo assim, fazendo como foi possível, levei várias puxadas de orelha de relator e orientador. Acabei optando por não ingressar num mestrado logo após a graduação, ao contrário da maioria dos meus colegas que seguiram na área, consegui uma bolsa de desenvolvimento tecnológico em um projeto no INPE e lá fiquei por 6 meses.


Ilustração: Joana Ho.

Nesse período tive oportunidade de (re-)ingressar na vida acadêmica, possibilidades de mestrado, tempo para estudar, poucas responsabilidades. Até tentava, mas não me animei. Ler artigos científicos e bolar um projeto com hipótese, metodologia e selecionar e citar referências me deixava ansiosa só de pensar. Demorei até aceitar que era possível que a ciência não encaixasse com as minhas habilidades e ambições, pelo menos nessa altura da minha vida.

No final do último ano de graduação e nesse período no interior consegui fazer uma graninha fazendo sites, habilidade que consegui desenvolver durante a graduação, depois de fazer a disciplina de introdução à lógica de programação. Na disciplina descobri que programar era algo que gostava muito e isso me levou a programar sites. Fazia isso por gosto, às vezes para tapar algum buraco, quando precisava de um site para um evento. Demorei muito até ver que poderia usar essa habilidade para pagar umas contas. Tive um grande amigo, que até hoje é meu parceiro no trabalho e na vida, que insistiu muito comigo até que pudesse enxergar que poderia fazer isso como profissional.

Tinha um lado de mim que me incomodou por muito tempo: “Estou fazendo oceanografia, não quero desperdiçar a graduação fazendo sites, que todo mundo pode fazer. Quero ser oceanógrafa!”. Porém, volta e meia aparecia alguém precisando dos “meus serviços”: fazer um site ali, organizar um evento aqui, ajudar com uma diagramação acolá… Na grande maioria todos essas pessoas eram do meio científico: professores universitários, pesquisadores, entre outros.

Demorou mais um tanto para que pudesse ver que fazendo isso não estava desviando da minha área de oceanografia. Foi um professor que me mostrou: “Atividades-meio importam”, ou seja, posso não estar fazendo a atividade-fim: pesquisa, publicações, livros, porém minha atuação (atividades-meio) ajudava que essas atividades-fim fossem desenvolvidas de uma forma melhor. Aí perdi a vergonha do meu trabalho!

A partir dessa conclusão, consegui me ver de uma forma mais definida como profissional, investir mais na minha capacitação, divulgar um pouco melhor o que fazia, etc. Desde então consegui uma colocação dentro de uma empresa onde aprendi muito, e recentemente optei por mudar meus caminhos indo para o terceiro setor.

Sobre Adriana:
Oceanógrafa, programadora web, viciada em ler, aprender e questionar, com mania de controle de tarefas, equipes e finanças de projetos, diretora do Instituto Costa Brasilis. Me apaixonei pelas diatomáceas ainda no colégio, achava que passaria o resto da minha vida trabalhando com esses minúsculos e quase invisíveis seres, mas não podia ignorar as coisas visíveis do meu dia-a-dia que achava importante realizar. Participei da A.A.A Oceanográfica, do Centro Acadêmico Panthalassa, encabecei O Escafandro (periódico feito pelos alunos da graduação do IOUSP), participei da organização de eventos científicos (SNO2010, SBO2011, Oceanos & Sociedade 2013, ISBS2015), fui gerente de Tecnologia de Informação e Comunicação na SALT e agora to tentando descobrir como viver no mundo das ONG’s, mas com saudades das minhas diatomáceas!